Viajar na Primavera
Previous post
Now reading

Zika Vírus

Zika Vírus
Zika Vírus

Não escrevo artigos médicos aqui no blog por enquanto. Tenho pensando em dedicar uma publicação por semana, mas ainda não comecei.

De qualquer forma, achei que seria interessante compartilhar as informações que foram publicadas ontem por uma das maiores revistas médicas no mundo, a The New England Journal of Medicine. O título do artigo é “Zika Virus Infection in Pregnant Women in Rio de Janeiro — Preliminary Report” e foi publicado por pesquisadores brasileiros em colaboração com pesquisadores americanos da Universidade da Califórnia Los Angeles (UCLA). Até o momento, foram os primeiros dados concretos que associam o Zika às alterações do Sistema Nervoso em fetos de mães infectadas pelo vírus. O estudo mostrou que as anormalidades fetais foram encontradas em 29% dos casos confirmados de infecção pelo vírus.

Outro estudo, publicado online pela Cell Stem Cell, mostrou que o Zika pode infectar as células progenitoras que formarão o córtex cerebral, levando ao crescimento anormalmente lentificado, assim como à morte celular.

Os dois estudos ajudaram a elucidar algumas questões que permaneciam em aberto, embora não haja, ainda, um esclarecimento completo de todo o mecanismo envolvido nas lesões causadas pelo vírus.

Alguns comentários foram noticiados hoje pelo MedPage Today, um jornal de informação médica dos Estados Unidos. O Dr. William Dobyns, do Hospital Infantil de Seattle, comentou que as imagens cerebrais dos bebês afetados no Brasil mostram um padrão muito raro de lesão:

Ao longo de 30 anos, eu vi esse padrão 4 ou 5 vezes. Agora, de repente, ao longo do último mês, eu vi 15 imagens cerebrais, todos com o mesmo padrão, todos do Nordeste do Brasil.

O Zika é um flavivírus, uma classe de patógenos que nunca foi associado a mal formações congênitas. Alterações na formação fetal já foram associadas ao Citomegalovírus e ao Toxoplasma. As complicações que estão sendo vistas no Brasil são muito semelhantes às lesões causadas por esses outros patógenos quando infectam uma gestante.

 

Alguns detalhes do estudo da NEJM

Foram incluídas 88 gestantes brasileiras que tiveram vermelhidão na pele no período de 5 dias que antecederam o início do estudo. Embora os sintomas do Zika sejam leves e, na maioria dos casos, nem sejam presentes, eles incluem uma vermelhidão típica da pele, febre, dor de cabeça e conjuntivite.

Para as mulheres incluídas no estudo, foram feitas pesquisas do Zika no sangue e na urina por PCR usando transcriptase reversa. Das 88, 72 tiveram resultados positivos, com idades gestacionais entre 5 e 38 semanas. As outras 16 continuaram negativas.

As mulheres que foram positivas para a presença do Zika tiveram maior frequência de lesões de pele típicas (maculopapular), 44% versus 12% no caso das negativas para o vírus, conjuntivite (58% versus 13%), e aumento de gânglios (40% versus 7%).

Os pesquisadores examinaram os fetos com ultrassonografia com Doppler em 42 mulheres com positividade e em todas as 16 sem a presença do vírus. Eles detectaram alterações em 12 fetos das mulheres com o vírus (29%):

  • diminuição do tamanho do feto com ou sem microcefalia em 5 casos
  • calcificações ventriculares ou outras lesões no cérebro em 7 casos
  • alterações na quantidade de líquido amniótico ou no fluxo das artérias placentárias, umbilicais ou cerebrais em 7 casos

Em 8 mulheres que tiveram os bebês, as alterações encontradas foram confirmadas após o nascimento.

A infecção pelo Zika ocorreu da 6a. à 35a. semanas de gestação, enquanto as mães cujos fetos tiveram anormalidades descritas nos exames foram infectadas entre a 8a. e a 35a. semanas. Do total, 4 foram infectadas no primeiro trimestre, 6 no segundo trimestre e 2 no terceiro trimestre.

Sabia-se, por estudos prévios, que o vírus era capaz de cruzar a barreira da placenta e foi detectado no líquido amniótico. E o vírus já tinha sido identificado no cérebro de 2 bebês de mães europeias que descontinuaram as gestações.

Embora esse trabalho da NEJM tenha ajudado a mostrar a relação do vírus com as alterações encontradas nos fetos, ainda existem muitas perguntas que precisam ser respondidas. Até o momento, as alterações descritas foram apenas encontradas no Brasil e na Polinésia Francesa, embora 52 países no mundo têm ou tiveram epidemias do Zika desde 2007.

– Sílvia Souza

Written by

2 Comments

Instagram
  • #jorgeluisborges #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #miguelestevescardoso #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #cesarecantú #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #thubtenchodron #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #albertcamus #citações #reflexõesdesilviasouza