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Voyeurismo

Um quarto de hotel com uma enorme janela. Vista linda da cidade. Vários prédios comerciais ao redor, mas todos distantes. Nada atrapalhando aquele espaço aberto que permitia que ela visse tudo se iluminando: carros, ruas, o motel ao longe com seu neon vermelho.

Estava tão encantada com aquela visão, que não pensava em fechar as cortinas. Ela é uma mulher urbana. Cidades grandes ou pequenas, velhas ou novas, movimentadas ou pacatas. Não importa. O que conta é ver pessoas, perceber sua rotina, seu ir e vir, as maneiras de se vestirem e de se comportarem.

Foi tomar um banho quente para descansar do dia exaustivo. Estava no hotel a trabalho e o dia seguinte seria repleto de palestras e reuniões.

O banho quente, perfumado. Toalha macia. Hidratante na pele.

Estava bem e, apesar de ver todos os defeitos de seu corpo, olhava-se de alto a baixo no espelho (como não conseguia fazer em sua casa) e gostava do que via. Tinha algo de belo naquela imperfeição.

Estava nesse estado de contemplação quando o celular tocou. Reconheceu pelo toque que era um dos filhos. Foi correndo ao quarto, deitou-se na cama e atendeu. Enquanto falava, mudava de posição constantemente. Ninguém a via. Ficou de quatro, deitou-se de lado, de barriga para cima com as pernas abertas, de bruços com o bumbum para cima. Era como se procurasse a melhor posição para falar ao telefone. Mas nenhuma delas foi a convencional.

Quando desligou o telefone, parecia ver luzes brilhando de uma das janelas do prédio mais próximo. E então se lembrou da janela iluminada e seu corpo completamente exposto. Ficou imaginando se poderiam ser sinais ou flashes. Excitou-se de imaginar pessoas que pudessem tê-la observado.

Imediatamente, a repressão chegou forte para condená-la. Como poderia se expor daquela forma. E como poderia se excitar ao se imaginar sendo observada e admirada?

Mas havia algo nela curioso e lascivo. Não era um pecado. Era algo bom, que fazia com que se sentisse viva.

Sentou-se na cama, como quem se senta em uma poltrona do cinema. Passou a olhar cada janela acesa dos prédios à sua volta, com uma esperança inconfessa de ver alguém olhando para ela.

Pareceu-lhe ter visto alguns olhos brilhando na penumbra de uma sala apagada.

Talvez fossem apenas os reflexos dos faróis dos carros na Marginal.

 

– Sílvia Souza

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5 Comments
  • M.Raydo disse:

    Só curte o próprio corpo quem vê graça na vida e em si mesmo. Esta graça, a que me refiro, é a de encantamento, de se querer bem e a de desejar que alguém a admire! Quem está motivado e cheio de energia! Se está bem, tudo está bem! Legal pra caramba seu texto! Que clima ótimo, cheio de sensualidade e mistério! Excelente! Parabéns! 😉

  • Olá Sílvia boa tarde .

    Eu assisti o filme que você recomendou Homens , Mulheres e filhos .

    ( muito estranho ver Adam Sandler em papel serio né ?! rs)

    – Mas gostei da ideia do filme como um todo , embora acho que apelaram demais na questão sexo , sei que é o que predomina na internet , mas não é a unica area que afeta na sociedade. Acho que fico muito nesse tema , e não focou outras partes igualmente importantes . Mas realmente gostei , obrigada pela dica – em breve comento sobre no blog.

    —————————————————

    Espero que não se importe te marquei numa tag , olha lá
    https://oeuinsolito.wordpress.com/2015/08/02/tag-complete-a-frase-2/

    Excelente domingo , beijo

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