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Você sabe ler?

Você sabe ler?
Você sabe ler?

Não foi hoje. Foi há quase uma semana. Entramos na livraria daquele shopping, como sempre costumamos fazer. Uma livraria é como um parque de diversões para mim. São tantas imagens, desejos, sonhos. A livraria contém viagens, mundos diferentes, esperanças, amores, crimes, alegrias. Tudo está lá dentro. A herança de muitas pessoas que já se foram.

Parei em algumas estantes de livros procurando títulos da minha lista interminável. Talvez houvesse alguma promoção.

Os meninos foram olhar os livros infanto-juvenis, mais no interior da livraria, colocados estrategicamente ao lado dos consoles dos videogames.

Não sei quanto tempo se passou. Não tínhamos pressa. Olhei calmamente tudo o que queria. Quando decidi que não compraria nenhum livro (pelo mero fato de ter 50 livros em casa esperando para serem lidos), fui procurar meus filhos.

Estavam vendo alguns jogos de videogames, procurando títulos novos que não seriam comprados.

Encostei-me ali perto e passei a olhar a loja toda, as pessoas circulando. Adoro olhar cada um, imaginar sua história ao observar a categoria de livro que despertou seu interesse. Pessoas sozinhas. Casais. Pais. Filhos. As mais diversas pessoas. E há sempre algo em uma livraria que possa despertar interesse, independente de sexo, idade, ou qualquer outra característica.

Notei um menino jogando videogame também. Como meus filhos. Ele tinha a altura aproximada do meu caçula de 11 anos. Em minha análise de tipos, percebi que ele estava descalço. Os pés sujos, a roupa nem tanto. Duas outras crianças mais velhas, um menino e uma menina, vieram falar com ele e percebi que estavam juntos os três. Os três vestidos da mesma forma, mas os mais velhos calçavam chinelos. Eles se divertiam com todos aqueles equipamentos eletrônicos: fones de ouvido, iPads, smartphones. Os mais velhos percorriam a loja, explorando cada coisa enquanto o mais novo estava concentrado no jogo.

Em um determinado momento, ele se virou para mim: “Tia, você sabe ler?”

Aquela frase tão curta me atingiu como uma flecha. Não daquelas que mata na hora, mas sim do tipo que não poderá ser retirada e vai machucar enquanto eu viver.

Olhei para ele e respondi que sim, eu sabia. Ele me pediu para ler algo na tela. Algo escrito assim: VOLTAR.

Eu li. E ele me perguntou: “E agora, o que eu tenho que fazer?”

E eu o ajudei a decifrar aquele código misterioso dos controles de jogos eletrônicos.

Eu não gosto de falar de política aqui. Não discuto partidos, escolhas.

Mas sou tomada por uma revolta tão grande… acho que misto de revolta, raiva, indignação, sofrimento, tristeza… um monte de sentimentos misturados… ao ver tanta corrupção, tanto dinheiro desviado, uso em coisas menos importantes, e a negligência com as crianças, com a educação. Não estou falando do FIES. Estou falando do mais básico: permitir que uma criança aprenda a ler e escrever.

Isso me revolta e me queima por dentro!

Eu queria abraçar aquele menino, levá-lo para minha casa e ler para ele todas as histórias que eu sempre li para meus filhos. Queria dar a ele a chance de conhecer o mundo e de sonhar com piratas e magos, mesmo sem nunca entrar em um trem ou avião. Queria ensinar cada letra, sílaba, palavra, frase.

Antes que eu pudesse me recuperar do nó que tirava minha voz, os irmãos vieram buscá-lo e os três saíram juntos da livraria.

Nunca mais vou vê-lo. Mas ele deixou uma marquinha na minha alma, naquele minúsculo momento em que pediu minha ajuda.

– Sílvia Souza

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3 Comments
  • Realmente tem pequenas coisa que tocam a gente de forma profunda. Isso acaba sendo mais um exemplo de que temos muito a percorrer em questão de educação e concordo muito com você. Belo texto, porém triste, infelizmente, boa noite e grande abraço 🙂

    • Sílvia Souza disse:

      Obrigada pelo seu comentário.
      O texto é triste, porque foi muito triste pra mim…
      E acho mesmo que nossa vida pode mudar por causa de pequenas coisas… uma frase… um olhar…
      Boa noite!

  • talison disse:

    Nossa. Bom, eu sei como é isso, pois vivo com realidades parecidas… dentro de casa, na comunidade, na escola também tive. É de partir o coração. É uma pena que nem todos tenham sua sensibilidade, pois essa situação é inadmissível! Tenho muita vontade de mudar essa situação… trabalhar em prol da educação etc. Mas infelizmente não agora. Antes disso terei que me ajudar primeiro, caso contrário, não conseguirei ajudar outros. Obrigado pela mensagem.

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