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Vida (exercício de escrita)

Vida (exercício de escrita)
Vida (exercício de escrita)

Mais um fim. Sua vida parecia um filme; o prólogo sempre anunciando mais uma tragédia. Desilusões. Mentiras. Decepções. Basta! Este sofrimento precisava ter fim. Sua alma gritava. Não queria viver só.

Uma notícia chamou sua atenção. Os robôs Geminoids eram uma realidade. O comprador poderia escolher suas características físicas e sua personalidade. Seu toque era muito semelhante ao de pele humana.

Aquela seria sua companhia. Um robô. Escolhido por ela, para ela. Um homem que não poderia deixar de amá-la. Ela saboreava esse momento.

Na manhã seguinte, ela se fez bela: um banho relaxante e uma ideia fixa. Investiu todo o seu dinheiro, todo o seu eu e comprou o objeto de desejo! Construído exatamente como ela sonhara.

Em pouco tempo, ele chegou. Que homem perfeito!

Como ela chamaria o amor de sua vida? Jacques. Era isso: Jacques.

No primeiro dia, ela sentiu as algemas serem abertas, sua alma estava livre. Cinema, teatro, viagens. Um mundo novo sendo explorado de uma forma jamais imaginada. O tempo foi passando e a admiração por Jacques crescia dia a dia. Ela estava apaixonada. Ele correspondia em tudo. Não se opunha. Não havia disputa pelo controle remoto, nem para o lado da cama. Não havia bagunça no banheiro. Não havia críticas às horas em frente ao computador, ao seu “sim” sem limites, não existiam perguntas sobre seu passado, sobre suas ansiedades.

Como ela estava feliz.

 

Foi promovida. A posição que ela tanto almejava era dela. Chegou à casa, eufórica de ansiedade de dar a notícia ao seu amor. Não tinha tempo de esperar um jantar, não existia momento certo, apenas deu a notícia. Nenhuma reação. Não houve um sorriso, um abraço, não houve cumplicidade… nada! Apenas aquele olhar que, por muitos meses, fora suficiente.

O que estaria acontecendo? Ele não ficava feliz com suas vitórias? E um grande desapontamento foi crescendo dentro dela. A cada dia de cansaço, em que tudo o que ela queria era dividir seus problemas, suas angústias, o mesmo ar de indiferença era o que recebia.

Não demorou muito para que começasse a sair sozinha. Falar com outras pessoas. Rapidamente, voltou a sentir a emoção de amar. Não havia o medo, apenas a entrega. Poderia sofrer, mas iria viver, amar e ser amada.

O robô foi sendo esquecido. A bateria não era carregada. Os movimentos foram desaparecendo. Tornou-se um boneco. Um objeto que, dentro de sua carcaça metálica, não tinha um coração.

– Sílvia Souza

(06-05-2013)

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8 Comments
  • Thais disse:

    Mais um excelente texto para refletirmos. Do que adianta ter alguém ao nosso lado se esse alguém não compartilha emoções conosco nem se alegra por nossas alegrias e nos consola em nossas tristezas, se alguém é um presente ausente?
    Beijos!

    • Silvia Souza disse:

      Olá, Thaís!
      Que bom que gostou…
      Foi um exercício de escrita que fiz há algum tempo… mas no fundo, isso acontece bastante, não é?
      Acontece de estarmos em companhia de alguém que não está envolvido de verdade com nossas conquistas ou nossas tristezas…
      Beijo!

  • Que coincidência ler este texto, durante esta semana acabei por ver filmes e um série sobre tecnologia e inteligência artificial.

    Filmes Ex Machina, Her e a série Black Mirror(tem no Netflix ) , todos muito interessantes e que levantam muitas perguntas, uma delas está em seu texto, um ser humano pode amar uma máquina?.

    Espero que vc possa gostar de algum.

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      De tudo o que você citou, assisti ao filme Her e adorei! A verdade é que acho absolutamente possível isso acontecer.
      O problema é quando vem a necessidade de afeto verdadeiro, de um abraço, de calor humano…

  • Her é um filme visualmente muito bonito e que levanta perguntas relevantes sobre as tecnologias, Ex Machina está muito a frente, é mais “realista” e agressivo quanto aos desdobramentos da realidade de inteligência artificial.

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Mas deve ser mais angustiante, não é?
      Tenho uma capacidade grande de me envolver emocionalmente em filmes assim… e acabo ficando aflita e incomodada…

  • Este filme exige que vc se envolva, a experiência é está mesmo.
    Deixe anotado, quem sabe um dia vc encara está película 😘

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Quem sabe…
      Acho que tem que ser em uma época em que esteja melhor emocionalmente… Ou quando tiver desistido de tudo de vez…
      😊

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