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Vestibular

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Sinto que minha escrita está um pouco diferente nessas últimas semanas. Estou mais objetiva e menos sentimental. Tenho evitado escrever sobre assuntos muito pessoais que façam aflorar emoções. Creio que a morte prematura do meu cunhado possa ter contribuído. Mas certamente há outros fatores também. Estou bastante desiludida com as pessoas, com o mundo, com amigos queridos que passaram a me desprezar, comigo mesma por não conseguir tomar todas as atitudes que julgo corretas ou pela incapacidade de ajudar todas as pessoas que precisam de mim.

Após esse preâmbulo e frente ao sentimento de desilusão que preencheu minha vida recentemente, vou continuar escrevendo sobre algumas coisas menos pessoais, menos sofridas, pelo menos por enquanto. Acho que meu entusiasmo está adormecido.

Então, vou pegar o gancho de uma reunião à qual compareci recentemente na escola dos meus filhos para falar sobre vestibular e escolha profissional.

Meu filho mais velho acabou de completar 15 anos e cursa o primeiro ano do Ensino Médio. Ele é um excelente aluno. Como é normal nessa idade, ainda não tem certeza sobre o que pretende cursar na Faculdade. E os pais dos adolescentes dessa idade já vivem a preocupação do ingresso em uma Universidade. Mas, afinal, por que tão cedo?

Tenho observado uma coisa inédita no país: as pessoas com boa formação profissional ou acadêmica ou financeira estão deixando o país como nunca aconteceu antes. Não são pessoas que procuram outros países para tentar a vida. Não. São pessoas produtivas, que poderiam ajudar a construir um país melhor, mas aceitam ofertas externas com o interesse de fugir da violência, da corrupção, da impunidade. Não é fácil viver em outro país, sem previsão de voltar. Mas é isso o que muitas pessoas estão fazendo… deixam a família, os amigos, a pátria e vão viver como estrangeiros, expatriados em outras terras.

E talvez nunca tenha havido tanta procura por aplicação de estudantes brasileiros em universidades fora do Brasil. É certo que as universidades são melhores, que as distâncias estão encurtadas, que a internet ajuda na comunicação. Mas mesmo assim. Inúmeros jovens de 18 anos buscam tentar a vida fora e, se possível, não voltar mais.

Mas a aplicação para Universidades americanas, especificamente, exige um currículo diferenciado. E os jovens precisam começar a prepará-lo o quanto antes; talvez a partir dos 15 ou 16 anos. Não precisa haver a definição de uma carreira. Apenas deixar tudo pronto para aplicar para uma ou várias universidades nos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, França, Alemanha, Portugal e assim por diante. Eles se preparam para o nosso vestibular e nosso sistema de ensino engessado e se preparam para esses desafios diferentes.

Estudam línguas. Fazem provas de proficiência de inglês, espanhol, francês e o que mais houver de exigência. Fazem atividades extracurriculares, precisam se destacar, estudar, ter bom desempenho… por um sonho de ter uma vida melhor fora daqui. Sonham com segurança, paz, bom sistema de saúde, educação de qualidade para os filhos, possibilidade de fazer pesquisa e criar coisas boas, porque o dinheiro não é desviado para enriquecer apenas alguns. Não são sonhos indecentes. Muito pelo contrário. Eles sonham com aquilo a que todos deveriam ter acesso, aquilo que deveria ser um direito de todas as pessoas.

Estou preparando meu filho para todos os caminhos. Ao menos para que ele tenha a possibilidade de fazer a escolha dele. Não posso dizer que eu fico contente com isso. Acho bastante triste. Vejo um país que teria tudo para ser maravilhoso e que vem perdendo as pessoas mais capacitadas, inteligentes, criativas, porque não consegue dar o mínimo que uma pessoa precisa para viver com tranquilidade.

– Sílvia Souza

 

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4 Comments
  • Tati Iegoroff disse:

    Esse texto está simplesmente fabuloso! O vestibular brasileiro é uma coisa que precisa ser muito discutida, assim como precisamos entender que quem faz o nosso país somos nós

    • Olá, Tatiana!
      Obrigada pelo elogio (embora não ache que meu texto tenha ficado exatamente como eu gostaria…).
      O Brasil precisaria de tantas, mas tantas mudanças, que não consigo pensar direito qual seria a forma correta de implementar tudo. Mas não tenho dúvidas de que teríamos que começar pela Educação… desde a alfabetização.
      O mundo todo vem discutindo a necessidade da Educação passar por uma revolução. Passamos por mudanças incríveis e o sistema de ensino continua (basicamente) o mesmo. E aqui, é tudo muito engessado, estático. Os alunos não têm outra opção que não seja seguir as disciplinas e avaliações padronizadas, independente do desempenho do aluno ou de seu interesse.
      E acho uma catástrofe a saída cada vez maior das pessoas mais inteligentes, mais preparadas…
      Ando muito desanimada com tudo isso…
      Beijo!

      • Tati Iegoroff disse:

        Elogio merecido!
        É bem desanimador mesmo o que vemos, mas também precisamks acreditar que há pessoas lutando por mudanças, só precisamos que elas não fiquem tão na sombra.
        O jeito é dar um passo por vez: se cada um contribuir em seu raio de alcance a gente consegue mudar essa realidade.

        • Você tem razão.
          Às vezes, parece que o que fazemos não consegue ressoar no todo. Mas se cada pessoa fizer sua partezinha, com certeza, haverá um resultado final muito bom!

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