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Uma carta

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Uma carta

Posso não ter chegado no momento certo, amputando os planos do futuro. Eu entendo que ninguém sabia direito como seria após a minha chegada. Os projetos continuaram sendo feitos até a primeira vez em que os seus olhos viram os meus. Meus pequenos olhos, incapazes de fixar o olhar. Naquele momento, tudo mudou. E vocês perceberam que o rumo de suas vidas teria que mudar.

Meu corpo pequeno e frágil, de pele macia e sensível, exigia delicadeza. Vocês perceberam que não poderia haver sons altos, luzes intensas, festas noturnas. Mais do que tudo, vocês passaram a desejar noites calmas e silenciosas e, se possível, de sono ininterrupto. Não podia faltar leite. Não podiam faltar as fraldas. Não podia faltar atenção e cuidado.

A partir daquele momento, todos os programas tiveram que mudar. Não haveria mais viagens longas, riscos desnecessários, gastos inconsequentes, desejos próprios. Tudo parecia diferente. O mundo não tinha mudado. Vocês mudaram com a minha chegada. Foram vocês que passaram a ver o mundo de outra forma.

Minha chegada, tão pouco planejada, ocorrida nove meses depois de um rompante de paixão inconsequente, foi a responsável por tudo. A pausa nos estudos; a diminuição na vaidade; a falta de tempo para si; as olheiras; os banhos rápidos; as noites insones; os gastos excessivos; as dores nos seios; a falta de sexo; a redução da intimidade; as brigas constantes; a falta de assunto; o ganho de peso. Vocês tiveram que abrir mão de sonhos próprios, dos estudos no exterior, do carro esportivo, da casa na praia.

Eu não estava propriamente nos planos. Não fui evitada, mas não fui desejada. Mas agora estou aqui. De duas células que se juntaram e multiplicaram e se diferenciaram, meu corpo inteiro foi formado. Cada pedacinho. E preciso de vocês. Porque não serei capaz de cuidar de mim. Muitos anos irão se passar até que eu possa seguir minha vida e deixá-los seguir as suas vidas. Nesses anos, preciso de vocês. Peço desculpas pelos sonhos que serão postergados.

Talvez, quem sabe, naquele futuro distante, naquele momento em que eu puder seguir minha vida, sozinha, autônoma, quem sabe vocês não vão chorar minha partida? Quem sabe vocês não vão olhar e perceber que não foi um descuido, mas um desejo incontido, sincero? Quem sabe você não vão olhar para os sonhos postergados ou abandonados e perceber que nenhum sonho valeria mais do que uma daquelas risadas sinceras que terei dado ao longo da minha vida? Ou se lembrarão com saudades dos primeiros passos, das novas palavras, do início da escola, dos dentinhos que caíram, das pequenas tristezas, das inúmeras alegrias…

E verão que a minha chegada trouxe o verdadeiro sentido da vida. O sentido do amor, do carinho, da família. Aqueles sentimentos que ficam, mesmo depois das partidas. A vida que persiste mesmo depois da morte. O laço que nunca será desfeito se houver só um pouquinho de dedicação.

Quem sabe, no final de tudo, vocês irão simplesmente me amar.

– Sílvia Souza

 

 

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