Infidelidade 3
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Um amor fora de hora (Infidelidade 4)

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Um amor fora de hora (Infidelidade 4)
Um amor fora de hora (Infidelidade 4)

Chegara a idade de casar. Todas as pessoas próximas começam a cobrar. Vem a vontade de ter filhos e uma companhia permanente.

E se acontecer de não ter surgido a pessoa certa ainda? Aquela que faz o coração bater mais forte. Aquela pessoa para quem se olha e se imagina envelhecendo ao lado.

No caso dele, quando chegou esse momento em que ele sentiu o desejo de ter alguém, ele não estava certo de que tinha encontrado a mulher certa. Ela era bonita. Eles se conheciam havia vários anos. Ela sempre soube que queria se casar com ele, independe do que tivesse que fazer. Cercou-o de todos os lados.

Ele não se incomodava com isso. Até porque, embora houvesse o cerco, era apenas visando o casamento. Ela não era controladora e permitia que ele tivesse toda a liberdade que quisesse.

Mas ele olhava para ela e sentia que algo faltava. Um encanto, uma doçura talvez. Ela era excessivamente segura de si, não era muito gentil com as pessoas e demonstrava uma superioridade permanente, com todas as pessoas a quem se dirigia. E o pior é que ele sabia que também era assim; mas achava que em menor proporção. Mas se sentia incomodado da mesma forma. Ele mesmo queria ser diferente. Os ambientes que frequentavam, as pessoas com quem conviviam, tudo parecia exigir que essa forma de ser subsistisse.

O casamento aconteceu. Eles tiveram que se mudar do país por causa do trabalho dele. Ele gostava da companhia dela, mas havia sempre uma não completitude, a falta de algo.

Ela irradiava felicidade. Era invejada por todas as amigas, comentada em todas as rodas. Não havia mais nada que ela pudesse querer. Só faltavam filhos, para prendê-lo ainda mais naquela teia.

Ela engravidou e nasceu uma menina linda. Quando ele se viu pai, quando sentiu aquele ser tão pequeno olhar para ele como se enxergasse sua alma, ele achou que tinha encontrado a parte que faltava em si mesmo.

Dedicou-se àquela menina intensamente. Era pai e mãe. Queria desempenhar todos os papeis possíveis, como uma forma de não perceber o vazio que voltava a crescer.

Mas antes que ele tivesse essa percepção, mais uma linda menina chegou. Foi mais uma paixão instantânea que o preencheu. Mais uma dedicação integral de todo o seu tempo livre.

Ele preparava o material para a escola, o lanche, o uniforme, ia levá-las e buscá-las, ajudava na lição de casa, preparava o jantar, dava banho, colocava para dormir, brincava de boneca, pintava as unhas delas, lia histórias. Fazia supermercado nos finais de semana. Viajava para a casa de campo.

Ele era feliz assim. O casamento podia não ter dado a pessoa com quem ele gostaria de envelhecer, mas as filhas eram capazes de preencher o buraco constante no qual ele não queria pensar.

Será que temos mesmo necessidade de um amor “verdadeiro”, arrasador, apaixonado? Ou será que apenas nos unimos e esperamos que um afeto sincero cresça e permita uma convivência “até que a morte os separe”? As pessoas se entregavam em casamentos arranjados até pouco tempo atrás. Havia interesses econômicos, familiares, acordos em que as mulheres eram negociadas. E dava certo, não dava? Será que precisamos tanto buscar esse amor idealizado e impossível?

Ela continuava feliz. Tinha um excelente trabalho. Uma vida confortável. Um marido invejável e que tirava de suas funções todo o trabalho do qual suas amigas reclamavam. O que mais ela poderia desejar? Ela fazia vista grossa para dias em que ele voltava tarde do trabalho; para tardes inteiras em que ele desaparecia sem dar explicações; para as mensagens que não paravam de chegar no celular. Sempre havia uma desculpa na qual ela se forçava a acreditar.

Um dia, a estabilidade se rompeu.

Um dia, ele conheceu alguém que encaixou completamente naquele buraco disforme que crescia dentro dele. A outra era diferente. Tinha um encanto discreto, um sorriso que acolhia e trazia em si o desejo de não deixar partir, quase como uma magia que hipnotiza. Ele esteve com ela e não foi capaz de deixá-la. Precisava fazê-la prisioneira, já que ele estava preso e não podia partir com ela para uma vida juntos.

Ele a amava, a desejava; ela era a mulher com quem ele gostaria de envelhecer. Ele construía sonhos nas nuvens e entregava-se até o limite de sua liberdade.

Mas chegou o dia em que a outra pediu mais. A outra queria uma vida… aquela vida sonhada por ele. Queria dormir e acordar ao lado dele, repartir as refeições, as festas de família, as tardes de sábado e as viagens de férias.

A esposa não o deixaria partir. As filhas não o deixariam partir. E ele não conseguiria voltar a ser metade, dessa vez menos da metade, porque teria que se afastar das duas filhas, que passariam a odiá-lo.

E ele finalmente abriu o cárcere e deixou que ela partisse… sozinha. Abriu mão daquele amor contado em histórias. Aquele amor tão raro. E que, além de raro, geralmente não aparece na hora certa.

E o buraco voltou a surgir. Ele aprendeu a suportar. E foi aprendendo a preenchê-lo com as lembranças que a outra tinha deixado.

– Sílvia Souza

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6 Comments
  • Marcelo disse:

    Adorei as mudanças por aqui! Ficou lindo e moderno! Deu aquela limpada geral! Ótimo!
    Seu texto é forte e cheio de sentimentos pesados. Adoro sua forma de escrever, os detalhes, as características dos personagens.
    Achei a mulher e o marido um pouco arrogantes e, creio que isto também deve ter afetado no romance deles.
    Ninguém é perfeito e acima da média! Não conheci ninguém assim. Os que pareceram ser assim, no dia a dia, logo mostraram suas verdadeiras faces. E, por isso, os problemas e erros aconteceram em suas vidas.
    Os que perceberam estes defeitos e deram a volta por cima, hoje me parecem mais leves, livres e felizes.
    Este peso que tenho sentido nestes seus textos têm me feito refletir bastante!
    Parabéns! Curto! 🙂

    • souza.silvia@outlook.com disse:

      Obrigada por ler!
      Obrigada pelo comentário!
      Eles são sempre bem vindos e você capta sempre a essência.
      Boa noite!

  • mariel disse:

    Claro que é possível viver sem amor. Mas qual seria a graça?

    • Silvia Souza disse:

      Mas há momentos em que temos que fazer escolhas… Ou, pelo menos, tomar uma atitute que possamos manter pela vida.

      • mariel disse:

        Escolher sempre, querida. Mas não penso que a gente deva deixar que outros escolham por nós o fechamento da nossa alma às coisas da vida, entre elas o amor. Pensa nisso, hum?

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