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Filme “Um amor em Paris” – 2014 (“La ritournelle”)

Filme “Um amor em Paris” – 2014 (“La ritournelle”)
Filme “Um amor em Paris” – 2014 (“La ritournelle”)

Paris.

Qualquer pessoa que me conheça um pouquinho sabe do meu amor por Paris (e pela França). Acho que minha alma é francesa. Tenho uma alma expatriada vivendo em um corpo de nacionalidade brasileira, mas com origens genéticas de Portugal, Espanha e Itália.

Caminho com mais facilidade por Paris que por São Paulo, que é a cidade que me acolheu desde 1989. Conheço os bairros de Paris (arroundisements), muitas de suas ruas, as estações de metrô, restaurantes, lojas, parques. Tenho meus lugares preferidos. E, quando vou a Paris, meu objetivo é fugir do mundo e me refugiar em mim mesma.

Talvez Paris permita isso: a redescoberta de si mesmo, o renascimento. Ela tem uma beleza melancólica tingindo sua história milenar. Ela é cantada em músicas, contada em livros, ilustrada em pinturas e exibida em filmes à exaustão. E nunca é demais.

Nesse filme, um olhar. E não acho que seja um olhar original. Porque essa é uma história tão comum. Mesmo que não seja confessada, mesmo que fique apenas nas fantasias.

Um casamento de muitos anos (talvez mais de 20) que passa pelo adormecimento dos sentimentos. A rotina é sempre a mesma. Não se pratica a conquista diária. Uma fase em que é mais fácil apontar os defeitos e as coisas que incomodam do que enumerar as qualidades e os motivos de manter a relação.

E, de repente, no meio dessa anestesia, surge um jovem que encanta a mulher de meia idade com elogios que há muito ela não escutava. E claro que nesses momentos, a carência não permite enxergar os fatos; eles se apresentam pintados com cores que os próprios desejos adormecidos acrescentam.

E ela parte para Paris em busca dessa ilusão, que não demora a deixar transparecer seu lado mais sombrio. O problema é que essa ida a Paris obriga a mentiras. E as mentiras não duram muito.

É claro que Paris sempre surpreende. E ela encontra sim um romance para viver em uma noite e permitir a redescoberta daquilo que ela nem achava mais que existia.

O marido vê a traição e tenta lidar com ela. E há uma cena do filme que achei muito emblemática. Quando o marido está desabafando com um empregado da fazenda, contando o que tinha visto, o empregado diz que ele deveria ficar tranquilo, porque ela iria voltar, porque ela o amava. E o marido questiona como ele poderia saber. E o rapaz diz: “porque você também teve seu romance e você voltou; e ela ficava aqui, chorando na cozinha, esperando por você; ela esperava porque te amava e você voltou porque a amava”.

E a expressão dele ao perceber a inversão dos papeis naquele momento foi algo muito significativo. Estão todos sujeitos às armadilhas que a vida coloca em nossos caminhos. Seria maravilhoso conseguir prever o futuro, refletir melhor, ser mais racional. Mas nem sempre somos assim. Haverá dúvidas e questionamentos independente do caminho que escolhermos quando chegarmos a uma encruzilhada.

Talvez a escolha racional deveria ser aquela que magoe menos os outros e a nós mesmos (o nosso EU precisa entrar nessa equação, ou nunca conseguiremos ser, de fato, felizes).

 

 

– Sílvia Souza

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