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“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Primeiras Histórias #6: “A fuga”

“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Primeiras Histórias #6: “A fuga”
“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Primeiras Histórias #6: “A fuga”

Este é o sexto conto da subdivisão Primeiras Histórias, do livro Todos os Contos de Clarice Lispector, chamado A fuga. Este é um projeto criado pela Márcia Cogitare do Blog Surtos Literários e espero que leiam a resenha que ela escreveu sobre o mesmo conto, clicando aqui.

Este conto foi escrito em 1940. É uma história absolutamente maravilhosa sobre uma mulher casada há 12 anos, infeliz em seu casamento, que resolve em um determinado dia sair de casa.

Casamento não é algo fácil. Existem muitas piadas feitas por homens sobre a prisão que é o casamento… e eu acho que eles de fato acreditam que o casamento seja um conto de fadas maravilhoso para as mulheres. Talvez a própria indústria do casamento tenha ajudado a construir essa imagem; até hoje, muitas mulheres ainda sonham em fazer uma cerimônia dos sonhos, gastando uma fortuna que foi guardada ao longo de anos, com muito esforço, para compartilhar com muitas pessoas (a maioria sem nenhum relacionamento próximo) algumas horas em que a noiva parece fazer questão de mostrar aos outros que cumpriu seu papel e arrumou um companheiro para a vida.

E, após essa cerimônia suntuosa, começam os inúmeros problemas e dificuldades que acompanham a convivência de duas pessoas que tiveram criações diversas e guardam segredos inconfessos que irão, aos poucos, surgir no meio dessa convivência.

E isso tudo acontece ainda nos dias de hoje. O que era um casamento realizado na década de 1930 ou de 1940? A mulher era uma propriedade do homem; quase uma escrava, porque geralmente não ganhava o próprio dinheiro e não tinha como sonhar em viver seus próprios desejos, já que não teria como pagar para realizá-los.

E, nesse conto de beleza melancólica, Clarice Lispector nos coloca na pele dessa mulher que tenta viver, mas se angustia com a possibilidade de não conseguir arcar com a liberdade que deseja para si.

Agora que decidira ir embora tudo renascia. Se não estivesse tão confusa, gostaria infinitamente do que pensara ao cabo de duas horas: “Bem, as coisas ainda existem.” Sim, simplesmente extraordinária a descoberta. Há doze anos era casada e três horas de liberdade restituíam-na quase inteira a si mesma: – primeira coisa a fazer era ver se as coisas ainda existiam. Se representasse num palco essa mesma tragédia, se apalparia, beliscaria para saber-se desperta. (…)

Não havia, porém, somente alegria e alívio dentro dela. Também um pouco de medo e doze anos.

Mas a fuga de casa não trás apenas alívio. Até porque não é fácil se libertar de um passado de opressão.

Resolveu tentar de novo aquela brincadeira, agora que estava livre. Bastava olhar demoradamente para dentro d’água e pensar que aquele mundo não tinha fim. Era como se estivesse se afogando e nunca encontrasse o fundo do mar com os pés. Uma angústia pesada. Mas por que a procurava então?

Ela estava parada em um espaço público, embaixo da chuva, apenas sentindo a liberdade e tentando imaginar o que iria fazer dali em diante. Seu sonho era o de partir em um navio em busca de novas terras e uma nova vida.

Mas nesse momento a recordação do homem não a angustiava e, pelo contrário, trazia-lhe um sabor de liberdade há doze anos não sentido. Porque seu marido tinha uma propriedade singular: bastava sua presença para que os menores movimentos de seu pensamento ficassem tolhidos. A princípio, isso lhe trouxera certa tranquilidade, pois costumava cansar-se pensando em coisas inúteis, apesar de divertidas.

(…) Por que é que os maridos são o bom senso? O seu é particularmente sólido, bom e nunca erra. (…)

Ela ri. Agora pode rir… Eu comia caindo, dormia caindo, vivia caindo. Vou procurar um lugar onde pôr os pés…

(…) “Meu filho, eu era uma mulher casada e sou agora uma mulher.”

Como foi que aquilo aconteceu? A princípio apenas o mal-estar e o calor. Depois qualquer coisa dentro dela começou a crescer. De repente, em movimentos pesados, minuciosos, puxou a roupa do corpo, estraçalhou-a, rasgou-a em longas tiras. O ar fechava-se em torno dela, apertava-a. (…)

(…) Vestiu-se, juntou todo o dinheiro que havia em casa e foi embora.

Mas como eu disse, as mulheres eram quase escravas; prisioneiras de seus maridos, senhores e proprietários; elas eram desvalorizadas a ponto de, tempos atrás, os pais precisarem pagar dotes para que as mulheres pudessem se casar. Como seria bom se, desde aquela época, esse dinheiro pudesse ir direto para suas mãos, comprando-lhes a independência e a liberdade.

Mas ela não tem dinheiro suficiente para viajar. (…)

Oh, tudo isso é mentira. Qual a verdade? Doze anos pesam como quilos de chumbo e os dias se fecham em torno do corpo da gente e apertam cada vez mais. Volto para casa. Não posso ter raiva de mim, porque estou cansada.

O sofrimento acaba destruindo os sonhos e calando todas as vozes próprias. Para que insistir?

Fica de olhos abertos durante algum tempo. Depois enxuga as lágrimas com o lençol, fecha os olhos e ajeita-se na cama. Sente o luar cobri-la vagarosamente.

Dentro do silêncio da noite, o navio se afasta cada vez mais.

Um conto absolutamente (melancolicamente) lindo.

 

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7 Comments
  • Marcia Cogitare disse:

    Silvia, Clarice não nos deixa sair impune de seus textos.

    Uma hora ou outra ela nos pega e você foi pega neste sexto conto né rs.

    Gostei muito quando vc citou sobre o dote e como isso desvalorizava ainda mais a mulher daquele tempo.
    As mudanças são tão lentas para nós mulheres que quase não sentimos em nosso dia a dia.
    Eita vida difícil essa nossa não.

    Hug lindona

    • É isso mesmo, Marcia…
      Eu gosto de todos os textos dela… mas alguns conseguem representar muito o que sinto ou o que já senti na minha vida…
      Não sei como ela consegue fazer isso de forma tão brilhante!
      Beijo grande!

  • Carlos Moya disse:

    Olá Sílvia quero que liberdade presida a vida da minha filha e que a igualdade é o objetivo vital, eu tentei dar o exemplo e estou orgulhoso da independência que tenhe alcançada. Embora dói um pouco de estar tão longe. Amanhã ele vai voltar para o seu país. Um abraço.

    • Olá, Carlos!
      Pelos dados que eu conheço, a maioria dos países com maior igualdade de gênero fica na Europa. O pensamento dos europeus é diferente. Não sei se foi por causa das guerras recentes… talvez você possa me dar uma luz.
      No Brasil, as diferenças ainda são imensas. Temos taxas altíssimas de violência contra a mulher e de estupro (e os números são certamente sub notificados).
      Sei que o conto da Clarice Lispector é antigo e que a situação já melhorou muito. Mas estas situações ainda são bastante presentes nos dias de hoje; infelizmente.
      Beijo!

      • Carlos Moya disse:

        Olá Sílvia dizem que a libertação das mulheres tiveram sua chance por causa das duas guerras mundiais que deixaram os países beligerantes, sem trabalhadores e que eran as mulheres que tomaram os postos de trabalho, e forçadas a permanecer solteiras.
        E pela primeira vez com recursos financeiros suficientes para viver sozinhas. Um abraço.

  • […] pede um conselho, de setembro de 1941; Obsessão, de outubro de 1941; O delírio, de julho de 1940; A fuga, que traz a anotação: “Rio 1940”; Mais dois bêbados, de dezembro de 1941. Foram […]

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