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“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Primeiras Histórias #5: “História interrompida”

“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Primeiras Histórias #5: “História interrompida”
“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Primeiras Histórias #5: “História interrompida”

Quinto conto do Projeto Clarice Lispector, para o qual a Márcia Cogitare do Blog Surtos Literários me convidou. Leiam a publicação dela clicando aqui.

Este é o quinto conto da parte de “Primeiras Histórias” do livro “Todos os Contos” de Clarice Lispector. É um conto que foi escrito em 1940 chamado História interrompida.

Há muita coisa não dita neste conto. Os fatos não são colocados de forma clara e objetiva. Da mesma forma que os casais precisavam viver sua intimidade no completo segredo e nada podia ser verbalizado, o conto não coloca em palavras os assuntos proibidos.

A história é narrada em primeira pessoa e quem conta é a personagem feminina que namora um homem a quem ela chama de W… Ele é um homem “triste e alto”, cujo “maior defeito consistia na sua tendência para a destruição”.

Foi então que pensei aquela coisa terrível: “Ou eu o destruo ou ele me destruirá.”

Ela “estava inquieta” e precisava resolver seu “caso”. Ela pensou durante dois dias tentando encontrar uma forma de prendê-lo.

Tudo me parecia porém estéril. Ele era um homem difícil, distante, e o pior é que falava francamente de seus pontos fracos: por onde atacá-lo então, se ele se conhecia?

Depois de uma noite em claro, ela encontra a solução:

– W…, nós vamos casar.

Era a única saída naquela época para algo que pudesse ser vergonhoso e colocar em risco a honra da moça. Não interessava se era o futuro com o qual se sonhara. Não havia outra possibilidade.

Peguei numa folha de papel e enchi-a de alto a baixo: “Eternidade, Vida. Mundo. Deus. Eternidade. Vida. Mundo. Deus. Eternidade…” Essas palavras matavam o sentido de muitos de meus sentimentos e deixavam-me fria por umas semanas, tão minúscula eu me descobria.

(…)

A ideia de que eu estava sendo feliz me enchia tanto que eu precisava fazer alguma coisa, alguma bondade, para não ficar com remorsos. E se eu desse a golinha de renda a Mira? Sim, o que é uma golinha de renda, embora bonita, diante de… “Eternidade. Vida. Mundo… Amor”?

Mas há sempre uma saída. Existe sempre uma válvula de escape, um caminho alternativo, uma escolha não convencional. Algumas vezes, o futuro que está traçado sem que tenha sido escolhido não parece interessante. Algumas vezes, a escolha não convencional parece mais atrativa… pelo menos, pode-se dizer que foi uma decisão pessoal e não algo que tenha sido decidido por outras pessoas.

E repentinamente a história se partiu. Nem teve ao menos um fim suave. Terminou com a brusquidão e a falta de lógica de uma bofetada em pleno rosto.

Estou casada e tenho um filho. Não lhe dei o nome de W… E não costumo olhar para trás: tenho em mente ainda o castigo que Deus deu à mulher de Lot. E só escrevi “isso” para ver se conseguia achar uma resposta a perguntas que me torturam, de quando em quando, perturbando minha paz: que sentido teve a passagem de W… pelo mundo? que sentido teve a minha dor? qual o fio que esses fatos a… “Eternidade. Vida. Mundo. Deus.”?

 

 

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