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“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Primeiras Histórias #4: “Eu e Jimmy”

“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Primeiras Histórias #4: “Eu e Jimmy”
“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Primeiras Histórias #4: “Eu e Jimmy”

Dando continuidade ao Projeto Clarice Lispector do qual a Márcia Cogitade do Blog Surtos Literários me chamou para participar, hoje vamos comentar o quarto conto. Não deixem de ler a publicação da Márcia também, clicando no nome do blog acima.

O quarto conto do livro “Todos os Contos” de Clarice Lipector ainda faz parte da subdivisão “Primeiras Histórias”. Eu e Jimmy narra um amor “livre” entre a personagem que narra a história e Jimmy. O conto tem apenas 4 páginas e, ainda assim, consegue passar uma mensagem fantástica sobre relacionamentos e sobre a posição de submissão da mulher na primeira metade do Século XX. A mulher já frequentava as Universidades e podia até trabalhar fora; mas seu papel ainda era o de acatar o pensamento do homem e acomodar suas ideias de tal forma a concordar com ele.

Quando a personagem conhece Jimmy que parecia ter ideias mais modernas e menos machistas, ela se sente confortável e mais livre, sem precisar seguir o mesmo padrão de relacionamento dos pais.

Jimmy achava que nada existe de tão bom quanto a natureza. Que se duas pessoas se gostam nada há a fazer senão amarem-se, simplesmente.

Que podia eu fazer, afinal? Desde pequena tinha visto e sentido a predominância das ideias dos homens sobre a das mulheres. Mamãe antes de casar, segundo tia Emília, era um foguete, uma ruiva tempestuosa, com pensamentos próprios sobre liberdade e igualdade das mulheres. Mas veio papai, muito sério e alto, com pensamentos próprios também, sobre… liberdade e igualdade das mulheres. O mal foi a coincidência de matéria. Houve um choque. E hoje mamãe cose e borda e canta no piano e faz bolinhos aos sábados, tudo pontualmente e com alegria. Tem ideias próprias, ainda, mas se resumem numa: a mulher deve sempre seguir o marido, como a parte acessória segue a essencial (a comparação é minha, resultado das aulas do Curso de Direito).

Ela escreve este parágrafo em uma crítica feroz ao papel subalterno das mulheres. É algo inconcebível que o mais difícil no mundo ainda seja o reconhecimento das mulheres como parceiras dos homens, como seres humanos que, apesar de serem diferentes do ponto de vista fisiológico, merecem respeito e a liberdade de expor suas ideias da mesma forma como os homens o fazem.

No conto, a personagem se envolve com outro homem e imagina que Jimmy irá aceitar sem problemas, já que ele sempre pregara o amor livre.

Jimmy estava nervoso. Disse-me uma série de desaforos, que eu não passava de uma mulher, inconstante e borboleta como todas.

A personagem fica perdida com essa mudança de comportamento, com a diferença da fala no início e no final do relacionamento.

Minha avó, uma velhinha amável e lúcida, a quem contei o caso, inclinou a cabecinha branca e explicou-me que os homens costumam construir teorias para si e outras para as mulheres. Mas, acrescentou depois de uma pausa e um suspiro, esquecem-nas exatamente no momento de agir… (…)

Minha querida, os homens são uns animais.

Quando abri as janelas do quarto e olhei o jardim fresco e calmo aos primeiros fios de sol, tive a certeza de que não há mesmo nada a fazer senão viver. Só continuava a me intrigar a mudança de Jimmy. A teoria é tão boa!

 

 

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7 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Olá Sílvia Eu acho que esta série sobre os contos de Lispector servem para aprender como a sociedade era, e também para desfrutar as descrições íntimos. Embora eu acho que, infelizmente, continuam a dar situações semelhantes. Adoreí a contestaçao da avoa. Um abraço.

    • Olá, Carlos!
      Eu concordo com você. Mas também acho que, apesar de várias décadas passadas, ainda acontecem situações muito semelhantes aqui no Brasil. Ainda temos uma sociedade extremamente machista e retrógrada em muitos pontos. Sei que isso vem mudando e isso é incrível.
      Beijo!
      Um lindo domingo!

  • Marcia Cogitare disse:

    Oi Silvia, gosto muito quando Clarice lança seu sarcasmo e inverte os papéis neste conto. É hilário.

    Hug

    • Olá, Márcia!
      Não sei se ela inverteu os papeis… acho que ela mostrou uma realidade…
      Homens que se dizem muito liberais e que respeitam a posição das mulheres, mas, no momento em que eles deixam de estar na direção da relação, mostram que a realidade não é como tinham pregado em seus discursos… Infelizmente, isso ainda é muito comum nos dias de hoje…
      Um lindo domingo!
      Beijo grande!

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