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Todos os Contos de Clarice Lispector: “Obsessão”

Todos os Contos de Clarice Lispector: “Obsessão”
Todos os Contos de Clarice Lispector: “Obsessão”

Mais um conto lido em conjunto com a Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. Não deixem de ler a publicação dela, outra apaixonada por Clarice Lispector e que me convidou para participar desse projeto de leitura.

O segundo conto do livro (“Obsessão”) é um conto mais longo e que traz em si muito do que somos, de como agimos, de possibilidade de análise do ponto de vista psicológico e filosófico.

Apenas como um preâmbulo, nas minhas leituras sobre o processo de escrita, grandes escritores relatam que se baseiam em muitos aspectos autobiográficos para a criação das histórias e dos personagens. Entendo que no caso daqueles que criam personagens psicológica e emocionalmente complexos, como no caso de Clarice Lispector, precisa haver uma vivência pessoal ou de alguém conhecido ou algum estudo social para que se consiga retratar essas pessoas de forma tão viva, quase real. Sei que estou me estendendo neste aspecto. É que realmente eu me delicio com a complexidade desses seres irreais e, ao mesmo tempo, tão cheios de humanidade como ela era capaz de criar.

O presente conto tem pouco mais de 30 páginas e descreve uma história de vida com a qual tive uma identificação completa. E, acredito, muitas outras pessoas seriam capazes de sentir o mesmo.

A personagem que narra a história em primeira pessoa é Cristina. Ela é uma mulher que foi criada para seguir o destino feminino daquele início da década de 1940 (o conto foi escrito em Outubro de 1941): casar-se com um bom homem, que poderia lhe garantir o sustento, e não pensar muito nas possibilidades que a vida oferece. Ela se casa com Jaime e consegue seguir o roteiro programado por algum tempo.

Às vezes, melancolia sem causa escurecia-me o rosto, uma saudade morna e incompreensível de épocas nunca vividas me habitava.

Depois de uma doença (febre tifoide), as coisas mudaram um pouco e sua tristeza imensa no período de convalescença fez com que o marido optasse por enviá-la a uma pequena cidade onde ela poderia se recuperar. E, nessa localidade, onde estava sozinha, suas angústias e rebeldia contidas passaram a se manifestar. E a presença de Daniel, um homem com quem ela coabitava na pensão, facilitou esse encontro com ela mesma.

Ou engano-me e, na minha feliz cegueira, não sabia enxergar mais profundamente? Não sei, mas agora parece-me impossível que na zona escura de cada homem, mesmo dos pacíficos, não se aninhe a ameaça de outros homens, mais terríveis e dolorosos.

Ela não amava Daniel. Mas a forma como ele a tratava, com certo desprezo e rispidez, despertava o desejo por ele. Acabamos sempre desejando aquilo que não temos e que nos parece inalcançável.

 Mas naquele tempo… Temia-o? Sentia apenas que se ele surgisse a qualquer momento, um gesto seu faria com que o seguisse para sempre. Sonhava com esse instante, imaginava que, ao seu lado, libertar-me-ia dele. Amor? Desejava acompanhá-lo, para estar do lado mais forte, para que ele me poupasse, como quem se aninha nos braços do inimigo para estar longe de suas flechas. Era diferente de amor, descobria: eu o queria como quem tem sede e deseja a água, sem sentimentos, sem mesmo vontade de felicidade.

Ela se esforça por permanecer em sua pequena vida, com seu marido, mas Cristina já o tinha conquistado; ele já precisava dela… e seu desejo pelo marido já não existia mais.

O conto se baseia muito nesta questão: desejo, e a busca por aquilo que ainda não se tem. Seria bom se o ser humano pudesse simplesmente ser controlado pela razão, com a capacidade de calar as vozes que insistem em surgir das profundezas mais desconhecidas da alma.

É um conto absolutamente maravilhoso.

Para encerrar, um pouco mais de Clarice:

Quanto a mim, continuo.

Já agora sozinha. Para sempre sozinha.

 

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10 Comments
  • Marcia Cogitare disse:

    Bem mais longo este conto e acabou por tratar sobre o mesmo núcleo, porém sobre outro aspecto que você pegou muito bem (desejo). Gosto como ela se perdoa e aos outros também.

    E o melhor de tudo, é o prazer e deslumbramento que Clarice nos causa. Este projeto já tem sido meu chodô por ter duas mulheres que eu admiro Clarice e você.

    Hug

  • Monica disse:

    Clarice é maravilhosamente sábia como todos os grandes: só com as letras da ficção a realidade é possível de ser descrita. Beijos!

  • Gilberto Ortega Jr disse:

    Estou amando este projeto, duas queridas, gosto muito de como vc olha de forma racional para as relações, e mesmo assim consegue captar e comprender todos os lados.

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