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“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #9: “Os laços de família”

“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #9: “Os laços de família”
“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #9: “Os laços de família”

Mais um conto do livro Todos os Contos de Clarice Lispector. Este projeto foi idealizado pela Márcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A publicação da Márcia pode ser lida clicando aqui.

Neste conto, uma situação comum. Catarina e seu marido Antônio recebem a visita da mãe de Catarina, Severina. O conto começa quando Severina está de partida, despedindo-se do genro. Catarina leva a mãe, de táxi, até a estação de trem.

A mãe ficara por 2 semanas na casa da filha. O genro e a sogra mal se suportavam. Mas, no momento da despedida, uma gentileza mútua aparece.

De qualquer forma, o aspecto central do conto é a relação entre mãe e filha (Severina e Catarina). Não há qualquer demonstração de afeto entre elas. Uma freada brusca do táxi faz com que elas se choquem; este contato inesperado e próximo, quase íntimo, causa um desconforto entre as duas mulheres; um momento constrangedor em que cada uma delas deseja voltar ao seu espaço e ao isolamento dos próprios pensamentos.

Catarina leva a mãe até o trem e ajuda a acomodar suas bagagens. Ficaram se olhando pela janela, sem terem o que falar uma para a outra. A filha chamava a mãe e vice versa, sem que nenhuma delas dissesse o que gostaria de dizer; sem coragem de romperem o tênue isolamento que impedia um diálogo sincero.

E Catarina se despede com o peso de tudo o que não foi dito; as palavras que ficaram presas dentro dela pesavam.

E de tal modo haviam-se disposto as coisas que o amor doloroso lhe pareceu a felicidade – tudo estava tão vivo e tenro ao redor, a rua suja, os velhos bondes, cascas de laranja – a força fluía e refluía no seu coração com pesada riqueza. Estava muito bonita neste momento, tão elegante; integrada na sua época e na cidade onde nascera como se a tivesse escolhido. Nos olhos vesgos qualquer pessoa adivinharia o gosto que essa mulher tinha pelas coisas do mundo. Espiava as pessoas com insistência, procurando fixar naquelas figuras mutáveis seu prazer ainda úmido de lágrimas pela mãe.

Ao chegar em casa, Catarina procura o filho. E tenta estabelecer com o filho toda a intimidade, aquela que fora perdida com a sua própria mãe. Brinca com o filho e sai com ele de casa, deixando o marido, buscando reforçar o vínculo que ela não queria que desaparecesse.

A gente observa isso com muitas pessoas, não é verdade? Amigos, família… De repente, nos damos conta que perdeu-se algum elo de ligação; de repente, não há mais a mesma proximidade; falta algo. Dizer as coisas já não é simples. Demonstrar afeto é quase impossível. Uma vez quebrado este elo, será que existe uma forma de reconstruí-lo? Como restabelecer o vínculo que se desfez? Será possível tocar sem estranheza? Voltar a entrar no mundo do outro sem se sentir um invasor?

Eu sei o que é esta sensação. Acho que a sinto com muita frequência. De repente, o elo de cristal de parte e não consigo mais abrir o meu espírito para aquela pessoa que passa a me parecer uma estranha. É como se o portal secreto de comunicação entre as duas pessoas se fechasse, sem possibilidade de ser refeito.

Muitas vezes, eu achava que era apenas eu que me sentia assim; e me achava uma alienígina. Mas vejo que Clarice Lispector percebia estes sentimentos e conseguia descrevê-los em suas obras. Vejo que não sou de outro planeta. O que eu sinto não está tão fora do normal.

 

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5 Comments
  • Marcia disse:

    Silvia, sabe que este conto foi muito doído pra mim. Me vi no lugar da Catarina com uma mãe que era mais uma estranha.

    E não se sinta uma alienígena rs, a falta deste elo e bem normal infelizmente.

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Olá, Marcia!
      Mas você não acha que poderia ser diferente?
      Tenho a impressão que vamos deixando coisas não ditas e mal-entendidos dificultar os relacionamentos. Quando percebemos, estamos diante de estranhos completos.
      Queria que não fosse assim…
      Beijo!

  • Carlos disse:

    Olá Sílvia quando li essa história, eu me veio à mente um ditado: O carinho da proximidade nasceu. Quando, por qualquer motivo, estamos longe do tempo lonje de alguém que era muito caro, eu acho que um muro que nos separa, nem mesmo sei se podese quebrar ao longo do tempo. Um abraço,

    • Silvia Souza disse:

      Olá, Carlos!
      Infelizmente, acho que estamos sujeitos a essa dificuldade nos relacionamentos interpessoais.
      Por isso, acho que o diálogo é tão importante. As coisas não ditas podem criar obstáculos intransponíveis.
      Beijo!

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