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“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #7: “O jantar”

“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #7: “O jantar”
“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #7: “O jantar”

Este é o sétimo conto de Laços de Família, que faz parte do livro Todos os Contos de Clarice Lispector. A Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários idealizou este projeto, em que comentamos cada um dos contos do livro. Leia a publicação da Marcia clicando aqui.

Este é um conto breve que narra um jantar. Um homem, jantando em um restaurante aparentemente sozinho, nota a chegada de um senhor mais velho, também sozinho.

Ele entrou tarde no restaurante. Certamente ocupara-se até agora em grandes negócios. Poderia ter uns sessenta anos, era alto, corpulento, de cabelos brancos, sobrancelhas espessas e mãos potentes. Num dedo o anel de sua força. Sentou-se amplo e sólido.

Percebe-se, através desta descrição, que mesmo que os dois não se conhecessem, ficava nítido que o senhor que entrava no restaurante estava acostumado a ser notado e a ser obedecido. Mas ele estava sozinho.

Quando ele fala para se queixar sobre um vinho que não era o que ele havia solicitado, o som de sua voz combina com sua postura altiva:

A voz que esperava dele: voz sem réplicas possíveis pela qual eu via que jamais se poderia fazer alguma coisa por ele. Senão obedecê-lo.

Mas ele estava sozinho.

De repente ei-lo a estremecer todo, levando o guardanapo aos olhos e apertando-os numa brutalidade que me enleva… Abandono com certa decisão o garfo no prato, eu próprio com um aperto insuportável na garganta, furioso, quebrado em submissão. Mas o velho demora pouco com o guardanapo nos olhos. Desta vez, quando o tira sem pressa, as pupilas estão extremamente doces e cansadas, e antes dele enxugar-se – eu vi. Vi a lágrima.

Clarice nos apresenta um homem acostumado a mandar e a ser obedecido. Alguém com este perfil geralmente não está sozinho. Afinal, há sempre a necessidade de outras pessoas para que alguém possa estar acima e ser admirado. Mas este homem não tem ninguém com ele; ele janta solitário em um restaurante. E chora. Mesmo que tente disfarçar, ele chora no restaurante cheio de pessoas estranhas.

Eu imaginei a dor deste homem. Talvez viúvo. Talvez abandonado por uma esposa cansada de ter que olhar para ele, sem receber uma atenção em retorno. Talvez tivesse filhos distantes, morando em outros estados ou outros países. Talvez uma doença grave de um neto. Talvez apenas um homem que nunca soube compartilhar sua vida com ninguém e que sentiu a solidão ao envelhecer. Independente da causa da dor, ela está ali, presente, sentida. O sofrimento, maior ou menor, faz parte da nossa vida.

Quando me traíram ou assassinaram, quando alguém foi embora para sempre, ou perdi o que de melhor me restava, ou quando soube que vou morrer – eu não como. Não sou ainda esta potência, esta construção, esta ruína. Empurro o prato, rejeito a carne e seu sangue.

 

 

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