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“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #6: “A menor mulher do mundo”

“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #6: “A menor mulher do mundo”
“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #6: “A menor mulher do mundo”

Continuando com o Projeto Clarice Lispector, idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários, hoje vou comentar o conto A menor mulher do mundo, ainda parte do livro Laços de Família. Leia também a publicação da Marcia clicando aqui.

Este conto me incomodou muito. E acredito que era exatamente o desejo da escritora: causar desconforto em quem lesse a narrativa. Busquei, inclusive, algo que evidenciasse se havia um fato verdadeiro por trás do conto, alguma notícia veiculada na época; mas não encontrei nada.

O conto relata a descoberta feita por um “explorador francês Marcel Pretre, caçador e homem do mundo” de uma tribo de pigmeus extremamente pequenos, os Likoualas, que viviam no Congo Central. Estes pigmeus eram caçados, devorados e escravizados por Bantos, outra tribo congolesa. Nas minhas buscas, estes dois fatos são verdadeiros: os pigmeus representavam uma parcela significativa da população do Congo e eles eram, de fato, caçados por Bantos.

Entre esta tribo de pessoas tão pequenas, havia “uma mulher de quarenta e cinco centímetros, madura, negra, calada”. O explorador chamou-a de “Pequena Flor”. E, como se não bastasse a raridade dessa pessoa tão pequena, ela estava grávida, já em fase adiantada.

Mas o centro do conto de Clarice Lispector não é a descrição da menor mulher do mundo. Mas a reação das pessoas ao verem a foto na mulher estampando a página do jornal em seu tamanho original.

E é destas descrições que surge o desconforto que o conto causa: a observação do que há de sádico, preconceituoso e cruel nos seres humanos. E hoje em dia, em época de Internet e de viralização de vídeos e fotos, este comportamento ficou ainda mais evidente. A maioria das pessoas tem uma atração atroz por aquilo que é diferente. Mas sempre no sentido de degradar, humilhar, ser impiedoso. E este tipo de comportamento humano me causa repulsa e enorme tristeza.

Sei que isto não é de hoje e não vai acabar tão cedo (acho que não vai acabar nunca). Nenhuma sociedade ou civilização resolveu o problema e muitas usaram este aspecto vil do ser humano como uma forma de desviar as atenções do povo dos assuntos realmente importantes e relevantes.

Alguns trechos do conto… aqueles em que a autora nos mostra a alma humana em sua forma mais desprezível:

━ Mamãe, olhe o retratinho dela, coitadinha! olhe só como ela é tristinha!

━ Mas – disse a mãe, dura e derrotada e orgulhosa – mas é tristeza de bicho, não é tristeza humana.

━ Mamãe, e se eu botasse essa mulherzinha africana na cama de Paulinho enquanto ele está dormindo? quando ele acordasse, que susto, hein! que berro, vendo ela sentada na cama! E a gente então brincava tanto com ela! a gente fazia ela o brinquedo da gente, hein!

E considerou a cruel necessidade de amar. Considerou a malignidade de nosso desejo de ser feliz. Considerou a ferocidade com que queremos brincar. E o número de vezes em que mataremos por amor.

━ Deve ser o bebê preto menor do mundo – respondeu a mãe, derretendo-se de gosto. – Imagine só ela servindo a mesa aqui em casa! e de barriguinha grande!

Este último trecho transcrito me preencheu de tristeza. Porque, embora seja apenas um conto, eu sei que este poderia ser o pensamento de muitas pessoas naquela época (e talvez ainda hoje). Eu sinto uma revolta tão grande com a capacidade de exploração das pessoas, com a forma como subjugam outros seres humanos, com a insensibilidade e intolerância.

E como Clarice Lispector descreve a pequena mulher, lá em sua tribo, vivendo nas árvores mais altas para escapar da caça dos Bantos? Como uma mulher que ama. E ela mostra o antagonismo entre o pensamento mesquinho da civilização e o sentimento puro do “selvagem”, que não precisa de razão para amar.

É que a própria coisa rara sentia o peito morno do que se pode chamar de Amor. Ela amava aquele explorador amarelo. Se soubesse falar e dissesse que o amava, ele inflaria de vaidade.

Um conto que revira nossas entranhas.

 

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1 Comment
  • Marcia Cogitare disse:

    Este conto faz uma crítica ferrenho as pessoas ditas civilizadas.

    Mais um conto excelente de Clarice.

    Hug

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