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“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #5: “Feliz Aniversário”

“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #5: “Feliz Aniversário”
“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #5: “Feliz Aniversário”

Mais um conto do Projeto Clarice Lispector, idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. Leia a publicação da Márcia clicando aqui.

Este é o quinto conto do livro Laços de Família e está contido nesta coletânea Todos os Contos de Clarice Lispector. Ele se chama Feliz Aniversário e conta uma festa de família para comemorar o 89º aniversário da matriarca.

Ela teve 7 filhos, sendo 6 homens e apenas 1 mulher, Zilda, que foi a que assumiu os cuidados com a mãe. Geralmente, cabia às filhas o cuidado com os progenitores idosos; na verdade, acho que isso ainda é bastante frequente.

Zilda organiza a festa sozinha, tanto em relação ao trabalho quanto em relação ao aspecto financeiro. Ela prepara uma festa simples para receber os irmãos, as cunhadas, os sobrinhos e uma vizinha.

É interessante de perceber que a festa descrita no conto detalha muito bem como eram as festas naquela época. Ao menos, eu enxerguei completamente as festas da minha família. Lembro da minha mãe preparando as festas, com uma grande mesa no centro da sala de jantar, que ficava toda arrumada, com docinhos, salgadinhos e o bolo. As cadeiras ficavam colocadas ao redor da sala, encostadas à parede. Ela fazia tudo em casa: os sanduíches de tomate com maionese, a torta de presunto e queijo, os canudos recheados, as esfihas, os quibes e todos os docinhos. Bebíamos refrigerantes. As crianças brincavam juntas, sem perceber as tensões das relações familiares, as invejas, as falsidades, as relações de sangue que nem sempre significavam alguma coisa de fato.

E é exatamente isso que Clarice Lispector descreve. O mais velho dos filhos morrera. O segundo, tentava assumir seu papel de falar em nome de todos. Ninguém se mexia para ajudar a dona da casa, que se desgastava preparando tudo na cozinha, sujeita às críticas dos outros.

A mãe, em sua idade avançada, permanecia quase imóvel, sentada à cabeceira da mesa, apenas observando as pessoas à sua volta, aquela família da qual ela não se orgulhava.

Eles se mexiam agitados, rindo, a sua família. E ela era a mãe de todos. (…) Oh o desprezo pela vida que falhava. Como?! Como tendo sido tão forte pudera dar à luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos  infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade?

E a família olhava para ela como se ela já não compreendesse, como se estivesse alheia a tudo o que se passava à sua volta.

Cantaram o parabéns, a matriarca cortou o bolo, todos comeram e se despediram. Como se todos não vissem a hora de deixar a casa e poder retomar suas vidas, preparando-se para voltar apenas no ano seguinte, caso ela ainda estivesse viva para celebrar o 90º aniversário.

Apenas uma das cunhadas notou a senhora. Cordélia que permanecera calada toda a festa, com algum segredo em sua alma, viu um gesto da matriarca que lhe disse mais do que palavras:

Com um punho fechado sobre a mesa, nunca mais ela seria apenas o que ela pensasse. Sua aparência afinal a ultrapassara e, superando-a, se agigantava serena. Cordélia olhou-a espantada. O punho mudo e severo sobre a mesa dizia para a infeliz nora quem sem remédio amava talvez pela última vez: É preciso que se saiba. É preciso que se saiba. Que a vida é curta. Que a vida é curta.

Porém nenhuma vez mais repetiu. Porque a verdade era um relance. Cordélia olhou-a estarrecida. E, para nunca mais, nenhuma vez repetiu – enquanto Rodrigo, o neto da aniversariante, puxava a mão daquela mãe culpada, perplexa e desesperada que mais uma vez olhou para trás implorando à velhice ainda um sinal de que uma mulher deve, num ímpeto dilacerante, enfim agarrar a sua derradeira chance de viver. Mais uma vez Cordélia quis olhar.

Não sei se é um problema meu, se sou eu que projeto na obra de Clarice Lispector aquilo que eu sinto, mas o fato é que percebo sempre esse grito mudo da mulher querendo ocupar seu espaço e exercer um papel na sociedade diverso daquele que lhe era imposto. Uma mulher forte e que poderia ser qualquer coisa, mas que é freada pelas restrições sociais.

Clarice Lispector morreu há quase 40 anos. Eu tenho 45 anos. Não sou contemporânea da sua obra. E ainda assim, eu sinto seus escritos muito atuais dentro desse desejo de libertação feminina. Sei que as coisas já evoluíram muito. Mas a sociedade ainda é essencialmente machista. E gosto de usar a obra de Clarice para prosseguir na minha batalha pessoal de encontrar meu espaço e meu papel.

 

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3 Comments
  • Marcia Cogitare disse:

    Silvia, entendo você quando diz que vê nos escritos de Clarice esse grito contido na mulher que busca sua voz e lugar numa sociedade que restringia o feminino.
    Não penso que seja exagero de nossa parte enxergar assim ou mesmo uma forçação de barra, identifico estes elementos e me identifico com eles nos textos.
    Na verdade, não tinha me dado conta em minhas leituras da autora, a intensidade deste tema que nos toca.
    Clarice sempre ganha nas releituras.

    Hug

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