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“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #4: “A imitação da rosa”

“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #4: “A imitação da rosa”
“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #4: “A imitação da rosa”

Mais um conto do livro Todos os Contos de Clarice Lispector. Este projeto foi idealizado pela Márcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A publicação da Márcia pode ser lida clicando aqui.

Este conto é belíssimo e me deixou envolvida no ambiente descrito por vários minutos após a conclusão da leitura; simplesmente, eu não conseguia deixar de pensar nele e de imaginar Laura, a mulher cujos sentimentos são descritos.

Laura é casada com Armando. Eles não têm filhos. No início do conto, ela está sozinha na sala, pensando em começar a se arrumar para um jantar na casa de amigos: Carlota e João.

A paz de um homem era, esquecido de sua mulher, conversar com outro homem sobre o que saía nos jornais. Enquanto isso ela falaria com Carlota sobre coisas de mulheres, submissa à bondade autoritária e prática de Carlota, recebendo enfim de novo a desatenção e o vago desprezo da amiga, a sua rudeza natural, e não mais aquele carinho perplexo e cheio de curiosidade – e vendo enfim Armando esquecido da própria mulher.

Ela é uma mulher solitária, que se coloca sempre em inferioridade em relação aos outros. Tem uma tristeza não confessada pelo fato de não ter tido filhos.

Por acaso alguém veria, naquela mínima ponta de surpresa que havia no fundo de seus olhos, alguém veria nesse mínimo ponto ofendido a falta dos filhos que ela nunca tivera?

Ao longo da narrativa, a narrativa dos eventos da sua alma, somos informados de que ela passou por um problema de saúde recente. Algum problema emocional ou psiquiátrico. Uma crise de Ansiedade? Um episódio de Mania? Ou simplesmente a libertação de um espírito que sempre restringira suas emoções ao máximo?

Ela tenta retomar o controle de si mesma e voltar à sua pequena vida, onde era apenas a esposa de um homem.

Ela, que nunca ambicionara senão ser a mulher de um homem, reencontrava grata sua parte diariamente falível.

Busca desesperadamente aceitar sua rotina diária, sem novidades, sem belezas… sua vida monótona de dona de casa.

Não mais aquela falta alerta de fadiga. Não mais aquele ponto vazio e acordado e horrivelmente maravilhoso dentro de si. Não mais aquela terrível independência. Não mais a facilidade monstruosa e simples de não dormir – nem de dia nem de noite – que na sua discrição a fizera subitamente super-humana em relação a um marido cansado e perplexo.

Ela buscava manter o casamento e sabia que, para isso, precisava voltar a ser a pessoa “chatinha” que sempre tinha sido; a mulher metódica e que falava a mesma coisa inúmeras vezes.

(…) no cansaço havia um lugar bom para ela, o lugar discreto e apagado de onde, com tanto constrangimento para si e para os outros, saíra uma vez. Mas como ia dizendo, graças a Deus, voltara.

Ela permanece sentada no sofá, cansada, em busca de vencer a inatividade e ir se arrumar para o jantar. O marido viria buscá-la e ela refazia, mentalmente, a sequência de ações para se preparar para o compromisso noturno. Ela usaria um vestido marrom, com gola creme, que combinaria com seus cabelos marrons e com seus olhos marrons. Toda aquela monotonia que fazia com que fosse uma mulher correta e confiável. E inferior a todos os outros.

(…) a culpa era mesmo sua porque nem sempre ela se fazia respeitar.

Eis que um fato novo acontece. Estando ainda sentada no sofá, ainda imóvel em seus pensamentos e sua programação mental, ela viu o vaso de flores sobre a mesa, com o buquê de rosas que ela comprara naquela manhã. Ela olhava a beleza intensa e perfeita daquelas rosas e não conseguia se desconectar dela.

E também porque aquela beleza extrema incomodava. Incomodava? Era um risco. Oh, não, por que risco? apenas incomodava, eram uma advertência, oh não, por que advertência? Maria daria as rosas para Carlota.

Ela notou a inquietação que surgia em sua mente ao olhar para aquelas rosas e resolveu que Maria, sua empregada, deveria levar as rosas embora e dá-las para a amiga Carlota. Mas a decisão de se desfazer das rosas não fez com que ficasse mais tranquila; ao contrário, aumentou progressivamente sua angústia, porque queria ter o direito de ficar com algo tão bonito, ela que não tinha direito a possuir algo, algo que fosse apenas dela. Ela sabia que as rosas eram um risco. Mas a questão é que não importava o fato de permanecer com as rosas ou não. Algo dentro dela já estava desperto novamente.

Mas estas rosas eram. Rosadas, pequenas, perfeitas: eram. Olhou-as com incredulidade: eram lindas e eram suas. Se conseguisse pensar mais adiante, pensaria: suas como nada até agora tinha sido.

E mesmo – argumentou numa última e vitoriosa rejeição de culpa – não fora de modo algum ela quem quisera comprar, o vendedor insistira muito e ela se tornava sempre tão tímida quando a constrangiam, não fora ela quem quisera comprar, ela não tinha culpa nenhuma.

Decidiu-se, enfim, por dar as rosas. Nem foi uma decisão sua, na verdade. Maria simplesmente levou as rosas embora.

E as rosas faziam-lhe falta. Haviam deixado um lugar claro dentro dela. Tira-se de uma mesa limpa um objeto e pela marca mais limpa que ficou então se vê que ao redor havia poeira. As rosas haviam deixado um lugar sem poeira e sem sono dentro dela. No seu coração, aquela rosa, que ao menos poderia ter tirado para si sem prejudicar ninguém no mundo, faltava. Como uma falta maior.

Quando ela deu por si, em meio à imobilidade do corpo e à agitação extrema da mente, escutou o barulho da chave na porta e sabia que era o marido que chegava. Ela não era mais a mesma.

━ Voltou, Armando. Voltou.

(…)

━ Não pude impedir, disse ela, e a derradeira piedade pelo homem estava na sua voz, o último pedido de perdão que já vinha misturado à altivez de uma solidão já quase perfeita.

Fora inútil recomendarem-lhes que nunca falassem no assunto: eles não falavam mas tinham arranjado uma linguagem de rosto onde medo e confiança se comunicavam, e pergunta e resposta se telegrafavam mudas.

No instante seguinte, desviou os olhos com vergonha pelo despudor de sua mulher que, desabrochada e serena, ali estava.

Ele sabia que ela fizera o possível para não se tornar luminosa e inalcançável.

Este conto é, de fato, maravilhoso. Por que tantas mulheres precisam, ainda hoje, conter seu brilho e sua beleza para não ofuscarem os homens à sua volta? Por que cabe a elas viver no segundo plano, naquele que está sempre desfocado e que raramente é notado?

Clarice Lispector tem essa capacidade rara, quase única, de ser feminista, de mostrar os problemas das mulheres, sem precisar hastear uma bandeira, sem precisar alardear aos quatro cantos que existe desigualdade. Através de seus contos, de seus livros, ela mostrava todos os problemas que as mulheres viviam, de uma forma sutil, através da descrição das almas aprisionadas e dos sentimentos silenciados.

Não deixem de ler Clarice Lispector. É uma escritora essencial.

 

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