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“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #2: “Amor”

“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #2: “Amor”
“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #2: “Amor”

Dando continuidade ao Projeto Clarice Lispector, idealizado pela Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários, hoje vou escrever sobre o conto Amor, o segundo conto de Laços de Família. Vejam também a publicação da Marcia clicando aqui.

Este conto é absolutamente maravilhoso. Ele conta um momento transformador na vida de Ana. Ana é uma mulher que optou por se casar e ter uma vida tranquila como mãe e dona de casa.

No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. (…) O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e escolhera.

No início do conto, ela acaba de subir no bonde com as compras feitas no supermercado. Ela receberia os irmãos e suas famílias para jantar. Senta-se e pensa em sua vida, na vida que optara por viver.

Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.

Sua vida muda quando vê um homem parado no ponto; ele era diferente dos outros, porque “ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.”

E sua vida tranquila e perfeita em seu isolamento de toda a realidade do mundo ruiu nesta visão do cego. Todas as compras caíram no chão, os ovos quebraram e ela se distraiu de sua própria vida e perdeu o ponto onde deveria descer.

O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível… O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam.

Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. (…) Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.

Ela desceu do bonde mais adiante e fez um caminho por dentro do Jardim Botânico, onde se sentou, tentando entender o que se passava.

A crueza do mundo era tranquila.

Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada.

Acho que apenas conseguimos viver nossas vidas com alguma paz de espírito (pelo menos eu me sinto assim), pelo fato de ignorarmos toda a miséria que existe no mundo, perto ou longe de nós. Pensamos apenas nos pequenos egoísmos que nos cercam e procuramos não ver tudo aquilo que nos incomoda. O cego apenas mostrou a Ana que ela era a cega realmente; e o pior: era cega por opção.

A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava – que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. (…) Porque a vida era periclitante.

E depois que algo se rompe em nós, se acontece de olharmos para as coisas de outra forma, haverá uma forma de voltar atrás? Será possível tornar a ser a pessoa que era antes e fazer de conta que aquela ruptura nunca aconteceu?

Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. (…) É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.

Ela sabia que precisava continuar sua vida, cuidar dos filhos, fazer o jantar, receber as visitas. Mas ela não era mais a mesma.

Hoje de tarde alguma coisa tranquila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

Acabara-se a vertigem de bondade.

 

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2 Comments
  • Marcia Cogitare disse:

    Silvia, gostei muito das suas percepções deste texto.
    Este conto está entre os meus preferidos de Clarice.

    E você disse algo que descreve bem as pessoas de um modo geral, os pequenos egoísmos nosso de cada dia que nos blindam em nossa caminhada.

    Acho incrível essas construções de Clarice onde a catarse tem um lugar na virada do texto e do personagem.

    Hug

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