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Laços de Família #13: “O búfalo”

Laços de Família #13: “O búfalo”
Laços de Família #13: “O búfalo”

Este é o último conto do livro Laços de Família, que está na obra Todos os Contos de Clarice Lispector. A Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários me convidou para dividir com ela a leitura e os comentários a cada um dos contos da Clarice. A publicação dela pode ser lida clicando-se aqui.

Eu sou uma grande admiradora da obra desta escritora. Acho impressionante a forma como ela consegue colocar os sentimentos nos textos através de um trabalho brilhante com as palavras. E neste conto, acontece exatamente isso.

Uma mulher anda pelo Jardim Zoológico em um dia de primavera, buscando encontrar uma forma de aplacar seu sofrimento e seu ódio na vida selvagem. Ela acabara de passar por uma ruptura com o homem que amava (foi o que consegui supor, porque este fato não nos é revelado explicitamente no texto).

“Eu te odeio”, disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. “Eu te odeio”, disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia.

E ela buscava, no Jardim Zoológico, aprender a odiar, a despertar o sentimento desumanizado, aquele mais instintivo e profundo que talvez algum animal pudesse lhe demonstrar.

E enquanto fugia, disse: “Deus, me ensine somente a odiar.”

Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa.

Ela andava de jaula em jaula, olhando para os animais que lhe pareciam serenos demais.

Sem conseguir – diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas – sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer.

Ela passou pelo hipopótamo, pelos macacos, pelo elefante. Mas em nenhum deles encontrava o ódio que queria aprender.

A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro de poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. (…) “Oh, Deus, quem será meu par neste mundo?”

Resolveu experimentar a montanha-russa, entre todos os casais de namorados que esperavam na fila.

A brisa arrepiou-lhe os cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.

(…) Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto.

(…) Levantou-se do banco estonteada como se estivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém prestasse atenção, alisou de novo a saia, fazia o possível para que não percebessem que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados.

Ela volta a passear pelas jaulas dos animais. Mas talvez realmente a natureza seja isso: amor. Quais são os animais que trazem o ódio como instinto? Acho que apenas o homem. Os outros matam para comer e não por ódio às outras espécies. E ela mesma não sabe odiar. Ela tenta aprender este sentimento em uma busca desesperada de encontrar sua tranquilidade de espírito. Quantas vezes não desejamos odiar com todas as nossas forças alguém que amamos e que nos magoou ou que nos fez sofrer?

E de uma forma maravilhosa, Clarice nos resume este sentimento desta mulher (que poderia ser qualquer mulher ou homem).

Então, nascida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda vagarosa, a vontade de matar – seus olhos molharam-se gratos e negros numa quase felicidade, não era o ódio ainda, por enquanto apenas a vontade atormentada de ódio como um desejo, à promessa do desabrochamento cruel, um tormento como de amor, a vontade de ódio se prometendo sagrado sangue e triunfo, a fêmea rejeitada espiritualizara-se na grande esperança. Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ter o seu próprio ódio? o ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói… oh não mais esse mundo! não mais esse perfume, não esse arfar cansado, não mais esse perdão em tudo o que um dia vai morrer como se fora para dar-se.

E, então, ela viu o búfalo.

 

 

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