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“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #10: “Começos de uma fortuna”

“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #10: “Começos de uma fortuna”
“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #10: “Começos de uma fortuna”

Mais um conto do livro Todos os Contos de Clarice Lispector. Este projeto foi idealizado pela Márcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A publicação da Márcia pode ser lida clicando aqui.

No conto Começos de uma fortuna, Artur é um adolescente que tenta dizer aos pais que precisa de dinheiro. Mas existe uma barreira de comunicação entre as gerações: pais e filho não conseguem dialogar.

Os pais não conseguem perceber o motivo dessa necessidade do filho e minimizam suas preocupações e angústias, como se fossem muito pequenas quando comparadas aos problemas do mundo adulto.

E o jovem, desejando manter intacta sua privacidade, não diz porque precisa de dinheiro, conseguindo apenas dizer:

━ Eu também tenho as minhas preocupações mas ninguém liga. Quando digo que preciso de dinheiro parece que estou pedindo para jogar ou para beber!

E dizer isto não ajuda em nada; pelo contrário, dificulta ainda mais o acesso àquilo que ele busca.

Na escola, o amigo Antônio se oferece para emprestar o dinheiro que Artur precisa. O rapaz rejeita inicialmente, porque já está devendo para outra pessoa. Mas acaba aceitando quando estão aguardando para ir ao cinema, já que na fila está Glorinha, a quem Artur gostaria de pagar a entrada como uma forma de se aproximar da garota.

O mundo vem evoluindo muito. Meus filhos adolescentes vivem as relações de amizade de uma forma completamente diferente, de uma forma mais virtual do que presencial. Muitos moram longe, os pais têm receio de deixarem os filhos sair sozinhos por causa da violência, e eles acabam mantendo a proximidade através de jogos online, bate-papos virtuais e assim por diante. Apesar disso, a essência humana (dos jovens e dos pais) continua a mesma. Os adolescentes têm as mesmas necessidades de privacidade, autonomia, confiança ao longo das gerações. E os pais querem continuar detentores da autoridade. Mas hoje em dia os pais estão mais perdidos. Vivemos mais próximos dos filhos, achamos que entendemos seu mundo, e nos sentimos no direito de romper a barreira de que eles precisam.

No conto da Clarice Lispector, nitidamente falta diálogo entre os pais e o filho. Os pais não demonstram a confiança que o filho busca e não atendem minimamente seus anseios adolescentes.

Hoje em dia, achamos que conseguimos manter um diálogo totalmente franco com os filhos, mas nos esquecemos de que eles precisam de espaço e têm necessidade de construir sua privacidade, sem expor suas intimidades como se tudo fosse coletivo, como as redes sociais nos fazem parecer.

Não somos amigos dos filhos, com quem eles devem trocar todas as confidências. Devemos ser pais. Dispostos a escutar, amparar, abraçar, aconselhar, mas apenas quando eles demonstrarem que precisam desse desabafo. A obrigação é que eles demonstrem que são dignos da nossa confiança e que entendam que todas as relações são de troca: receberão enquanto mostrarem que cumprem sua parte.

Sei que fugi completamente da análise do conto. Mas acho que uma das funções das obras literárias é a de nos fazer pensar e analisar aquilo que vivemos. A literatura pode servir como experiência de vida, não vivida por nós, mas vivida pelos personagens; daí podemos extrair exemplos e reflexões.

Para concluir, deixo mais um pequeno trecho do conto:

━ … pode ser que você esteja muito ocupado com seus pensamentos, disse a mãe interrompendo-o, mas ao menos coma o seu jantar e de vez em quando diga uma palavra.

Então ele, em súbita volta à casa paterna:

━ Ora a senhora diz que na mesa não se fala, ora quer que eu fale, ora diz que não se fala com a boca cheia, ora…

━ Olhe o modo como você fala com sua mãe, disse o pai com severidade.

 

 

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2 Comments
  • Marcia Cogitare disse:

    Acredito que você tenha aproveitado melhor este conto do que eu. Justamente por ter filhos nesta idade.
    Mas gosto como Clarice nos mostra que exite vida fora da redoma familiar e que as necessidades pessoais deste garoto deveriam ter lugar nos diálogos.

    Interessante vc mencionar as relações virtuais, nem me lembrei disso. Afinal, somos da geração que ainda prefere olhar o lho no olho se possível.

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Olá, Marcia!
      Não sei se foi tão diferente assim. Acho que você extraiu do conto o que precisava.
      Eu só trouxe um pouco para a minha realidade, porque é muito próximo do que vivo atualmente.
      Acho divertidíssimo ter filhos adolescentes. Espero que eu esteja no caminho certo ao conduzi-los por essa fase.
      Beijo!

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