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“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #1: “Devaneio e embriaguez duma rapariga”

“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #1: “Devaneio e embriaguez duma rapariga”
“Todos os Contos” de Clarice Lispector – Laços de Família #1: “Devaneio e embriaguez duma rapariga”

Dando continuidade ao Projeto Clarice Lispector, idealizado pela Márcia Cogitare do Blog Surtos Literários, iniciamos a segunda parte do livro Todos os Contos de Clarice Lispector, Laços de Família. O primeiro conto desta segunda parte é Devaneio e embriaguez duma rapariga. Leia também a publicação da Márcia clicando aqui.

Neste conto, Clarice foi ousada ao criar uma personagem portuguesa e ao escrever com um “sotaque” português. Existe sempre o risco de algo assim acabar saindo pejorativo e o intuito inicial não ser alcançado. Não é nada fácil. E ainda temos que lembrar que Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, viveu uma parte de sua vida no Recife e depois no Rio de Janeiro, antes de iniciar as viagens diplomáticas com o marido.

Pelo quarto parecia-lhe estarem a se cruzar os elétricos, a estremecerem-lhe a imagem refletida. (…) Cá fora, duma janela mais alta, caiu à rua uma cousa pesada e fofa. Se os miúdos e o marido estivessem à casa, já lhe viria a ideia que era descuido deles.

Os contos de Laços de Família foram escritos no final da década de 1940 e início da década de 1950 e foram publicados como um livro pela primeira vez em 1960.

Devaneio e embriaguez duma rapariga conta um período curto da vida de um casal de portugueses que mora no Rio de Janeiro. A personagem central é Maria Quitéria, casada, mãe, sozinha em casa no início do conto, porque os filhos estão na casa de alguém conhecido. Ela está na inércia de quem tem muito o que fazer, mas se permite um período de descanso, largada na cama, sentindo-se.

Durante o dia inteiro ficou-se na cama, a ouvir a casa tão silenciosa sem o bulício dos miúdos, sem o homem que hoje comeria seus cozidos pela cidade. Durante o dia inteiro ficou-se à cama. Sua cólera era tênue, ardente. Só se levantava mesmo para ir à casa de banhos, donde voltava nobre, ofendida.

No final de semana, o casal ainda sozinho saiu com conhecidos do marido. Ela se permitiu beber e sabia que sua beleza era admirada pelo outro homem.

Naturalmente que ela palestrava. Pois que lhe não faltavam os assuntos nem as capacidades. Mas as palavras que uma pessoa pronunciava quando estava embriagada era como se estivesse prenhe – palavras apenas na boca, que pouco tinham a ver com o centro secreto que era como uma gravidez. Ai que esquisita estava.

Mas passado o jantar, passada a embriaguez, passado o final de semana, toda a vida teria que voltar para sua rotina: os filhos voltariam, a casa para limpar, o marido para cuidar. Não poderia mais se permitir a preguiça, a moleza, a percepção de si mesma.

Existem contos que me agradam mais e outros menos. Este não me agradou tanto. Mas sempre permite um olhar diferente. E quase sempre há a crítica da Clarice à condição da mulher, sua condição de esposa e mãe e a falta de espaço para olhar para si mesma enquanto pessoa. Pode ser que seja um desvio meu de observar sempre este lado. Mas consigo percebê-lo mais sutil ou mais concreto em praticamente todos os seus escritos. Talvez seja pela minha condição de mulher, de quem teve que brigar por espaço e por fugir dos conceitos machistas da sociedade e que tiram da mulher tantas possibilidades de demonstrar sua capacidade.

Todos deveriam ler Clarice Lispector. Acho que ficariam mais claros os anseios femininos e seu desejo de existir.

 

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3 Comments
  • Marcia Cogitare disse:

    Você ressaltou um ponto importante e que poderia colocar todo o conto a perder , a escrita com o sotaque português.
    Achei muito estranho este conto, tem um ritmo diferente dos outros.
    Mas ainda assim, diz umas verdades sobre a situação da mulher no casamento. O que sempre é bom trazer a consciência de muitos homens sem noção da vida.

    Hug

    • Pois é, acho que ela arriscou ao escrever como portuguesa… Mas, no final, acho que se saiu bem.
      Pode ser que eu veja coisa demais nos escritos da Clarice, mas sinto sempre essa crítica do papel da mulher que a sociedade exige. Sei que isso já melhorou muito, mas ainda é um problema.
      Vejo estes conflitos todos os dias no consultório e vivi na pele também.

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