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“A legião estrangeira” #1: “Os desastres de Sofia”

“A legião estrangeira” #1: “Os desastres de Sofia”
“A legião estrangeira” #1: “Os desastres de Sofia”

Começamos outro livro de contos de Clarice Lispector, “A legião estrangeira”, publicado originalmente em 1964 pela Editora do Autor. A leitura destes contos que foram todos reunidos no livro “Todos os Contos” é um projeto da Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. A publicação da Marcia sobre este conto pode ser lida clicando aqui.

Neste conto, a personagem narradora é Sofia, uma menina que tem 9 anos no início da história. Ela está relembrando sua infância; na verdade, um período muito específico de sua infância, referente ao professor que tinha na escola quando tinha 9 anos.

Qualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara de profissão, e passara pesadamente a ensinar no curso primário: era tudo o que sabíamos dele.

O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contraídos. Em vez de nó na garganta, tinha ombros contraídos. Usava paletó curto demais, óculos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atraída por ele. Não amor, mas atraída pelo seu silêncio e pela controlada impaciência que ele tinha em nos ensinar e que, ofendida, eu adivinhara. Passei a me comportar mal na sala.

E a forma de se fazer notar nas aulas era através do mau comportamento.

Mas eu o exasperava tanto que se tornara doloroso para mim ser o objeto do ódio daquele homem que de certo modo eu amava. Não o amava como a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de quem ainda não foi covarde e vê um homem forte de ombros tão curvos.

Ao longo do conto, ela descreve seu comportamento na sala de aula, na forma como ela fazia de tudo para o irritar, ofendida porque ele simplesmente a ignorava.

Essas lembranças foram despertadas quando Sofia soube, alguns anos mais tarde, através de um amigo, que o professor tinha morrido. E voltaram as memórias saudosas daquela época. E ela relata um episódio específico, em que deveria ser escrita uma redação baseada em uma pequena historinha que o professor narrara. Ela procurou ser a primeira a entregar a redação e sair logo para brincar no jardim que cercava a escola.

Mas precisou buscar algo na sala de aula e deparou-se com o professor. Ele a chamou para entregar sua redação já lida e avaliada e elogiou-a.

– Sua composição do tesouro está tão bonita. O tesouro que é só descobrir. Você… – ele nada acrescentou por um momento. Perscrutou-me suave, indiscreto, tão meu íntimo como se ele fosse o meu coração. – Você é uma menina muito engraçada, disse afinal.

(…)

– Você – repetiu então ele lentamente como se aos poucos estivesse admitindo com encantamento o que lhe viera por acaso à boca -, você é uma menina muito engraçada, sabe? Você é uma doidinha…, disse usando outra vez o sorriso como um menino que dorme com os sapatos novos.

Este conto sensível fez com que eu me lembrasse da minha infância, dos meus professores, das minhas escolas. É engraçado como nos sentimentos como sendo apenas mais um aluno e que não somos notados entre tantas crianças na mesma sala. E a necessidade de se sentir percebido, como uma forma de ser, de existir, pode levar a atitudes diferentes, apenas como uma forma de se destacar entre todos.

Eu era muito diferente de Sofia. Eu era quieta, não falava, procurando passar despercebida entre as outras crianças que nunca me pareceram amigáveis. Mas eu me destacava pelo desempenho; não era oralmente, era apenas através da escrita das palavras e dos números… eu era boa nas provas e nas tarefas, coisas que eu podia fazer calada, inserida em meu mundo particular.

E eu me lembro dos vários professores que tive, em sua maioria mulheres. Pessoas que ajudam a construir o caráter das crianças que ensinam.

 

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