9.03.2016

janelas 01

 

Sei que nunca prostituirei com luxúria ou vício o talento que possa ter. Sei que nunca defenderei coisas falsas. Mas serão bons e puros os atos da minha vida – os atos privados, próximos de mim? O que reserva o futuro – o futuro de que ‘perda’, de que ‘ganho’ sou ‘eu’?

Fernando Pessoa

  Sei que nunca prostituirei com luxúria ou vício o talento que possa ter. Sei que nunca defenderei coisas falsas. Mas serão bons e puros os atos da minha vida – os atos privados, próximos de mim? O que reserva o futuro – o futuro de que ‘perda’, de que ‘ganho’ sou ‘eu’? Fernando Pessoa



7.03.2016

20744497

 

Título Original: Klingsors letzter Sommer

Primeira Publicação: 1919

Tradutor: Pinheiro de Lemos

Editora: Record (2003)

ISBN13: 9788501002402

Sinopse: O último verão de Klingsor é uma reunião de três pequenas obras-primas escritas na mesma época em que Hermann Hesse produziu duas de suas mais celebradas criações – Demian e Sidarta. 

O primeiro dos contos, Alma de criança, explora a gênese do sentimento de culpa e da angústia, através do relato das emoções de um garoto em relação ao pai. “Todos esses sentimentos de manifestavam no coração da criança da mesma forma que permaneceram: dúvida do meu valor pessoal, indecisão entre a auto-estima e o desânimo”. Como um Kafka às avessas, o autor constrói uma narrativa extremamente delicada, analisando o confronto entre o estranhamento, a mentira e a autoridade. 

Com o segundo episódio, Klein e Wagner, o que parece uma incursão de Hesse no gênero policial, mostra-se um mergulho ainda mais profundo nos temas já sugeridos a primeira narrativa, com uma história complexa de crime, castigo e redenção. “Sempre houve dois Friedrich Klein, um visível, outro secreto, um funcionário público e um criminoso, uma pai de família e um assassino”. Aqui o autor analisa a angústia, a culpa e o estranhamento conjugando a saga de um fugitivo com passagens de clássicos da filosofia de Schopenhauer e das obras de Goethe. 

Hesse oferece-nos uma alegoria repleta de discussões sobre o amor, a representação do mundo, a arte, a posteridade e a magia em O último verão de Klingsor. O autor narra os últimos meses de vida de um pintor expressionista, considerado por muitos como um retrato literário da natureza do escritor. É um ponto de partida para um relato que une a sabedoria de poetas chineses com a angústia de um artista diante das vicissitudes de sua vida e do legado de sua obra.

 

flrlines40

 

Apesar de Hermann Hesse ter sido Nobel de Literatura em 1946, apenas vim a conhecê-lo em 2013. Pode ser que tenha lido alguma citação sua antes disso, mas tenho que reconhecer minha ignorância sobre esse escritor.

De certa forma, acho que isso foi uma coisa boa. Afinal, acredito que Hermann Hesse tenha entrado na minha vida no momento correto, estando eu já pronta para assimilar tudo o que ele escreveu em suas obras. Aconteceu a mesma coisa com outros grandes escritores, que chegaram no tempo certo; mas sobre os outros, contarei em outras oportunidades.

Eu passava por um problema de saúde e um enorme sofrimento emocional. Tentava buscar conforto em algumas leituras indicadas. Uma amiga tinha sugerido a leitura de “Amor em Minúscula” de Francesc Miralles. Foi uma leitura maravilhosa e que me apresentou a inúmeros outros escritores, além de me levar através de uma história de amor impossível (mostrando que eu não era a única que sofria por amores impossíveis).

No livro, Francesc Miralles coloca algumas citações de obras de Hermann Hesse que me trouxeram boas sensações. Fui atrás das obras do escritor e comprei “O Lobo da Estepe”, “Demian” e “Sidarta”. Foi um amor imediato!

Passei a procurar todas as publicações de Hermann Hesse em português, sendo que alguns livros de contos encontrei apenas em sebos; alguns se desfazendo de tão antigos. Li absolutamente tudo o que encontrei. Faltava esse livro e um último que está aguardando na minha estante, chamado “Felicidade”.

O livro “O último verão de Klingsor” é composto de 3 contos:

  1. Alma de Criança
  2. Klein e Wagner
  3. O último verão de Klingsor

Os contos desse livro são diferentes de outros contos dele que eu já tinha lido. Eles trazem um grande componente do egoísmo dos homens, do lado vil e mesquinho. Mas associado a esse componente, vem a percepção do errado e a culpa que castiga; aquela sensação de que alguém nos olha de forma estranha, quando somos nós mesmos que estamos nos sentindo errados perante nossa consciência.

Em “Alma de Criança”, ele conta a história de um menino que rouba alguns doces de uma gaveta do pai, quase como uma peraltice. Mas ele se nega a reconhecer o ato quando questionado e vai aumentando seu pecado ao inventar inúmeras mentiras na tentativa de escapar do crime. O grande cerne do texto é que o menino sabe que errou e que está errando sucessivamente e se condena enormemente por isso.

Os atos de nossa vida, que julgamos bons e dos quais falamos sem reservas, são quase todos daquela primeira categoria “fácil” e facilmente os esquecemos. Outros atos, dos quais temos dificuldade em falar, nunca mais os esquecemos; são de certo modo mais nossos do que os outros e projetam longas sombras sobre todos os dias de nossa vida.

Em “Klein e Wagner”, há mais uma história de um delito, cometido por um homem que está em sua fuga da Alemanha para a Itália. Ele tenta levar uma vida normal, tenta se aproveitar do fruto de seu crime. Mas sua consciência vai sugando suas atitudes para um fim do qual ele não consegue escapar.

Sim, era melhor dirigir por si mesmo e com isso ficar reduzido a cacos do que ser sempre conduzido e dirigido pelos outros.

Em “O último verão de Klingsor”, conto que dá nome ao livro, Hermann Hesse nos fala sobre um pintor expressionista, já consagrado, que começa a demonstrar algum cansaço com a vida, uma vida onde ele não se encaixa mais. Ele vive cercado de pessoas, amigos, mulheres, mas não consegue mais sentir uma harmonia entre suas ideias e aquelas das pessoas à sua volta.

Por que existia o tempo? Por que tinha de haver sempre essa idiota sucessão de uma coisa a outra e não uma simultaneidade ardente e capaz de saciar?

Gostei muito dos 3 contos. Foi um livro de leitura agradável, muitas reflexões, muitos ensinamentos… tudo o que eu gosto.

– Sílvia Souza

Sonnenblume_02_KMJ

  Título Original: Klingsors letzter Sommer Primeira Publicação: 1919 Tradutor: Pinheiro de Lemos Editora: Record (2003) ISBN13: 9788501002402 Sinopse: O último verão de Klingsor é uma reunião de três pequenas obras-primas escritas na mesma época em que Hermann Hesse produziu duas de suas mais celebradas criações – Demian e Sidarta.  O primeiro dos contos, Alma de criança, explora a gênese do […]



24.02.2016
"D'ou Venons Nous / Que Sommes Nous / Où Allons Nous" de Paul Gauguin (1897)

“D’ou Venons Nous / Que Sommes Nous / Où Allons Nous” de Paul Gauguin (1897)

 

Meus pais lêem tudo o que escrevo e sei que, depois desse texto, será um dos dias em que minha mãe vai me ligar e dizer que eu penso demais nas coisas… Até pensei em escrever algo diferente, mas deve haver uma pessoinha dentro de mim que fica me ditando o que escrever… A Rosa Montero, escritora espanhola, chama essa “pessoinha” dentro dela de “a louca da casa”. Vou pensar numa forma de nomear a minha também.

Hoje acordei cedo, como costumo fazer em quase todos os dias. Segui minha rotina diária. Embora cada dia seja único e nada aconteça exatamente da mesma forma, não houve nenhum evento novo ou que tenha fugido do habitual.

E me veio uma pergunta que me incomoda com frequência cada vez maior e para a qual não tenho resposta… Afinal, qual o sentido de tudo? De tudo o que fazemos, dessa rotina diária, de tanto sofrimento, tanta batalha?

Meu dia é motivado por pessoas (pessoas que amo ou pessoas por quem me importo): meus filhos, meus pais, minhas irmãs, meus sobrinhos, meus amigos, meus pacientes… E sofro porque fico longe da minha família. Escutar a voz pelo telefone é bom; até dá para ver a imagem. Mas e o contato? O abraço? O toque? O carinho? Eu preciso disso. Por que não os vejo mais? Por que não vivemos mais perto uns dos outros? Por que seguimos nessa rotina sem sentido, tentando ignorar a saudade que ocupa um espaço enorme dentro da gente?

Converso com pessoas que vivem para o trabalho, sem que destinem um tempo para a família ou para si próprios… Para quê? Sei que há necessidade de ter um salário, uma forma de ganhar a vida, uma programação para o futuro… Quando será o “futuro”? Quando a pessoa tiver 80 anos? Quando houver dores e doenças?

Vejo as pessoas que guardam mágoas ou que magoam os outros, que são egoístas ou maltratam ou ignoram, pessoas intolerantes, mesquinhas… Vale a pena? A vida passa tão rápido! Há pessoas que se afastaram de mim, com quem tento contato, que não me retornam e, em alguns casos, eu nem mesmo sei o que fiz (se fiz alguma coisa). Ou mesmo que eu tenha feito alguma coisa que magoasse alguém, será que a sensação do perdão, de esclarecer os mal-entendidos, não é muito melhor do que guardar aquele sentimento venenoso dentro de si?

Algumas pessoas tentam encontrar um sentido para a vida e acabam se contentando em algo tão pequeno e superficial quanto se esforçar para ter um corpo perfeito passando horas na academia ou tomando remédios de forma inconsequente, remédios que fazem mais mal do que bem. Outras que passam fome a vida toda, porque acham que serão felizes se forem magras. Alguns vivem uma vida de mentira, tentando não ver o sofrimento, a miséria e a doença. Outros ignoram sua própria miséria (a miséria da alma) e preenchem suas vidas criticando os outros e negando-se a ver suas próprias falhas e defeitos.

As relações se tornaram superficiais. Tenta-se obter do outro alguma vantagem, o sexo casual, um favor, sem nem perguntar se está tudo bem. Ninguém quer saber dos problemas e a vida vai sendo apresentada pelo Facebook como se fossem todos ricos, bonitos e felizes. Afinal, é essa vida de mentira que conta? É nela que temos que encontrar sentido? Se eu estiver bonita, jovem, magra e sorridente na foto, posso me considerar realizada?

Fazia meu Pilates de manhã e pensava em tudo isso. Tive vontade de chorar. Aliás, algumas lágrimas chegaram a surgir, mas engoli o choro a seco para que não mostrasse minha tristeza e minha indignação para os outros.

Queria cercar minha existência de pessoas que se importam comigo e por quem tenho carinho. Gostaria de me desculpar com aquelas a quem causei alguma mágoa. Quero desculpar todos aqueles que me fizeram chorar. Quero uma vida mais simples, sem desentendimentos, nem brigas, onde as diferenças possam ser esclarecidas e toleradas.

A vida passa tão rápido… o que vem depois ninguém sabe… É aqui e agora que temos que resolver nossos conflitos e tentar dar algum sentido para essa nossa existência, algum sentido maior do que bens materiais, vaidade excessiva ou a programação para um futuro que pode nunca chegar.

– Sílvia Souza

REFLEXÕES E ANGÚSTIAS LOGO pequeno

  Meus pais lêem tudo o que escrevo e sei que, depois desse texto, será um dos dias em que minha mãe vai me ligar e dizer que eu penso demais nas coisas… Até pensei em escrever algo diferente, mas deve haver uma pessoinha dentro de mim que fica me ditando o que escrever… A […]






%d blogueiros gostam disto:
DESIGN POR JESS