24.02.2016
"D'ou Venons Nous / Que Sommes Nous / Où Allons Nous" de Paul Gauguin (1897)

“D’ou Venons Nous / Que Sommes Nous / Où Allons Nous” de Paul Gauguin (1897)

 

Meus pais lêem tudo o que escrevo e sei que, depois desse texto, será um dos dias em que minha mãe vai me ligar e dizer que eu penso demais nas coisas… Até pensei em escrever algo diferente, mas deve haver uma pessoinha dentro de mim que fica me ditando o que escrever… A Rosa Montero, escritora espanhola, chama essa “pessoinha” dentro dela de “a louca da casa”. Vou pensar numa forma de nomear a minha também.

Hoje acordei cedo, como costumo fazer em quase todos os dias. Segui minha rotina diária. Embora cada dia seja único e nada aconteça exatamente da mesma forma, não houve nenhum evento novo ou que tenha fugido do habitual.

E me veio uma pergunta que me incomoda com frequência cada vez maior e para a qual não tenho resposta… Afinal, qual o sentido de tudo? De tudo o que fazemos, dessa rotina diária, de tanto sofrimento, tanta batalha?

Meu dia é motivado por pessoas (pessoas que amo ou pessoas por quem me importo): meus filhos, meus pais, minhas irmãs, meus sobrinhos, meus amigos, meus pacientes… E sofro porque fico longe da minha família. Escutar a voz pelo telefone é bom; até dá para ver a imagem. Mas e o contato? O abraço? O toque? O carinho? Eu preciso disso. Por que não os vejo mais? Por que não vivemos mais perto uns dos outros? Por que seguimos nessa rotina sem sentido, tentando ignorar a saudade que ocupa um espaço enorme dentro da gente?

Converso com pessoas que vivem para o trabalho, sem que destinem um tempo para a família ou para si próprios… Para quê? Sei que há necessidade de ter um salário, uma forma de ganhar a vida, uma programação para o futuro… Quando será o “futuro”? Quando a pessoa tiver 80 anos? Quando houver dores e doenças?

Vejo as pessoas que guardam mágoas ou que magoam os outros, que são egoístas ou maltratam ou ignoram, pessoas intolerantes, mesquinhas… Vale a pena? A vida passa tão rápido! Há pessoas que se afastaram de mim, com quem tento contato, que não me retornam e, em alguns casos, eu nem mesmo sei o que fiz (se fiz alguma coisa). Ou mesmo que eu tenha feito alguma coisa que magoasse alguém, será que a sensação do perdão, de esclarecer os mal-entendidos, não é muito melhor do que guardar aquele sentimento venenoso dentro de si?

Algumas pessoas tentam encontrar um sentido para a vida e acabam se contentando em algo tão pequeno e superficial quanto se esforçar para ter um corpo perfeito passando horas na academia ou tomando remédios de forma inconsequente, remédios que fazem mais mal do que bem. Outras que passam fome a vida toda, porque acham que serão felizes se forem magras. Alguns vivem uma vida de mentira, tentando não ver o sofrimento, a miséria e a doença. Outros ignoram sua própria miséria (a miséria da alma) e preenchem suas vidas criticando os outros e negando-se a ver suas próprias falhas e defeitos.

As relações se tornaram superficiais. Tenta-se obter do outro alguma vantagem, o sexo casual, um favor, sem nem perguntar se está tudo bem. Ninguém quer saber dos problemas e a vida vai sendo apresentada pelo Facebook como se fossem todos ricos, bonitos e felizes. Afinal, é essa vida de mentira que conta? É nela que temos que encontrar sentido? Se eu estiver bonita, jovem, magra e sorridente na foto, posso me considerar realizada?

Fazia meu Pilates de manhã e pensava em tudo isso. Tive vontade de chorar. Aliás, algumas lágrimas chegaram a surgir, mas engoli o choro a seco para que não mostrasse minha tristeza e minha indignação para os outros.

Queria cercar minha existência de pessoas que se importam comigo e por quem tenho carinho. Gostaria de me desculpar com aquelas a quem causei alguma mágoa. Quero desculpar todos aqueles que me fizeram chorar. Quero uma vida mais simples, sem desentendimentos, nem brigas, onde as diferenças possam ser esclarecidas e toleradas.

A vida passa tão rápido… o que vem depois ninguém sabe… É aqui e agora que temos que resolver nossos conflitos e tentar dar algum sentido para essa nossa existência, algum sentido maior do que bens materiais, vaidade excessiva ou a programação para um futuro que pode nunca chegar.

– Sílvia Souza

REFLEXÕES E ANGÚSTIAS LOGO pequeno

  Meus pais lêem tudo o que escrevo e sei que, depois desse texto, será um dos dias em que minha mãe vai me ligar e dizer que eu penso demais nas coisas… Até pensei em escrever algo diferente, mas deve haver uma pessoinha dentro de mim que fica me ditando o que escrever… A […]






%d blogueiros gostam disto:
DESIGN POR JESS