7.05.2016
Paris, França

Paris, França

 

Tenho a impressão de que há pequenos pedaços meus espalhados por vários lugares diferentes. Meu corpo vive em São Paulo, onde tenho as coisas mais importantes da minha vida: meus filhos. São Paulo acolhe a Sílvia mãe, profissional e mulher batalhadora. Em São Paulo, preciso usar meus escudos, minhas armas e estar sempre pronta para a batalha.

Minha alma de infância, minhas lembranças mais queridas estão no interior, na região de Presidente Prudente, onde vive minha família. Lá, eu me sinto acolhida, amada e posso deixar exposto meu lado mais frágil, porque sei que não serei magoada.

Há pequenas partes espalhadas por outros lugares, onde tenho amigos ou locais que tiveram grande significado na minha vida: Praga, Salvador, Nova York, Toronto, Califórnia, Londres, Madri, Cancun, Chicago, Viena, Amsterdã.

Tenho um pedaço enorme do meu coração em Portugal, país que acho lindo e onde me sinto bem. Grande parte da minha genética é portuguesa e creio que devo reconhecer Portugal como meu lar por causa dos meus antepassados.

Mas acho que minha alma ficou aprisionada de verdade e para todo o sempre em Paris.

Faz pouco mais de um ano que eu voltei da minha última viagem a Paris. A grande questão é que não sou apenas apaixonada pela beleza de Paris. Não. Amo Paris em cada detalhe, cada coisa boa ou ruim; amo a atmosfera, seu clima (não importando a estação do ano), seu perfume… tudo!

Paris guarda uma fase importante da minha vida, todos os meus confrontos interiores, as vezes em que enfrentei meus fantasmas, momentos em que me isolei, em que me descobri, em que tive que olhar para mim mesma desconectada dos olhares e das opiniões das outras pessoas. Por que tudo isso aconteceu em Paris? Não sei. De repente poderia ter sido em Campos do Jordão ou no Guarujá. Mas não foi. Acho que apenas lá eu tive a chance de me isolar do mundo e explorar as coisas por mim mesma, descobrindo meus gostos, meus desejos, meus prazeres e meus medos.

Quando vou a Paris, consigo impor à vida o ritmo que eu gostaria de seguir sempre: tudo feito com calma… e ter tempo para apreciar as belezas, sentir o vento acariciando o rosto, olhar para o céu, apreciar os jardins, sentar para almoçar sem ter que me preocupar com o fato de haver pessoas esperando ou não. Meu relógio segue outro ritmo.

Eu não sei quando conseguirei voltar a Paris novamente. Talvez em 2 meses. Talvez nunca mais na minha vida. Mas tenho que confessar que, quando Paris aparece entre minhas possibilidades futuras, a vida me parece mais divertida, mais colorida e consigo perceber uma razão para enfrentar cada desafio do meu dia. Eu deveria ter sempre uma viagem programada para Paris; nem que fosse nos meus sonhos. Voltar para Paris é meu IKIGAI.

Ikigai (生き甲斐) é um conceito japonês cujo significado é “uma razão para existir”. Todas as pessoas, de acordo com os japoneses, possuem um ikigai. Encontrá-lo requer um olhar profundo para si mesmo. Essa busca é muito importante, porque se acredita que a sua descoberta traz satisfação e sentido à vida.

Pode parecer muito fútil eu colocar o objetivo de voltar a Paris como algo tão significativo na minha vida. E eu já tive outros objetivos em momentos diferentes. Muitos deles já foram realizados. Precisei buscar outros para desejar continuar vivendo. Meus filhos, meus pais e minhas irmãs são essenciais na minha vida, mas não posso basear o sentido de viver em nenhum deles; seria um encargo muito grande. Imaginei que escrever teria esse sentido; mas percebo de forma cada vez mais real que eu não tenho o dom da escrita que eu gostaria de ter. E percebo que nada me motiva mais do que planejar uma viagem para Paris. Talvez seja o local onde eu reúna corpo e alma e seja uma pessoa inteira e completa.

Os meus 10 locais preferidos em Paris:

  1. Notre-Dame de Paris
  2. Sainte-Chapelle
  3. Musée D’Orsay
  4. Musée de l’Orangerie
  5. Musée Rodin
  6. Avenue de Champs Elysée
  7. Jardin du Luxembourg
  8. Musée du Louvre
  9. Place des Vosges
  10. Andar muito pela cidade… sem pausa… caminhar por todos os lugares… explorar cada cantinho…

 

  Tenho a impressão de que há pequenos pedaços meus espalhados por vários lugares diferentes. Meu corpo vive em São Paulo, onde tenho as coisas mais importantes da minha vida: meus filhos. São Paulo acolhe a Sílvia mãe, profissional e mulher batalhadora. Em São Paulo, preciso usar meus escudos, minhas armas e estar sempre pronta […]



24.04.2016
Estarreja, Portugal

Estarreja, Portugal

 

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida…
Sou isso, enfim…
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Fernando Pessoa

  Começo a conhecer-me. Não existo. Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, Ou metade desse intervalo, porque também há vida… Sou isso, enfim… Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor. Fique eu no quarto só com o grande sossego de […]



7.04.2016
São Paulo

São Paulo

 

O nome estava na lista. A matrícula feita. A vida decidida. E agora? Em menos de 2 meses, as aulas começariam e eu não tinha ideia de onde poderia morar nessa cidade gigantesca e desconhecida. Tinha 17 anos e nenhum parente próximo que vivesse aqui e pudesse me ajudar.

Como minha ideia inicial era ir para Campinas, meus pais não pensaram em procurar um lugar em São Paulo para mim. Algumas amigas viriam de qualquer forma, mesmo que fosse para fazer cursinho. Mas não eu. A maioria das minhas amigas tinha alguma tia ou prima que morava aqui. Não eu. Cada uma delas estava acomodada, ao menos para o início das aulas. Não eu.

Eu teria aula em 2 lugares principais: na Faculdade de Medicina e na Cidade Universitária. Precisaria me deslocar de ônibus (as linhas de metrô eram ainda mais restritas naquela época); tinha que morar em algum lugar seguro e de fácil acesso e, acima de tudo, que fosse barato para ser viável.

Minha mãe passou a procurar indicações de pensionatos de freiras que aceitassem estudantes. Mas não havia muitos e os melhores não tinham vagas disponíveis. Depois de muito procurar, encontraram um pensionato em uma travessa da Caio Prado, próximo à Igreja Nossa Senhora da Consolação. Era o Centro de São Paulo. Em nossa primeira viagem para conhecer o lugar, o relógio da minha mãe foi furtado por um rapaz que passou correndo.

O metrô não era muito distante. A estação mais próxima era a República. Havia ônibus que pudesse me levar tanto à Faculdade quanto à Cidade Universitária.

O pensionato era todo trancado, com muitas grades e cadeados. Havia horários rígidos para estarmos de volta. Não podíamos fazer ligações telefônicas (apenas recebê-las) e não existiam celulares nem computadores pessoais. Eu dividia o quarto com outra moça, de Rio Claro. Não havia máquina de lavar roupas e eu precisava lavá-las à mão. Para usar a cozinha, eu precisava pagar à parte, por causa da geladeira e do gás, e não havia nenhum tipo de comida ou bebida lá. O banheiro era compartilhado entre todas.

Como a maioria das meninas morava em cidades próximas a São Paulo, elas costumavam ir embora para a casa dos pais nos finais de semana. Éramos poucas que permaneciam. Não dava para cozinhar lá, então, eu precisava sair para comer ou ficava com fome (o que acontecia com muita frequência, em especial nos finais de semana). Eu tinha muito medo de andar pelo Centro nos finais de semana, principalmente nos domingos, porque ficava muito deserto, com todas as lojas fechadas e ficava ocupado por indigentes e jovens infratores. Eu me assustava com tudo. Escutava histórias terríveis sobre São Paulo, sobre os perigos, a violência, os assaltos. Não estava habituada a tantos prédios, tantas pessoas, tantos carros… tudo era excessivo. Até mesmo a solidão era excessiva. Uma solidão repleta de pessoas.

Meus pais vieram, acompanharam-me no trote (que não foi tão terrível assim), ficaram alguns dias hospedados em um hotel próximo do pensionato e depois tiveram que partir.

E São Paulo estava gigantesca na minha frente, assombrando-me em todos os seus tons de cinza, com céu sem estrelas (que eu nem mesmo podia ver, porque não havia janelas no meu quarto), a poluição no horizonte, seu barulho constante ao qual acabamos nos acostumando e relevando, todo seu concreto cruel e frio.

Não sou do tipo que desiste dos objetivos, desde que os tenha. Sofro, mas sigo em busca dos meus sonhos. São Paulo me desafiou (e ainda desafia) cada dia que passei aqui (e ainda passo). Ainda travamos essa guerra silenciosa, em que a cidade tenta me expulsar e eu tento me convencer de que ela é meu lar. Talvez algum dia haja uma vencedora. E suponho que não serei eu. Mas não desisto da batalha, até que eu me esgote e parta, ou até que a velha gigante, com seus 462 anos e 12 milhões de habitantes, fira-me de morte.

– Sílvia Souza

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  O nome estava na lista. A matrícula feita. A vida decidida. E agora? Em menos de 2 meses, as aulas começariam e eu não tinha ideia de onde poderia morar nessa cidade gigantesca e desconhecida. Tinha 17 anos e nenhum parente próximo que vivesse aqui e pudesse me ajudar. Como minha ideia inicial era […]


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