5.07.2016
"Psyche Opening the Golden Box" de John William Waterhouse (1903)

“Psyche Opening the Golden Box” de John William Waterhouse (1903)

 

Arrumando sua bolsa, ela achou um minúsculo porta jóias. Lindo. Revestido a ouro. Com cristais coloridos. Quem teria colocado no meio das suas coisas? Seria um presente? Procurou o fecho, buscando desvendar o mistério. Não foi fácil achá-lo: um minúsculo botão escondido entre os cristais. Abriu com cuidado, para que não caísse nada do seu interior.

Ao primeiro olhar, não entendeu muito bem o que estava ali dentro. Não eram jóias. Era algo disforme. Talvez um tecido. Parecia macio. Colocou seus óculos de visão para perto. Aproximou os olhos. Tocou levemente com o indicador. Percebeu que, ao toque, o conteúdo da caixinha se mexeu e mudou a posição. Ela espremeu os olhos, esfregou-os com as mãos e espremeu-os novamente, tentando ganhar nitidez. Não acreditou no que viu.

No interior daquele pequeno porta jóias, estava ela própria, encolhida e toda dobrada em si mesma, amedrontada, sofrida, abandonada.

Era algo tão absurdo e impossível, que fez com que ela se esquecesse de tudo à sua volta. Parecia estar em um sonho, daqueles sonhos estranhos onde as coisas mais insólitas e inesperadas acontecem.

Ela olhava aquele pequeno ser, menor que seu dedo mínimo, imaginando se poderia ser um brinquedo de cordas, como aquelas bailarinas das caixinhas de música. Mas a sua miniatura começou a se mover, voluntariamente, e sentou-se na caixinha, abraçando as pernas próximas de seu corpo.

Ela teve a ideia de pegar uma lupa e olhou a pessoinha com maior atenção. Foi quando enxergou seus olhos e as duas se entreolharam. Nos segundos que durou aquele olhar, ela entendeu tudo. Viu sua existência se desenrolar diante de si, como se estivessem esticando um tapete que contivesse as cenas de sua vida.

E percebeu todas as vezes em que se encolheu, escondendo suas próprias qualidades, para não ofuscar outras pessoas; todas as vezes em que se diminuiu para não parecer prepotente, mesmo estando certa de que sua opinião era a correta. Lembrou-se das vezes em que se reduziu para não causar desconforto e confronto. Pensou nas vezes em que se retraiu e concordou com pessoas menos inteligentes e preparadas na tentativa de manter amizades que não valiam a pena. Recordou-se das inúmeras vezes em que se calou, quando deveria ter gritado e defendido seu ponto de vista; das vezes em que se escondeu atrás de pessoas que se agigantavam e impunham seu jeito de ser; das vezes em que se ocultou, deixando que outros assumissem o trabalho que ela tinha feito.

Eram tantas cenas, tantas recordações, sendo projetadas à sua frente em uma fração de segundos, que ela passou a entender aquela figura minúscula, diminuída e assustada.

Ela sempre tinha feito questão de passar despercebida, chamar o mínimo de atenção sobre si mesma. Era quieta. Quase invisível. Saia-se bem em tudo, mas sem se destacar. Sua voz era desconhecida de todas as pessoas que não pertencessem ao círculo restrito de amigos. Tentava esconder sua beleza atrás dos quilos a mais que carregava em seu corpo.

Buscava, com isso, amizades que nunca vieram, abraços apenas sonhados, olhares de afeto sincero que nunca existiram.

E ali estava ela, sozinha, assustada e tão diminuída a ponto de caber na palma da mão de uma criança.

Ela se sentou em uma cadeira e chorou. Chorou muito.

E sua miniatura retomou seu sono, esquecida, no interior do pequeno porta jóias.

– Sílvia Souza

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  Arrumando sua bolsa, ela achou um minúsculo porta jóias. Lindo. Revestido a ouro. Com cristais coloridos. Quem teria colocado no meio das suas coisas? Seria um presente? Procurou o fecho, buscando desvendar o mistério. Não foi fácil achá-lo: um minúsculo botão escondido entre os cristais. Abriu com cuidado, para que não caísse nada do seu […]



18.05.2016

equilibrio-das-pedras

 

Não fazemos aquilo que queremos e, no entanto, somos responsáveis por aquilo que somos.

– Jean-Paul Sartre

Houve um momento da minha vida em que passei a olhar para mim mesma como vítima. Quem me escutasse falando, pensaria que eu não tinha tido a chance de tomar minhas próprias decisões, que meus caminhos tinham sido escolhidos para mim por outra pessoa.

Eu representava esse papel e de fato acreditava nisso. E por me sentir a vítima, achava que eu tinha o direito de magoar pessoas que me amavam. Afinal, elas tinham feito escolhas que tinham sido prejudiciais para mim… era o pensamento distorcido que eu tinha!

Aos poucos, conseguindo adotar olhares diferentes para as situações passadas, mudei de opinião. O problema é que eu tenho uma dificuldade enorme de encontrar o equilíbrio. Sinto o meu “eu” em um movimento pendular: vou de um extremo a outro, em um vai e vem, até que o movimento do pêndulo vá parando no meio e vejo a situação de uma forma mais real.

Então, passei a achar o contrário. Que eu (e apenas eu) era a responsável por todas as minhas escolhas e por todas as consequências que tinham decorrido delas. E com essa visão, veio um peso enorme sobre mim. Passei a me sentir culpada por ter feito sofrer pessoas queridas na fase em que me achava vítima. E a culpa é um sentimento horrível. Diferente do arrependimento, que traz em si uma mudança de atitude, a culpa carrega uma passividade, como se ficássemos plantados no lugar do sofrimento e não fosse mais possível seguir em frente.

Comecei a chorar por escolhas feitas e que não podiam ser mudadas. E eu tinha sido a responsável por todas elas! (eu vejo muitas vezes isso colocado na internet, em frases e textos: assuma a responsabilidade por seus atos!!!).

Em vez disso trazer algo positivo para mim, fui afundando cada vez mais nesse pântano de sofrimento, culpa, tristeza, passividade. Veio a depressão e a vontade de morrer. Eu me sentia uma pessoa ruim, má mesmo. E sendo má (como eu me via), o que eu poderia trazer de bom para as pessoas que conviviam comigo?

Mais alguns meses de reflexões e reavaliações da minha vida amenizaram um pouco esse peso excessivo que eu carregava nas costas.

 

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Passei a perceber que, embora eu fosse responsável pelas minhas escolhas, nem sempre havia uma escolha. Alguns momentos e algumas decisões não permitiam que eu tivesse feito algo diferente. Eram estradas que dependiam das escolhas das outras pessoas que estavam à minha volta e que impactavam diretamente na minha vida.

Isso ameniza um pouco o sentimento de culpa e facilita sair da lama e voltar a caminhar em busca dos meus sonhos.

Aceitei, em alguns momentos, abrir mão dos meus desejos e dos meus objetivos por causa do amor que escolhi para dividir minha vida ou por causa dos meus filhos. São escolhas que a gente faz, nessa troca e entrega que envolve todos os relacionamentos.

Tenho tentado também localizar o mais rápido possível esse ponto de equilíbrio, o caminho do meio, a moderação. Isso pode ser usado em tudo na vida. Ainda não encontrei uma exceção. Talvez abraços? Gosto de abraços e talvez não haja um número limite.

O Budismo prega o Caminho do Meio e a moderação nas escolhas.

A Filosofia de Aristóteles também defende a ponderação das atitudes para que se alcance a felicidade. Qualquer extremo pode até gerar um prazer temporário, mas a felicidade (e a tranquilidade que ela traz) vem do equilíbrio. Devemos aprender a virtude e torná-la um hábito, para termos tranquilidade de alma.

Ainda tenho dificuldade nesse equilíbrio. Eu me sinto constantemente em uma corda bamba. E tenho que reencontrar a estabilidade a cada passo que dou, a cada vento que sopra. É algo dinâmico, difícil.

Mantenho a cabeça erguida e o olhar aonde quero chegar.

 

Corda Bamba

(austríaco Heinz Zak)

– Sílvia Souza

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  Não fazemos aquilo que queremos e, no entanto, somos responsáveis por aquilo que somos. – Jean-Paul Sartre Houve um momento da minha vida em que passei a olhar para mim mesma como vítima. Quem me escutasse falando, pensaria que eu não tinha tido a chance de tomar minhas próprias decisões, que meus caminhos tinham […]



14.05.2016

13 Renoir (1)

 

 

Sou uma pessoa isolada no mundo.

Sem pertencimento.

Sozinha.

Não faço parte de nenhum grupo.

Não há ninguém como eu.

Tentei participar, me enquadrar.

Foi em vão.

Não consegui.

Não achei iguais.

Eu me isolo.

Não consigo conversar.

Não tenho companhia.

Não faço parte de nada.

É possível que eu seja assim, tão incomum entre bilhões de pessoas?

– Sílvia Souza

Sonnenblume_02_KMJ

    Sou uma pessoa isolada no mundo. Sem pertencimento. Sozinha. Não faço parte de nenhum grupo. Não há ninguém como eu. Tentei participar, me enquadrar. Foi em vão. Não consegui. Não achei iguais. Eu me isolo. Não consigo conversar. Não tenho companhia. Não faço parte de nada. É possível que eu seja assim, tão […]






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