15.07.2016
Promenade des Anglais, Nice, France

Promenade des Anglais, Nice, France (Março de 2011)

 

Em março de 2011, a programação de uma viagem à França incluiu a região da Côte D’Azur. Partimos de Paris de TGV a caminho de Cannes, onde ficamos por alguns dias. Em Cannes, pegamos um carro e percorremos toda a costa até Nice e Mônaco. Depois voltamos até Marseille, onde o carro foi entregue e pegamos o TGV de volta a Paris. Foi uma viagem maravilhosa, como todas as que fiz para a França.

Quem ainda não sabe que a França é um dos países que mora no meu coração? Não sei explicar o motivo. Mas o fato é que tenho um amor enorme por tudo que se relaciona com a França.

Estávamos em Nice no domingo de Carnaval e vimos o desfile de rua, com os carros alegóricos, as músicas, as máscaras… uma festa alegre, com todas as pessoas na rua, diferente do Carnaval que eu estava habituada a ver no Brasil. O desfile percorria a Promenade des Anglais. E foi onde essa foto minha foi feita, com o céu azul e o Mediterrâneo ao fundo. Uma foto repleta de tons de azul.

Nice é uma cidade linda, com sua parte antiga, a proximidade de Mônaco e da Itália. Durante minha visita à cidade, eu dizia que adoraria morar lá. A atmosfera mais simples de Nice me encantou mais do que a beleza cheia de ostentação de Cannes.

O acontecimento da noite de ontem, durante a celebração da queda da Bastilha na França, com tantos mortos e feridos, ocorrido em Nice fez com que eu revivesse minha viagem. E vem minha tristeza e indignação.

Que ódio é esse, contra um país, uma religião ou o que quer que tenha motivado esse ódio, que faz com que tantas vidas inocentes sejam destruídas? Qual a culpa de cada uma dessas pessoas que foi atingida ou dos familiares que perderam pessoas queridas?

O ódio sempre existiu entre os homens, assim como a intolerância, as rivalidades, a disputa por poder ou o desejo de vingança. Mas os avanços tecnológicos criaram máquinas capazes de destruir centenas de vidas em questão de segundos. E existem essas pessoas que não pensam com remorso nas vidas destruídas; ao contrário, vangloriam-se dessa destruição em massa, da política do medo, em que as pessoas boas e inocentes ficam cada vez mais reféns dos maus e violentos.

Vivemos uma guerra civil diária no Brasil. Acabamos optando por viver alienados das notícias sobre o número de homicídios, assaltos, ameaças e outras agressões. Muitos morrem aqui todos os dias; muitos inocentes também. E fomos aceitando conviver com o medo e com a prisão domiciliar imposta pelo crime organizado que dita as regras. Não questionamos. Não nos rebelamos. Simplesmente aceitamos.

A mesma coisa vem sendo imposta aos países desenvolvidos, democráticos e que não conviviam com a violência em sua rotina diária. Todas as pessoas boas, do bem, corretas estão aprendendo a conviver com o medo constante.

Não consigo aceitar isso. Tem que haver uma forma de mudar. Qual é o sentido da existência humana quando se vive refém do medo?

– Sílvia Souza

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  Em março de 2011, a programação de uma viagem à França incluiu a região da Côte D’Azur. Partimos de Paris de TGV a caminho de Cannes, onde ficamos por alguns dias. Em Cannes, pegamos um carro e percorremos toda a costa até Nice e Mônaco. Depois voltamos até Marseille, onde o carro foi entregue […]


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8.07.2016
Grandmother's Birthday de Josephus Laurentius Dyckmans (1867)

Grandmother’s Birthday de Josephus Laurentius Dyckmans (1867)

 

Minha avó paterna nasceu em 1920 e morreu em 1975. Eu a conheci muito pouco, porque ela morreu no dia de aniversário de 2 anos da minha irmã e eu não tinha nem 4 anos. Foi uma morte súbita, daquela que a maioria das pessoas gostaria de ter.

Ela era descendente de portugueses e vinha de uma família com algumas posses. Muito jovem, foi enviada a colégio interno mantido por freiras em uma cidade do interior do estado, distante cerca de 400 km da cidade onde morava seus pais, em uma época em que os deslocamentos não eram tão rápidos e eficientes quanto hoje em dia. Imagino sua solidão.

No colégio, aprendeu a tocar piano, a pintar quadros e tecidos, a fazer croché e tricô, a costurar, a cozinhar. Saiu uma perfeita esposa. Apenas não aprendeu a se conhecer e a escutar seus próprios desejos.

Logo que saiu do colégio, ela se casou, aos 18 anos, com um médico de sua cidade natal. Nove meses após o casamento, nascia o primeiro dos 6 filhos que teve, sendo que 5 deles foram meninos. Ficou viúva ainda jovem, após quase 30 anos de casamento. Passou a viver com os pais e ter sua vida controlada, não mais pelo marido, mas pelos pais e por seus 6 filhos.

Fico imaginando os sonhos que tinha; se conseguia viver um pouco através dos livros que lia; o quanto sua alma devia gritar, absolutamente presa naquele corpo, numa vida decidida por todos menos por ela mesma.

Por que resolvi falar da minha avó paterna hoje?

Quando eu era pequena e não se sabia ao certo com quem eu era parecida, eu me identifiquei ao olhar uma foto dela, em sua infância, com uma idade próxima à minha; eu a vi e disse que era eu. Apesar das mudanças que ocorrem ao longo da vida e de eu ter semelhanças com o lado materno, continuei muito parecida à minha avó. E não apenas fisicamente; também no jeito de ser, na ingenuidade, na forma de calar a voz interior e dar ouvidos, de forma excessiva, às opiniões e palpites dos outros, nos sonhos que ficarão guardados por toda a vida.

 

Vovó Lurdinha

Vovó Lurdinha

 

É claro que não fui criada em colégio de freiras, nem dei vazão a qualquer dom artístico (que acredito que não tenha). Cheguei a fazer 7 anos de piano. Aprendi a pintar tecidos e tive algumas bases de croché, tricô, bordado, costura e cozinha… mas nunca me identifiquei de fato com nenhum deles.

Também é certo que vivo em um mundo muito mais aberto, em que a mulher tem um pouco mais de voz na sociedade. Eu pude estudar, exercer minha profissão, ser responsável pela minha vida e tive a liberdade (muito sofrida) de optar pelo divórcio quando o casamento não me fazia feliz.

Mas a ingenuidade e a credulidade herdadas da minha avó trazem enorme sofrimento. Creio que mais hoje em dia do que ela devia sofrer naquela época. Vivemos na época da mentira, da enganação, do egoísmo e há mais formas de colocar em prática ideias más do que havia naquela época. A internet nos expõe excessivamente muitas vezes, mas também consegue manter o anonimato para quem sabe fazer tudo com muito cuidado. Há um mundo de maldade crescente sendo construído em todas as mídias sociais, na Internet, celular e o que mais houver.

Eu sempre tentei manter alguma confiança no ser humano. Porque sei que, caso essa confiança desapareça completamente, perderei a vontade de viver, por ver que a existência humana está definitivamente perdida. Não acho que tenha chegado a esse limite, mas estou bem próximo dele.

As mentiras e a maldade sempre existiram. Mas creio que elas vêm se propagando como uma epidemia fora de controle. Estou extremamente cansada. Tenho que perceber que ainda há sinceridade e sentimento de compaixão e amor verdadeiro no mundo.

Alguém será capaz de me mostrar?

– Sílvia Souza (18-06-2016)

Sonnenblume_02_KMJ

  Minha avó paterna nasceu em 1920 e morreu em 1975. Eu a conheci muito pouco, porque ela morreu no dia de aniversário de 2 anos da minha irmã e eu não tinha nem 4 anos. Foi uma morte súbita, daquela que a maioria das pessoas gostaria de ter. Ela era descendente de portugueses e […]



7.07.2016
Depression II de Marion Patrick

Depression II de Marion Patrick

 

Tenho uma amiga que tem depressão. Não é que ela seja triste. Não. Se você não a conhece e olha para ela, você até vai achar que ela é alegre. Ela sorri bastante, diverte-se com as outras pessoas; talvez você possa notar algo no olhar… às vezes… se prestar atenção. Mas quase ninguém presta atenção no outro de verdade, não é?

A depressão não é tristeza. Nem infelicidade. É uma dificuldade de lidar com a vida, com os problemas, com o mundo.

Minha amiga demora para sair da cama. Não é preguiça. Nem sono. Ela diz que faltam coragem e força para começar a batalha de mais um dia. Quando finalmente ela se levanta, ela fica quieta por muito tempo, preparando seu café da manhã com calma. Toma um café bem forte para ajudar a dar energia e, em seguida, toma seu remédio. Ela detesta tomar remédios, mas não deixou de tomar o antidepressivo um único dia. Ela tem medo de esquecer. Tem medo que sua força de viver acabe se perdendo junto com o remédio esquecido.

Ela me contou que faz as coisas por obrigação. Ainda bem que ela tem um enorme senso de responsabilidade. Ela se arruma para trabalhar, escolhe uma roupa bonita, sapatos, bijuteria, perfume. Não quer que ninguém note que ela não tem a menor vontade de se arrumar, de se enfeitar. Tem vergonha de admitir que existem dias em que ela não gostaria de sair da cama, nem mesmo para tomar um banho. Ela se obriga. Porque tem medo de um dia ceder a essa preguiça e nunca mais conseguir criar a coragem necessária para enfrentar a vida.

Ela trabalha, ganha seu dinheiro, faz ginástica. Tudo porque se obriga. Mas o que ela realmente gosta é de ficar na cama, dormindo, lendo ou vendo TV. Ela costumava gostar de fazer compras, de sair, ver pessoas, ir ao cinema, almoçar em um bom restaurante. Mas quando a depressão piora, ela não tem prazer em nenhuma dessas coisas; é como se ela vivesse em um mundo particular desprovido de motivação, de excitação, de prazer.

Eu fico atenta a ela. Sabe como eu sei quando ela está pior e mais precisando de mim? Quando ela some. Ela deixa de responder minhas mensagens. Nunca encontra tempo para conversar. Diz que está sempre ocupada. Não quer falar ao telefone. Geralmente nem atende ao telefone.

Se eu não a conhecesse tão bem, talvez eu me ofendesse com esses distanciamentos, com o certo desprezo com que ela me trata. Mas eu sei que não é por mal. Sei que é o momento em que mais ela quer um colo, um abraço amigo, amparo, carinho e um ombro para se apoiar.

Converso. Escuto. Dou um chacoalhão quando acho necessário. Sei que ela precisa de mim.

Tenho medo por ela. Porque a depressão faz com que a pessoa perca a perspectiva de um futuro melhor; tudo parece sem saída. E sei que pode haver um momento em que esse sentimento pode se intensificar e ela resolva acabar com tudo. Eu sei que os problemas não duram a eternidade. Assim como as tempestades são passageiras, as dificuldades também passam e voltamos a ver o sol até a próxima tempestade chegar. O que falta para ela é a proteção quando a tempestade vem. Ela fica desabrigada, em meio a relâmpagos e trovões. E isso assusta qualquer um. O abrigo que a maioria das pessoas é capaz de criar, ela não consegue. Nesses momentos ela precisa de mim.

Porque eu preciso dela em tantos outros momentos. Ela é uma pessoa maravilhosa. A depressão não faz com que ela seja menos especial. Apenas faz com que ela seja mais vulnerável às intempéries.

E, nesses momentos, tentarei estar sempre por perto.

– Sílvia Souza

Sonnenblume_02_KMJ

 

  Tenho uma amiga que tem depressão. Não é que ela seja triste. Não. Se você não a conhece e olha para ela, você até vai achar que ela é alegre. Ela sorri bastante, diverte-se com as outras pessoas; talvez você possa notar algo no olhar… às vezes… se prestar atenção. Mas quase ninguém presta […]






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