25.02.2016
"Man on a bench" de Vincent Van Gogh (1886)

“Man on a bench” de Vincent Van Gogh (1886)

 

Há um homem sentado no banco da praça lendo um jornal. Ele é velho e está sozinho. Procura por nomes de conhecidos no Obituário. Tem um semblante cansado, olhos tristes, como se aguardasse o momento de ver o próprio nome naquela página do jornal. As filhas tinham seguido suas vidas e raramente as via. A esposa partira havia muito tempo; não sabia se estava viva ou morta (na verdade sabia, mas não lhe interessava).

Abaixa o jornal e olha para o vazio. O que vê é sua história sendo apresentada como um filme. Ele passou pela vida em alta velocidade. Não se permitia parar para olhar as belezas. E achava que não era mais capaz de admirá-las, como se seus olhos não pudessem mais enxergar, seus ouvidos não pudessem escutar… tudo lhe parecia superficial e passageiro.

Desperta do transe em que se encontrava ao perceber alguém ao seu lado, alguém que acabou de se sentar no banco. Olha para o lado e a vê. É ela! Mas ela morreu há tantos anos. Soube pelo Obituário. Um câncer devastador a levou. E ele não pôde dizer adeus, nem que sempre se importou, nem que ela tinha sido a mulher que amou desde o minuto em que a conheceu. E, de repente, ela está ali, ao seu lado, e ele podia lhe dizer tudo, antes que fosse tarde demais. Passou anos achando que o “tarde demais” já tinha acontecido.

Olha para ela, profundamente em seus olhos. Ela sorri; o sorriso que sempre lhe trouxe paz e tranquilidade. Ele começa a falar, mas ela cala sua boca com seu dedo indicador, pedindo-lhe em silêncio que não desperdice momentos preciosos com palavras inúteis.

Ela se senta bem perto dele e repousa sua cabeça em seu ombro. Ele segura sua mão pequena e a aperta em um desespero de realidade. Consegue sentir seu perfume de rosas e ouvir sua voz que lhe chega num sussurro: eu lhe perdoo. Uma frase apenas que dizia que ela sabia o quanto ele sofreu a vida toda, tanto ou mais do que ela, simplesmente porque não pôde ser honesto sobre seus desejos e sentimentos; ele seguiu representando seu papel, tornando-se amargo e triste, incapaz de tolerar a felicidade alheia ou as belezas do mundo.

Ele escuta um novo sussurro: não se puna mais… liberte-se…

Ele vira a cabeça levemente, beija-lhe a testa, aperta sua mão com força e olha o parque à sua frente, as árvores, as flores, os pássaros. Percebe que o céu está de um azul intenso, há flores de todas as cores, árvores carregadas de frutas que exalam seu cheiro doce. Ele nunca notou a beleza daquela praça. Um beija-flor para em seu voo bem na altura dos seus olhos. Ele sorri.

O jornal cai das suas mãos e as pessoas que passam notam que sua cabeça tombou inerte no encosto do banco. Alguns se aproximam e tentam chamá-lo, sem sucesso. Sentem o pulso, que já não pulsa.

Sua alma não habita mais seu corpo. Mas o sorriso não desapareceu mais de seu semblante.

– Sílvia Souza

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  Há um homem sentado no banco da praça lendo um jornal. Ele é velho e está sozinho. Procura por nomes de conhecidos no Obituário. Tem um semblante cansado, olhos tristes, como se aguardasse o momento de ver o próprio nome naquela página do jornal. As filhas tinham seguido suas vidas e raramente as via. […]


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