24.06.2016

Rose

 

Ele estava ali. Olhava para todos os lados. Analisava, pensava e decidia. Ele a viu sozinha, isolada de todas as outras flores do jardim. Era bonita, delicada e solitária.

Aproximou-se e arriscou um contato. Fez um elogio, mas não qualquer elogio. Declamou um poema de amor dizendo que era aquilo que buscava. Ela não conseguiu ficar indiferente à melodia da sua voz e à beleza daquelas palavras. Olhou para ele e afrouxou um pouco seus espinhos, como quem despe uma armadura.

Ele sentiu que podia se achegar. Sem movimentos bruscos, declamando outras poesias de amor, as mais bonitas que conhecia, tentava alcançar o perfume raro que ela exalava. Já podia observar a delicadeza de suas pétalas, mesmo que ainda não se atrevesse a tocá-las.

Arriscou dizer que estava apaixonado por sua beleza. Ela, naquela solidão, desabrochou um pouco mais e expôs todos os tons suaves do rosa que a compunha. Ele se encantou com a raridade daquelas cores e com a facilidade com que ela desabrochava, pelo simples fato de escutar elogios e declarações de amor. Não estava ela já acostumada a escutar palavras de amor?

Não. Havia aqueles que tentavam se aproximar com grosserias e ela se fechava totalmente. Outros faziam elogios comuns, que não estavam à altura de sua beleza. Ela, ali isolada naquela solidão, única com aquelas cores e aquele encanto, nobre e rara, sonhava em escutar poemas de amor, em despertar um amor intenso e instantâneo e encontrar aquele que reconhecesse que não poderia viver sem sua beleza, seu perfume e seu encanto. Ela não se achava especial. Não. Ela apenas acreditava que chegaria aquele ser único, aquele que os poemas de amor juravam haver para cada um e nos quais ela acreditava com todas as forças.

Ele percebeu a fragilidade daquele coração e, encantado com sua inocência, disse que a amava como nunca tinha amado outra flor. Perguntou se poderia tocar uma de suas pétalas. Ela lhe permitiu porque tinha necessidade de carinho. Ele acariciou a maciez daquela superfície e pediu a permissão de guardar uma lembrança dela consigo.

Apesar da dor que sentiria, ela permitiu que ele arrancasse uma de suas pétalas… e ele retirou a mais bela dentre elas. Mas não se contentou com apenas uma. Foi arrancando cada uma delas sucessivamente, apesar do choro silencioso e resignado da bela rosa. Ela achava que tudo era parte da entrega por amor.

Depois de todas as pétalas arrancadas, da rosa desfeita, do perfume dissipando-se ao vento, ele partiu em sua busca pela próxima flor solitária daquele ou de outros jardins.

– Sílvia Souza

Rosa

 

  Ele estava ali. Olhava para todos os lados. Analisava, pensava e decidia. Ele a viu sozinha, isolada de todas as outras flores do jardim. Era bonita, delicada e solitária. Aproximou-se e arriscou um contato. Fez um elogio, mas não qualquer elogio. Declamou um poema de amor dizendo que era aquilo que buscava. Ela não […]



28.05.2016

“Baby” de Gustav Klimt (1918)

 

Em quase todas as madrugadas, ela acordava chorando. Punha-se de pé, apoiada nas barras, e tentava chamar a atenção de alguém com seu pranto angustiado. Tinha medo da escuridão. Seu soluço ia crescendo pouco a pouco, ao perceber que estava sozinha e que ninguém viria em seu socorro. O choro se transformava em gritos desesperados que faziam com que ela perdesse o fôlego e engasgasse com as lágrimas.

Ninguém sabe ao certo quais são os pesadelos que assombram uma criança; em especial uma criança que ainda não sabe falar e se expressar.

Talvez fosse uma amplificação do abandono ao qual ficava entregue durante os dias, enquanto seus pais trabalhavam e ela era colocada quieta em um canto, até que o serviço de casa fosse feito pela empregada.

Ou quem sabe voltassem, no meio da noite, os gritos de irritação da moça (que supostamente deveria cuidar dela) nos momentos em que a menina pedia atenção ou chorava de dor ou de fome.

Podia ser o medo das ameaças violentas; o pavor das refeições, quando a comida era enfiada pela sua boca com impaciência; o pânico das trocas de fraldas, quando mãos ríspidas e agressivas apertavam suas pequenas perninhas e limpavam com raiva suas partes íntimas ainda inocentes.

Ela tinha medo de ficar sozinha e tinha medo de ter alguém ao seu lado. Temia fazer qualquer coisa que pudesse desencadear alguma resposta violenta e hostil.

A única coisa que a alegrava eram os poucos momentos em que escutava as músicas dos disquinhos coloridos que giravam na vitrola, em uma mágica que a hipnotizava.

No restante do tempo, ela tinha medo. Sempre aquele terror que fazia com que seu pequeno coraçãozinho acelerasse sem motivo e com que ela procurasse sempre agradar, num desespero de receber um abraço e um carinho.

E, nas longas noites, ela acordava. Sufocada. Quase sem conseguir respirar. Angustiada. Desesperada com os pesadelos que ela jamais conseguiria contar para ninguém. Sonhos que não permaneceriam na lembrança, mas cujas sensações jamais seriam esquecidas.

Em algumas noites, era assim: um choro desesperado para ninguém. Ela se punha de pé no berço, presa pelas grades à prova de acidentes. Mas o acidente estava ali, preso com ela dentro das grades. Era a solidão dos soluços sem resposta, da escuridão assustadora que a assombrava com suas sombras indefinidas e desconhecidas.

Ela apenas queria ser retirada de lá, abraçada, acalentada. Queria que alguém a pegasse no colo, para que ela pudesse escutar o som cadenciado e calmante de um batimento cardíaco.

Mas, em algumas noites, não havia resposta. Ela se percebia só, abandonada, desesperada, engasgando com as próprias lágrimas, até que a exaustão chegasse e ela, finalmente, conseguisse adormecer de novo, talvez embalada pelo toque do anjo protetor dos inocentes.

– Sílvia Souza

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  Em quase todas as madrugadas, ela acordava chorando. Punha-se de pé, apoiada nas barras, e tentava chamar a atenção de alguém com seu pranto angustiado. Tinha medo da escuridão. Seu soluço ia crescendo pouco a pouco, ao perceber que estava sozinha e que ninguém viria em seu socorro. O choro se transformava em gritos […]



27.05.2016
Contempt de Joe Vandello

Contempt de Joe Vandello

 

Sou uma grande admiradora da filosofia e dos ensinamentos de Buda. E um dos principais pontos do budismo é o Carma ou a Lei de Causa e Efeito. Ela nos diz que toda ação gera uma energia semelhante que irá retornar a nós mesmos… colhemos o que plantamos. Quando optamos por atitudes positivas em relação a outras pessoas, nosso carma também ficará carregado de energias positivas. E não são apenas as ações que contam, mas também as motivações que levaram a que se tomasse uma determinada atitude.

Acredito no carma. Independente da existência de outras vidas ou não. Mas já comprovei que quando faço algo bom por alguém, sinto-me bem e parece que minha alma ganha um brilho, uma energia boa que acaba contagiando outras pessoas. E procuro manter as boas ações e fazer aos outros o que eu gostaria que fosse feito comigo; esse é um dos principais preceitos da minha vida.

Mas, obviamente, não sou perfeita. Cometo inúmeras falhas sem nem mesmo me dar conta. Procuro melhorar a cada dia que passa, buscando deixar um mundo melhor do que encontrei, mas também fico cansada, irritada, perco a paciência, entristeço-me… são reações humanas.

Das minhas inúmeras falhas, tento evitar, em especial, o desprezo. Acho que tento tomar tanto cuidado para não desprezar os outros justamente porque ser desprezada é uma das coisas que mais me causa sofrimento. E quando isso acontece, fico sempre me perguntando onde errei, o que causei de mal ou o que posso ter feito para ter merecido semelhante coisa. E sei que falho.

Não serão todas as pessoas que irão gostar de mim. Devo despertar sentimentos diversos, dependendo se me conhecem mais ou menos ou quando as energias simplesmente não se harmonizam. Se alguém chegar na minha cara e me disser que não gosta de mim, vou ficar chateada; mas saberei entender que é algo absolutamente normal. Mas mesmo o fato de não gostar de alguém justifica (no meu ponto de vista) que se despreze o outro. Tratar com desdém ou indiferença, ignorar um cumprimento, um pedido ou qualquer coisa é algo que acho imperdoável… (e continuo achando imperdoável mesmo que tenha partido de mim).

Se alguém envia uma mensagem, espera-se uma resposta. Se um compromisso é marcado, o mínimo que se deve fazer é avisar, caso não se possa comparecer. Um cumprimento merece uma retribuição. O mesmo acontece com um ato de carinho, uma gentileza, um favor. Não custa muito. E traz muito mais coisas boas do que ignorar o outro.

Não há coisa que me magoa mais do que alguém marcar algo comigo e não aparecer, sem nem mesmo dar notícias; um e-mail que nunca seja respondido; uma mensagem totalmente desconsiderada. Porque além de fazer com que eu me sinta muito triste, ainda tenho meu lado preocupado, aquele que se importa com o outro, que fica se perguntando se aconteceu alguma coisa, se está tudo bem. E não é justo que se faça isso. Ninguém merece ser tratado assim.

Mas continuarei procurando fazer o meu melhor, tentando deixar meu carma mais positivo e, quem sabe, acabar deixando uma energia melhor a quem convive comigo.

– Sílvia Souza

Sonnenblume_02_KMJ

  Sou uma grande admiradora da filosofia e dos ensinamentos de Buda. E um dos principais pontos do budismo é o Carma ou a Lei de Causa e Efeito. Ela nos diz que toda ação gera uma energia semelhante que irá retornar a nós mesmos… colhemos o que plantamos. Quando optamos por atitudes positivas em […]






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