25.04.2016

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Primeira publicação: 1964

Editora: Cosac & Naify (2004 – 4a. edição)

ISBN13: 9788575033357

Sinopse: Em 1944, mais de 20 mil brasileiros foram convocados pelo governo Vargas para lutar ao lado dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Entre os escolhidos estava Boris Schnaiderman, o grande intérprete da literatura russa no Brasil, que realiza, a partir desta experiência como “pracinha” na campanha italiana, uma tradução de outra ordem. Em seu único livro de ficção, Schnaiderman constrói a trajetória dos combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB), desde a convocação repentina até a volta para o Brasil. O percurso é trabalhado a partir de perspectivas individuais frente às catástrofes da guerra, compondo uma prosa em surdina e intimista, ainda que em múltiplas vozes.

 

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Boris Schnaiderman é um tradutor e escritor brasileiro. Ele nasceu em Uman, na Ucrânia, em 1917 (ano da Revolução Russa). Em seguida, seus pais mudaram-se para Odessa e vieram para o Brasil quando Boris tinha 8 anos. Ele foi o primeiro professor de literatura russa na Universidade de São Paulo, a partir de 1960, apesar de ser formado em agronomia. Ele traduziu grandes escritores e poetas russos: Dostoiévski, Tolstói, Chekhov, Gorky, Babel, Pasternak, Pushkin e Mayakovsky. Ele naturalizou-se brasileiro em 1941 e lutou na Segunda Guerra com a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que o inspirou a escrever o romance “Guerra em Surdina”. Na época da Ditadura Militar, ele foi preso enquanto dava aulas, devido ao seu posicionamento contra a repressão e por possuir um passaporte soviético. Em 2003, ele recebeu o Prêmio de Tradução, oferecido pela Academia Brasileira de Letras. Ele foi o primeiro a traduzir os clássicos russos para o português diretamente do idioma original. É considerado um dos maiores especialistas na cultura russa no Brasil e um dos principais tradutores.

Eu não sabia da existência desse livro até que minha amiga Márcia, sabendo do meu interesse na Segunda Guerra, sugeriu a leitura simultânea para que conhecêssemos alguma coisa sobre a campanha brasileira junto aos Aliados.

A Márcia não gostou muito da leitura. Pelo que ela me contou, imaginou que seria uma autobiografia sobre as vivências do autor na Itália. E não é o caso.

Ele transformou as próprias vivências em um romance, onde surgem vários personagens, geralmente soldados, que foram convocados para a Guerra. Há um aspecto que torna a leitura bastante confusa: cada capítulo tem um narrador diferente e nem sempre fica clara a mudança ou quem está narrando ou qual a perspectiva que ele pretende dar à narrativa. E, talvez até por ter narradores diferentes, o estilo da escrita muda muito a cada capítulo.

Excluindo-se esse aspecto, eu gostei bastante da história. Ele conta sobre a convocação súbita dos soldados, sem preparo ou treinamento, sendo patrocinados pelo governo dos Estados Unidos. Esses soldados dirigem-se para a Europa, para combater governos fascistas e ditatoriais, sendo que o Brasil vivia a ditadura da era Vargas.

Ia-se lutar pela democracia, mas, para efetivá-lo, sair-se-ia de um país submetido à ditadura. Falava-se em aliados, mas o que os homens do povo viam era o soldado estrangeiro pisando o território da sua pátria, numa condição quase de ocupante, fazendo ressaltar a fartura da sua terra ante a miséria do país ocupado.

Nenhuma programação era passada aos soldados. Eles não sabiam para onde iam, nem quando iriam combater. Passaram um tempo em treinamento, sob as orientações do exército americano. Nessa fase, o autor descreve a destruição da Itália, a miséria da população, a mendicância por alimentos enlatados que os soldados recebiam. É deprimente a sociedade degradada, que perde todo seu orgulho e decência.

Sou apenas um homem em face da montanha. Fui me despojando de outros atributos, simplificando-me ao extremo, até ficar reduzido a esta condição. As formalidades e injustiças da vida militar; a promiscuidade do navio-transporte, com suas filas, seus catres com gente vomitando, com as latrinas em que os homens se sentavam frente a frente; as impressões de guerra e de miséria, a prostituição e a mendicância exercidas em profusão; os extremos de degradação tornando-se fato normal e cotidiano; tudo isso me reduziu a mero espectador, mecânico e passivo, cuja vida se limita a calcular tiros que serão enviados contra a montanha.

Os soldados, em sua maioria pessoas de origem humilde no Brasil, passam a enfrentar o inverno italiano, a neve e o frio, sem roupas apropriadas. Vão sendo expostos a situações extremas, ao confronto com a morte, os tiros, as emboscadas, sem que nem mesmo entendam o motivo daquela guerra.

O capitão sente um asco invencível por toda aquela podridão. Os olhos se acostumam, os ouvidos também, mas alguma coisa sempre fica a protestar no íntimo, a reclamar, a dizer que a vida não pode ser vilipendiada com tanta naturalidade, com tamanha despreocupação.

Quando voltam ao Brasil, saudados como heróis, o que as pessoas mais perguntam é se eles mataram muitos alemães. E o autor nos choca com o absurdo dessa colocação, onde se questiona quantas vidas humanas foram retiradas; afinal, os soldados alemães eram homens miseráveis e famintos naquele final de guerra, uma guerra que a eles também passou a ser absurda.

As mocinhas da sacada de uma das casas puxam conversa.

– Você matou muito alemão?

Como se matar gente fosse um esporte muito interessante!

E, no Brasil, aqueles que lutaram custaram a receber o salário do período e foram descontados por cada pequena coisa que foi perdida ou deteriorada durante a guerra. Muitos não conseguiam voltar para casa por falta de dinheiro. Os heróis de guerra foram rapidamente esquecidos e tiveram que enfrentar a dura realidade do retorno à rotina, da perda de namoradas e noivas (que não esperaram pelo retorno) e da falta de objetivo e de ajuda do governo brasileiro.

– Sílvia Souza

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  Primeira publicação: 1964 Editora: Cosac & Naify (2004 – 4a. edição) ISBN13: 9788575033357 Sinopse: Em 1944, mais de 20 mil brasileiros foram convocados pelo governo Vargas para lutar ao lado dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Entre os escolhidos estava Boris Schnaiderman, o grande intérprete da literatura russa no Brasil, que realiza, a partir desta experiência como “pracinha” […]



24.04.2016

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Fico sempre receosa de comprar um livro que seja um best seller. Tenho opiniões e gostos que destoam daqueles da maioria das pessoas e, geralmente, mesmo que um best seller possa me entreter, não é o tipo de leitura que eu mais aprecio. Em sua maioria, são leituras leves, fáceis, escritas para fazer sucesso e não para acrescentar algo de valor para o mundo literário. Será que estou sendo muito dura? Provavelmente. Sei que muitas vezes tenho uma visão rígida e um pouco preconceituosa quando se trata de avaliar uma obra literária; desprezo um pouco (ou muito) os livros extremamente comerciais.

Mas esse livro me provocou com seu título envolvendo uma paixão por livros e com seu tema envolvendo a Segunda Guerra, em especial com uma visão de alguém que viveu a Guerra do lado alemão. Acabei me interessando ainda mais pelo fato dos pais do autor terem vivenciado a Guerra. Então, mesmo ele sendo australiano e nascido em 1975, imaginei que ele tenha escutado vários relatos reais da Guerra. Acabei cedendo e comprando esse livro. E confesso que foi uma das melhores surpresas literárias da minha vida.

A leitura ocorreu em Setembro de 2012, antes que eu soubesse que haveria um filme sobre a história do livro. O livro é lindo, com a história da Guerra muito presente, com todo seu sofrimento, a fome, os bombardeios, o massacre dos judeus e, em meio a tudo isso, a história da pequena Liesel, contada pela própria Morte. Uma menina que ficou órfã e passou a ser criada por uma família desconhecida. Seu maior desejo era aprender a ler e ela tomava para si livros que tivessem sido perdidos, esquecidos ou que encontrasse abandonados.

O livro consegue reunir tantos aspectos diferentes e trata tudo com tanta sensibilidade que é impossível não se apaixonar pela menina e torcer por ela e pelas pessoas à sua volta em meio ao caos que a Alemanha vivia.

Gostei quando o filme estreou em 2013. Mas desde o início, imaginei que o filme não me agradaria tanto quanto o livro. E não errei. O filme tentou ser fiel ao filme na medida do possível. Mas os desfechos não foram respeitados e houve mudanças essenciais em relação à história contada no livro. Eu entendo que a indústria do cinema goste de amenizar algumas histórias relatadas, fazendo com que elas se tornem mais palatáveis. Mas as guerras não são facilmente digeridas… elas fazem sofrer, angustiam, incomodam cada célula do nosso corpo. E deveriam ser retratadas dessa forma, para mostrar os horrores que os homens são capazes de fazer uns com os outros.

Então, por mais que o filme seja bonitinho e bem feito, não chega aos pés do livro. E quem tiver a chance, deveria ler essa obra.

 

 

– Sílvia Souza

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  Fico sempre receosa de comprar um livro que seja um best seller. Tenho opiniões e gostos que destoam daqueles da maioria das pessoas e, geralmente, mesmo que um best seller possa me entreter, não é o tipo de leitura que eu mais aprecio. Em sua maioria, são leituras leves, fáceis, escritas para fazer sucesso […]



17.04.2016

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Eu tenho minha fixação particular por tudo o que envolve a Segunda Guerra. Costumo assistir a todos os filmes que saem a respeito.

O filme “Desejo e Reparação” (“Atonement” de 2007) não foi diferente. E ainda tinha o grande atrativo de incluir atores de que gosto muito: James McAvoy e Keira Knightley

 

 

O filme é absolutamente arrebatador. Mostra uma história de amor praticamente impossível, interrompida pela guerra e pelas mentiras da irmã mais nova (papel da jovem Saoirse Ronan). Não é uma história feliz e deixa-nos um pouco inconformados com todos os percalços pelos quais eles passam; as dificuldades, sofrimentos, superações. Posso afirmar que foi um dos filmes mais tocantes a que assisti.

A leitura da obra foi posterior. Aconteceu quando eu participava de um Clube de Leitura, cerca de 4 anos após o filme. Na verdade, eu nem mesmo sabia que havia um livro que tivesse dado origem ao filme.

Embora o livro seja tão emocionante quanto o filme, atrevo-me a dizer que esse é um dos raros casos em que gostei mais da adaptação para as telas do que da história contada no texto. O filme foi bastante fiel à história e os atores deram vida e emoção reais aos personagens.

Mas talvez a parte que mais incomode na leitura seja o sucesso que a pequena Briony Tallis (a irmã caçula) alcança enquanto escritora e certa redenção e o perdão que ela parece oferecer a si mesma pelos erros do passado. Ela é a narradora da história e está a caminho de receber um prêmio literário. Além disso, evolui, no fim dos seus dias, com um quadro demencial que está fazendo com que se esqueça das coisas. Mas antes do total esquecimento, resolve contar a história de amor que a irmã viveu e que ela atrapalhou com várias mentiras por causa de erros de percepção de quando era jovem. E narra a história quase como um pedido de desculpas, um desejo profundo de se libertar da culpa que a perseguiu por toda a vida.

O livro é também uma obra maravilhosa. Mas o filme é absolutamente extasiante e imperdível.

A quem puder, recomendo os dois.

– Sílvia Souza

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  Eu tenho minha fixação particular por tudo o que envolve a Segunda Guerra. Costumo assistir a todos os filmes que saem a respeito. O filme “Desejo e Reparação” (“Atonement” de 2007) não foi diferente. E ainda tinha o grande atrativo de incluir atores de que gosto muito: James McAvoy e Keira Knightley.      O filme é […]






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