25.03.2016
Guimarães, Portugal

Guimarães, Portugal

 

Se nada houvesse para além da morte,

Nada, e o que o espírito é pronto a querer

O que a imaginação em vão procura

Não fosse nada… E só um vácuo inteiro

No mundo, o enorme mundo perceptível,

Não fosse, nem o azulado das ondas

Nem a antecâmara da Realidade

Não outra coisa que o oco dele próprio,

E vazio do ser implodindo

Éter da ininteligibilidade

Onde o erro da razão sobre montes e vagas

Sem nexo em existir sem leis flutua.

 

Quem sabe se o supremo e ermo mistério

Do universo não é ele existir

Com inteireza tal em existir

Que não tenha sentido nem razão

Nem mesmo uma existência, de tão única,

Concebível… Meu espírito, corrompe-se

Ao místico furor do pensamento..

De horror sem dor

 

Se o mundo inteiro, — abismo sem começo,

Poço sem paredes, negro absurdo

Aberto noutro absurdo ainda mais negro —

Não tem possível interpretação

Nem intertemporalidade num futuro

Da razão, ou da alma, ou do universo

Ele-próprio.

Ah o ocaso sobre os montes

Com que réstia de luz nos faz de longe

O gesto lento de nos abençoar…

E nem sombra, nem mesmo definida

Tristeza dói…

 

Ó sempre mesma dor do pensamento.

Álvaro de Campos – Livro de Versos . Fernando Pessoa.

  Se nada houvesse para além da morte, Nada, e o que o espírito é pronto a querer O que a imaginação em vão procura Não fosse nada… E só um vácuo inteiro No mundo, o enorme mundo perceptível, Não fosse, nem o azulado das ondas Nem a antecâmara da Realidade Não outra coisa que […]


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24.03.2016
Évora, Portugal

Évora, Portugal

 

Não, não é cansaço…

É uma quantidade de desilusão

Que se me entranha na espécie de pensar,

É um domingo às avessas

Do sentimento,

Um feriado passado no abismo…

 

Não, cansaço não é…

É eu estar existindo

E também o mundo,

Com tudo aquilo que contém,

Com tudo aquilo que nele se desdobra

E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

 

Não. Cansaço porquê?

É uma sensação abstracta

Da vida concreta —

Qualquer coisa como um grito

Por dar,

Qualquer coisa como uma angústia

Por sofrer,

Ou por sofrer completamente,

Ou por sofrer como…

Sim, ou por sofrer como…

Isso mesmo, como…

 

Como quê?…

Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

 

(Ai, cegos que cantam na rua,

Que formidável realejo

Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

 

Porque oiço, vejo.

Confesso: é cansaço!…

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa.

  Não, não é cansaço… É uma quantidade de desilusão Que se me entranha na espécie de pensar, É um domingo às avessas Do sentimento, Um feriado passado no abismo…   Não, cansaço não é… É eu estar existindo E também o mundo, Com tudo aquilo que contém, Com tudo aquilo que nele se desdobra […]



22.03.2016
Miradouro de São Leonardo de Galafura – Vista Panorâmica

Miradouro de São Leonardo de Galafura – Vista Panorâmica

 

Não! Só quero a liberdade!

Amor, glória, dinheiro são prisões.

Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles?

Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo.

Quero respirar o ar sozinho,

Não tenho pulsações em conjunto,

Não sinto em sociedade por quotas,

Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim.

 

Onde quero dormir? No quintal…

Nada de paredes — ser o grande entendimento —

Eu e o universo,

E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fatos

Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos,

O grande abismo infinito para cima

A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é a minha cara,

Onde só os olhos — outro céu — revelam o grande ser subjectivo.

 

Não quero! Deem-me a liberdade!

Quero ser igual a mim mesmo.

Não me capem com ideais!

Não me vistam as camisas-de-forças das maneiras!

Não me façam elogiável ou inteligível!

Não me matem em vida!

 

Quero saber atirar com essa bola alta à lua

E ouvi-la cair no quintal do lado!

Quero ir deitar-me na relva, pensando “Amanhã vou buscá-la”…

Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado…

Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado…

” Amanhã vou buscá-la ao quintal”

Buscá-la ao quintal

Ao quintal

ao lado…

Álvaro de Campos – Livro de Versos . Fernando Pessoa. (11-08-1930)

  Não! Só quero a liberdade! Amor, glória, dinheiro são prisões. Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles? Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo. Quero respirar o ar sozinho, Não tenho pulsações em conjunto, Não sinto em sociedade por quotas, Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim.   […]






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