15.10.2016
"Russian Wedding" de Marc Chagall (1909)

“Russian Wedding” de Marc Chagall (1909)

 

Mais um conto lido em conjunto com a Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. Não deixem de ler a publicação dela, outra apaixonada por Clarice Lispector e que me convidou para participar desse projeto de leitura.

O segundo conto do livro (“Obsessão”) é um conto mais longo e que traz em si muito do que somos, de como agimos, de possibilidade de análise do ponto de vista psicológico e filosófico.

Apenas como um preâmbulo, nas minhas leituras sobre o processo de escrita, grandes escritores relatam que se baseiam em muitos aspectos autobiográficos para a criação das histórias e dos personagens. Entendo que no caso daqueles que criam personagens psicológica e emocionalmente complexos, como no caso de Clarice Lispector, precisa haver uma vivência pessoal ou de alguém conhecido ou algum estudo social para que se consiga retratar essas pessoas de forma tão viva, quase real. Sei que estou me estendendo neste aspecto. É que realmente eu me delicio com a complexidade desses seres irreais e, ao mesmo tempo, tão cheios de humanidade como ela era capaz de criar.

O presente conto tem pouco mais de 30 páginas e descreve uma história de vida com a qual tive uma identificação completa. E, acredito, muitas outras pessoas seriam capazes de sentir o mesmo.

A personagem que narra a história em primeira pessoa é Cristina. Ela é uma mulher que foi criada para seguir o destino feminino daquele início da década de 1940 (o conto foi escrito em Outubro de 1941): casar-se com um bom homem, que poderia lhe garantir o sustento, e não pensar muito nas possibilidades que a vida oferece. Ela se casa com Jaime e consegue seguir o roteiro programado por algum tempo.

Às vezes, melancolia sem causa escurecia-me o rosto, uma saudade morna e incompreensível de épocas nunca vividas me habitava.

Depois de uma doença (febre tifoide), as coisas mudaram um pouco e sua tristeza imensa no período de convalescença fez com que o marido optasse por enviá-la a uma pequena cidade onde ela poderia se recuperar. E, nessa localidade, onde estava sozinha, suas angústias e rebeldia contidas passaram a se manifestar. E a presença de Daniel, um homem com quem ela coabitava na pensão, facilitou esse encontro com ela mesma.

Ou engano-me e, na minha feliz cegueira, não sabia enxergar mais profundamente? Não sei, mas agora parece-me impossível que na zona escura de cada homem, mesmo dos pacíficos, não se aninhe a ameaça de outros homens, mais terríveis e dolorosos.

Ela não amava Daniel. Mas a forma como ele a tratava, com certo desprezo e rispidez, despertava o desejo por ele. Acabamos sempre desejando aquilo que não temos e que nos parece inalcançável.

 Mas naquele tempo… Temia-o? Sentia apenas que se ele surgisse a qualquer momento, um gesto seu faria com que o seguisse para sempre. Sonhava com esse instante, imaginava que, ao seu lado, libertar-me-ia dele. Amor? Desejava acompanhá-lo, para estar do lado mais forte, para que ele me poupasse, como quem se aninha nos braços do inimigo para estar longe de suas flechas. Era diferente de amor, descobria: eu o queria como quem tem sede e deseja a água, sem sentimentos, sem mesmo vontade de felicidade.

Ela se esforça por permanecer em sua pequena vida, com seu marido, mas Cristina já o tinha conquistado; ele já precisava dela… e seu desejo pelo marido já não existia mais.

O conto se baseia muito nesta questão: desejo, e a busca por aquilo que ainda não se tem. Seria bom se o ser humano pudesse simplesmente ser controlado pela razão, com a capacidade de calar as vozes que insistem em surgir das profundezas mais desconhecidas da alma.

É um conto absolutamente maravilhoso.

Para encerrar, um pouco mais de Clarice:

Quanto a mim, continuo.

Já agora sozinha. Para sempre sozinha.

 

  Mais um conto lido em conjunto com a Marcia Cogitare do Blog Surtos Literários. Não deixem de ler a publicação dela, outra apaixonada por Clarice Lispector e que me convidou para participar desse projeto de leitura. O segundo conto do livro (“Obsessão”) é um conto mais longo e que traz em si muito do […]



12.10.2016

“Connoisseurs of books (Knowledge is Power)” de Nikolay Bogdanov-Belsky

 

Não sei se pelo fato de ter sido uma criança tímida ou se por gosto mesmo, quando recordo da minha infância, vejo sempre a imagem dos livros que me acompanhavam nas férias e feriados. Quando tinha que pedir um presente para alguém, minhas sugestões eram livros.

Eu morava em uma cidade do interior, onde não havia livraria como temos hoje em dia. Não havia compras virtuais. Eu frequentava bibliotecas onde escolhia meus livros, emprestava de amigos e assinava uma revista do Clube do Livro, que me dava o direito de escolher um dos títulos da revista por mês. Não eram muitas opções diferentes. E eu me contentava com o que houvesse disponível, desde que eu tivesse uma história diferente na qual pudesse mergulhar.

Com meus 10 anos, descobri os livros da Agatha Christie, aos quais me viciei. Fui lendo todos eles ao longo da minha adolescência. E fui evoluindo nos meus gostos literários, de acordo com os momentos de vida, idade e interesses.

Quando meus filhos passaram a ler sozinho, seguiam as orientações da escola para as escolhas de livros. Mas chegou um momento em que percebi que eles estavam muito desinteressados das leituras indicadas. Muitas vezes, devolviam os livros da biblioteca da escola sem que tivessem lido.

Passei a observar que o problema principal eram as escolhas da escola, com livros que não eram capazes de envolvê-los na história narrada. Passei eu mesma a buscar alternativas. E tentei estratégias e tipos diferentes de livros, até que encontrasse o que pudesse desenvolver neles o gosto pela leitura.

Assinei gibis da Turma da Mônica. Foram infalíveis para estimular as primeiras leituras. As histórias curtas, com ilustrações e frases simples facilitavam bastante a compreensão e o treino inicial. Eles liam todos os gibis que eram lançados mensalmente.

Depois busquei histórias que contivessem ação, mas que fossem possíveis de serem lidas integralmente em pouco tempo. Na época em que meu filho mais velho chegava a essa fase, saiu uma série de livros do personagem Zac Power. Fui comprando na sequência e ele lia cada livro em 1 ou 2 horas.

Adotando essas estratégias, consegui com que fossem, pouco a pouco, aderindo à magia dos livros. Hoje em dia, eles sempre carregam um livro consigo, que eles mesmos escolhem de acordo com interesse, indicação de amigos, sugestão minha ou do pai, leitura de resenhas.

E, a meu pedido, fizeram uma lista dos livros de que mais gostaram até hoje.

Espero que, nesse Dia das Crianças, possamos não apenas presentear com brinquedos, mas tentar dar a eles outros conhecimentos, para que participem de outros mundos; mundos imaginados pelos escritores, mas que possam ser recriados mentalmente pelas crianças. Com isso, desenvolverão a criatividade, a linguagem, vocabulário, vivências, permitindo que se tornem pessoas melhores para construir um mundo com chance de futuro.

Segue a lista dos meus filhos:

– Sílvia Souza

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  Não sei se pelo fato de ter sido uma criança tímida ou se por gosto mesmo, quando recordo da minha infância, vejo sempre a imagem dos livros que me acompanhavam nas férias e feriados. Quando tinha que pedir um presente para alguém, minhas sugestões eram livros. Eu morava em uma cidade do interior, onde […]



11.10.2016

marc-chagall

    “Mermaid and Fish” de Marc Chagall

“Mermaid and Fish” de Marc Chagall






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