29.10.2016
"L'oiseau bleu" de Marc Chagall (1968)

“L’oiseau bleu” de Marc Chagall (1968)

 

Este é o sexto conto da subdivisão Primeiras Histórias, do livro Todos os Contos de Clarice Lispector, chamado A fuga. Este é um projeto criado pela Márcia Cogitare do Blog Surtos Literários e espero que leiam a resenha que ela escreveu sobre o mesmo conto, clicando aqui.

Este conto foi escrito em 1940. É uma história absolutamente maravilhosa sobre uma mulher casada há 12 anos, infeliz em seu casamento, que resolve em um determinado dia sair de casa.

Casamento não é algo fácil. Existem muitas piadas feitas por homens sobre a prisão que é o casamento… e eu acho que eles de fato acreditam que o casamento seja um conto de fadas maravilhoso para as mulheres. Talvez a própria indústria do casamento tenha ajudado a construir essa imagem; até hoje, muitas mulheres ainda sonham em fazer uma cerimônia dos sonhos, gastando uma fortuna que foi guardada ao longo de anos, com muito esforço, para compartilhar com muitas pessoas (a maioria sem nenhum relacionamento próximo) algumas horas em que a noiva parece fazer questão de mostrar aos outros que cumpriu seu papel e arrumou um companheiro para a vida.

E, após essa cerimônia suntuosa, começam os inúmeros problemas e dificuldades que acompanham a convivência de duas pessoas que tiveram criações diversas e guardam segredos inconfessos que irão, aos poucos, surgir no meio dessa convivência.

E isso tudo acontece ainda nos dias de hoje. O que era um casamento realizado na década de 1930 ou de 1940? A mulher era uma propriedade do homem; quase uma escrava, porque geralmente não ganhava o próprio dinheiro e não tinha como sonhar em viver seus próprios desejos, já que não teria como pagar para realizá-los.

E, nesse conto de beleza melancólica, Clarice Lispector nos coloca na pele dessa mulher que tenta viver, mas se angustia com a possibilidade de não conseguir arcar com a liberdade que deseja para si.

Agora que decidira ir embora tudo renascia. Se não estivesse tão confusa, gostaria infinitamente do que pensara ao cabo de duas horas: “Bem, as coisas ainda existem.” Sim, simplesmente extraordinária a descoberta. Há doze anos era casada e três horas de liberdade restituíam-na quase inteira a si mesma: – primeira coisa a fazer era ver se as coisas ainda existiam. Se representasse num palco essa mesma tragédia, se apalparia, beliscaria para saber-se desperta. (…)

Não havia, porém, somente alegria e alívio dentro dela. Também um pouco de medo e doze anos.

Mas a fuga de casa não trás apenas alívio. Até porque não é fácil se libertar de um passado de opressão.

Resolveu tentar de novo aquela brincadeira, agora que estava livre. Bastava olhar demoradamente para dentro d’água e pensar que aquele mundo não tinha fim. Era como se estivesse se afogando e nunca encontrasse o fundo do mar com os pés. Uma angústia pesada. Mas por que a procurava então?

Ela estava parada em um espaço público, embaixo da chuva, apenas sentindo a liberdade e tentando imaginar o que iria fazer dali em diante. Seu sonho era o de partir em um navio em busca de novas terras e uma nova vida.

Mas nesse momento a recordação do homem não a angustiava e, pelo contrário, trazia-lhe um sabor de liberdade há doze anos não sentido. Porque seu marido tinha uma propriedade singular: bastava sua presença para que os menores movimentos de seu pensamento ficassem tolhidos. A princípio, isso lhe trouxera certa tranquilidade, pois costumava cansar-se pensando em coisas inúteis, apesar de divertidas.

(…) Por que é que os maridos são o bom senso? O seu é particularmente sólido, bom e nunca erra. (…)

Ela ri. Agora pode rir… Eu comia caindo, dormia caindo, vivia caindo. Vou procurar um lugar onde pôr os pés…

(…) “Meu filho, eu era uma mulher casada e sou agora uma mulher.”

Como foi que aquilo aconteceu? A princípio apenas o mal-estar e o calor. Depois qualquer coisa dentro dela começou a crescer. De repente, em movimentos pesados, minuciosos, puxou a roupa do corpo, estraçalhou-a, rasgou-a em longas tiras. O ar fechava-se em torno dela, apertava-a. (…)

(…) Vestiu-se, juntou todo o dinheiro que havia em casa e foi embora.

Mas como eu disse, as mulheres eram quase escravas; prisioneiras de seus maridos, senhores e proprietários; elas eram desvalorizadas a ponto de, tempos atrás, os pais precisarem pagar dotes para que as mulheres pudessem se casar. Como seria bom se, desde aquela época, esse dinheiro pudesse ir direto para suas mãos, comprando-lhes a independência e a liberdade.

Mas ela não tem dinheiro suficiente para viajar. (…)

Oh, tudo isso é mentira. Qual a verdade? Doze anos pesam como quilos de chumbo e os dias se fecham em torno do corpo da gente e apertam cada vez mais. Volto para casa. Não posso ter raiva de mim, porque estou cansada.

O sofrimento acaba destruindo os sonhos e calando todas as vozes próprias. Para que insistir?

Fica de olhos abertos durante algum tempo. Depois enxuga as lágrimas com o lençol, fecha os olhos e ajeita-se na cama. Sente o luar cobri-la vagarosamente.

Dentro do silêncio da noite, o navio se afasta cada vez mais.

Um conto absolutamente (melancolicamente) lindo.

 

  Este é o sexto conto da subdivisão Primeiras Histórias, do livro Todos os Contos de Clarice Lispector, chamado A fuga. Este é um projeto criado pela Márcia Cogitare do Blog Surtos Literários e espero que leiam a resenha que ela escreveu sobre o mesmo conto, clicando aqui. Este conto foi escrito em 1940. É […]



26.10.2016
"The Deceased (The Death)" de Marc Chagall (1908)

“The Deceased (The Death)” de Marc Chagall (1908)

 

Quinto conto do Projeto Clarice Lispector, para o qual a Márcia Cogitare do Blog Surtos Literários me convidou. Leiam a publicação dela clicando aqui.

Este é o quinto conto da parte de “Primeiras Histórias” do livro “Todos os Contos” de Clarice Lispector. É um conto que foi escrito em 1940 chamado História interrompida.

Há muita coisa não dita neste conto. Os fatos não são colocados de forma clara e objetiva. Da mesma forma que os casais precisavam viver sua intimidade no completo segredo e nada podia ser verbalizado, o conto não coloca em palavras os assuntos proibidos.

A história é narrada em primeira pessoa e quem conta é a personagem feminina que namora um homem a quem ela chama de W… Ele é um homem “triste e alto”, cujo “maior defeito consistia na sua tendência para a destruição”.

Foi então que pensei aquela coisa terrível: “Ou eu o destruo ou ele me destruirá.”

Ela “estava inquieta” e precisava resolver seu “caso”. Ela pensou durante dois dias tentando encontrar uma forma de prendê-lo.

Tudo me parecia porém estéril. Ele era um homem difícil, distante, e o pior é que falava francamente de seus pontos fracos: por onde atacá-lo então, se ele se conhecia?

Depois de uma noite em claro, ela encontra a solução:

– W…, nós vamos casar.

Era a única saída naquela época para algo que pudesse ser vergonhoso e colocar em risco a honra da moça. Não interessava se era o futuro com o qual se sonhara. Não havia outra possibilidade.

Peguei numa folha de papel e enchi-a de alto a baixo: “Eternidade, Vida. Mundo. Deus. Eternidade. Vida. Mundo. Deus. Eternidade…” Essas palavras matavam o sentido de muitos de meus sentimentos e deixavam-me fria por umas semanas, tão minúscula eu me descobria.

(…)

A ideia de que eu estava sendo feliz me enchia tanto que eu precisava fazer alguma coisa, alguma bondade, para não ficar com remorsos. E se eu desse a golinha de renda a Mira? Sim, o que é uma golinha de renda, embora bonita, diante de… “Eternidade. Vida. Mundo… Amor”?

Mas há sempre uma saída. Existe sempre uma válvula de escape, um caminho alternativo, uma escolha não convencional. Algumas vezes, o futuro que está traçado sem que tenha sido escolhido não parece interessante. Algumas vezes, a escolha não convencional parece mais atrativa… pelo menos, pode-se dizer que foi uma decisão pessoal e não algo que tenha sido decidido por outras pessoas.

E repentinamente a história se partiu. Nem teve ao menos um fim suave. Terminou com a brusquidão e a falta de lógica de uma bofetada em pleno rosto.

Estou casada e tenho um filho. Não lhe dei o nome de W… E não costumo olhar para trás: tenho em mente ainda o castigo que Deus deu à mulher de Lot. E só escrevi “isso” para ver se conseguia achar uma resposta a perguntas que me torturam, de quando em quando, perturbando minha paz: que sentido teve a passagem de W… pelo mundo? que sentido teve a minha dor? qual o fio que esses fatos a… “Eternidade. Vida. Mundo. Deus.”?

 

 

  Quinto conto do Projeto Clarice Lispector, para o qual a Márcia Cogitare do Blog Surtos Literários me convidou. Leiam a publicação dela clicando aqui. Este é o quinto conto da parte de “Primeiras Histórias” do livro “Todos os Contos” de Clarice Lispector. É um conto que foi escrito em 1940 chamado História interrompida. Há […]



23.10.2016

nunca-te-vi

 

Título original: 84, Charing Cross Road

Primeira publicação: 1970

Tradutor: Raymundo de Araújo

Editora: Casa-Maria Editorial (1988) – 253 páginas

ISBN: 8585208015

Sinopse: Correspondência entre a autora americana, em Nova York, e o gerente de uma loja de livros raros/usados na Inglaterra, em Londres, durante vários anos. Uma viagem sentimental indicada aos amantes de livros. Tudo começou com uma carta perguntando sobre livros de segunda mão, escrita por Helene Hanff em Nova York, e endereçada a uma livraria no número 84 da Charing Cross Road, em Londres. Como as sarcásticas e espirituosas cartas de Helene são respondidas pelo indigesto e criterioso Frank Doel da Charing Cross Road, 84, uma relação floresce, em meio ao aconchegante e charmoso mundo dos livros, dando espaço a uma amizade a distância, ao longo de duas décadas.

 

 

Este livro contém duas histórias diferentes e complementares: “84 Charing Cross Road” e “A Duquesa de Bloomsbury”. Ele deu origem a um filme na década de 1980, com Anne Bancroft e Anthony Hopkins, cujo título em português é “Nunca te vi, sempre te amei”.

Comprei este livro recentemente em um sebo, após procurar por algum tempo; como não é um livro facilmente disponível, acabou custando o que vale um livro raro: R$100,00; e seu estado de conservação nem está tão incrível assim. Mas era um desejo que vinha de algum tempo.

Minha ligação com este livro e com o filme veio de um comentário de um amigo com quem troco muitas mensagens sobre filmes, livros e vivências pessoais. Embora sejamos da mesma cidade e moremos ambos em São Paulo atualmente, nossa amizade é basicamente virtual e creio que nunca tenhamos conversado pessoalmente. Houve uma ocasião em que, após tantas mensagens trocadas, ele me disse que parecíamos os personagens do filme. Mas eu nunca tinha ouvido falar do filme ou do livro e resolvi procurar. Na época, não encontrei nenhum dos dois. Algum tempo depois, em nova busca, encontrei o livro em um sebo e o filme disponível para compra. Adquiri os dois e optei por ler o livro antes de ver o filme.

São dois livros complementares e são autobiográficos. Helene Hanff era uma escritora americana, nascida em 1916 em Filadélfia (Pensilvânia). Ela morava em Nova York e se dedicava a escrever roteiros para a TV. Quando a maior parte da produção da televisão mudou para a Califórnia, o seu trabalho lentamente secou, e ela virou-se para escrever textos para revistas e, finalmente, acabou publicando este livro (que fez sua reputação).

Publicado pela primeira vez em 1970, 84 Charing Cross Road narra seus 20 anos de correspondência com Frank Doel, comprador para Marks & Co., uma livraria de Londres especializada em livros usados, onde Helene buscava títulos clássicos da literatura britânica. As correspondências se iniciaram no final da década de 1940, pouco tempo depois do final da Segunda Guerra, e ela foi, pouco a pouco, envolvendo-se na vida dos funcionários da loja e costumava encomendar pacotes de comida e enviá-los para eles, que ainda sofriam com o racionamento de alimentos do período do pós-guerra, e partilhava com eles detalhes de sua vida em Manhattan.

Ela planejava, ano após ano, viajar para a Inglaterra para conhecê-los, mas devido a dificuldades financeiras, essa viagem teve que ser postergada inúmeras vezes. Seu amigo Frank Doel morreu em dezembro de 1968 devido a uma apendicite, e Helene nunca chegou a conhecê-lo. Ela pediu autorização à esposa dele, Nora, para publicar as correspondências que trocaram e o livro 84 Charing Cross Road foi publicado; ele contém as cartas escritas por Helene, por Frank, por Nora e por outros funcionários da livraria.

Devido à compra dos direitos do livro na Inglaterra, ela finalmente conseguiu realizar seu sonho de conhecer Londres. A viagem aconteceu em 1971 e ela conheceu a esposa e as filhas de Frank, o filho do dono da livraria e outros fãs e pessoas que a acolheram. A segunda narrativa do livro relata esta viagem a Londres, em uma composição como um diário, contando cada dia passado na cidade e tudo o que visitou, além de suas opiniões; em 1973, publicou A duquesa de Bloomsbury.

Helene Hanff morreu em decorrência de complicações do diabetes, em 1997, aos 80 anos, em Nova York.

A primeira história, 84 Charing Cross Road, é mais rápida de ser lida; é agradável, com muitos trechos das cartas marcados pela ironia de Helene, e retrata, mais do qualquer coisa, as escolhas dos livros que ela encomendava e suas opiniões sobre as edições. Mas as cartas acabavam contendo um pouco da vida de cada pessoa, tanto de Helene como dos funcionários da livraria. Foram 20 anos de trocas de correspondências, até a morte de Frank Doel.

A segunda história, A duquesa de Bloomsbury, tem alguns trechos mais cansativos da descrição de sua visita a Londres e eu ficava me perguntando duas coisas: se eu iria gostar de Helene Hanff caso a tivesse conhecido (acho que minha resposta seria ‘não’) e se os ingleses com quem ela se encontrou gostaram dela e de sua forma de ser, extremamente informal, sincera e irônica (não sei responder). Como o livro é narrado através do seu ponto de vista, ela nos faz crer que ela estabeleceu bons contatos e que fez grandes amigos nessa viagem a Londres. Acho que mais interessante do que a descrição da viagem, são as descrições dos hábitos, costumes, as diferenças entre ingleses e americanos; ela consegue nos dar uma ideia muito precisa das pessoas e lugares. E vou dar um detalhe muito pessoal e um pouco bobo… ela fez a viagem para Londres no verão europeu de 1971, ano em que nasci. E senti uma coisa estranha ao ler seu diário correspondente ao dia do meu nascimento… a sensação de um mundo repleto de acontecimentos simultâneos… bobagem, eu sei…

O livro foi uma boa experiência. É uma pena que seja tão difícil ter acesso a obras que já não estão mais entre as publicações atuais. Com frequência tenho que recorrer a sebos, como Helene fazia…

Um trecho do livro que achei interessante:

Depois da esquina do George & Vulture fica “a Igreja de São Miguel Cornhill com São Pedro Le Poer e São Bento Fink”. * Vou colocar São Bento Fink na minha lista de santos favoritos, embaixo dos dois santos de Nova Orleans.

Aí por volta de 1801, quando os Estados Unidos compraram a Louisiana, firmas americanas entraram no negócio de imagens católicas e começaram a mandar caixotes de estatuária eclesiástica a Nova Orleans. Pregavam etiquetas nos caixotes com as palavras “FRÁGIL” e “EXPEDITO”. Os habitantes de Nova Orleans eram franceses, não podiam ler inglês e não sabiam o que significavam as duas palavras. Chegaram à conclusão de que deviam ser os nomes dos santos, cujas imagens estavam dentro dos caixotes. Não deu outra: em pouco tempo os santos mais populares em Nova Orleans eram São Frágil e Santo Expedito.

São Frágil perdeu terreno logo depois, mas, pelo que soube, ainda recentemente se podia abrir um jornal de Nova Orleans, a qualquer dia, e ler na Coluna de Mensagens Pessoais:

“Agradecemos a Santo Expedito pela graça concedida.”

De acordo com a imagem, ele é um antigo romano, que usa toga. Desejaria também saber coisas a respeito de São Bento Fink. PB não tem ideia de quem foi.

Fink, na gíria norte-americana, quer dizer alcaguete, delatador, fura-greves (N.T.).

 

 

 

 

 

  Título original: 84, Charing Cross Road Primeira publicação: 1970 Tradutor: Raymundo de Araújo Editora: Casa-Maria Editorial (1988) – 253 páginas ISBN: 8585208015 Sinopse: Correspondência entre a autora americana, em Nova York, e o gerente de uma loja de livros raros/usados na Inglaterra, em Londres, durante vários anos. Uma viagem sentimental indicada aos amantes de livros. Tudo começou com uma […]






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