8.03.2016
Still Life de Kateryna Bilokur (1960)

Still Life de Kateryna Bilokur (1960)

 

Tenho 2 filhos. A diferença de idade entre eles é de 2 anos, 10 meses e 29 dias. A personalidade dos dois sempre foi diferente. Percebi ainda na maternidade, quando o segundo nasceu e vi que ele mamava de outra forma, com outra força, mais agressivo.

O mais velho passou a dormir a noite toda com 40 dias e depois voltou a acordar em todas as madrugadas, após 1 ano, e eu tinha que dormir sentada ao seu lado, segurando sua mãozinha. O caçula chorou todas as madrugadas por mais de 4 meses, até que começamos a tratar de refluxo e ele nunca mais acordou na madrugada, a menos que estivesse doente.

Amamentei os dois pelo mesmo tempo. Iniciei as frutas da mesma forma. O caçula nunca comeu mamão; detestava, cuspia e chorava. O mais velho comia todas as frutas e repetia.

Fazia as sopinhas da mesma forma, com uma enorme variedade de legumes e verduras. Os dois comiam, mas o mais velho sempre comeu melhor.

Aos 9 meses, o caçula agarrou um sorvete, durante umas férias na praia, e não largava mais; e acabou com ele. O mais velho nunca comeu um doce antes dos 2 anos de idade.

Quando passei para os alimentos sólidos, o mais velho comia todos os tipos de verduras e legumes, arroz, feijão e carnes. O caçula mastigava, mastigava, mastigava… e quando íamos ver, ele tinha engolido a carne, a batata e as coisas de que gostava e mantinha nas bochechas tudo o que não gostava: vagem, ervilha, abóbora e o que mais houvesse. Eu olhava e perguntava: COMO? Como era possível separar os alimentos na boca e engolir apenas aquilo de que ele gostava?

Eu sempre comi de tudo. O mais velho também. O caçula fica feliz quando preenche 10 dedos de alimentos diferentes que ele goste de comer. Não adiantava obrigar. Ele simplesmente não comia. E se fosse forçado, vomitava. São passados 12 anos. Ele come arroz com 7 cereais, tomate, brócolis, batata, qualquer tipo de carne (mas não come embutidos), vários tipos de frutas: ameixa, nectarina, morango, manga, banana, kiwi, abacaxi, tangerina, uva, entre outras. Nunca gostou de mamão. Não gosta de melão, nem de melancia.

Ele não toma leite com achocolatado. Toma leite puro, purinho. Não toma iogurte. Não gosta de pão (com raríssimas exceções, como a baguette francesa). Não come sanduíche; de nenhum tipo. Gosta de bolo caseiro, daquele mais simples, como um pão de ló.

Sou mãe. Dou exemplo. Sou médica. Ensino as pessoas a comerem melhor. E vejo meu caçula comendo e tento pensar em formas de agir, de mudar, de ensinar, de obrigar, de dialogar… qualquer coisa que ajude. Não encontro.

Meus filhos são maravilhosos em tudo. Mas, na alimentação do caçula, é onde vejo, de forma palpável, o meu maior fracasso.

– Sílvia Souza

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  Tenho 2 filhos. A diferença de idade entre eles é de 2 anos, 10 meses e 29 dias. A personalidade dos dois sempre foi diferente. Percebi ainda na maternidade, quando o segundo nasceu e vi que ele mamava de outra forma, com outra força, mais agressivo. O mais velho passou a dormir a noite […]



6.03.2016
"Motherhood" de Pablo Picasso (1901)

“Motherhood” de Pablo Picasso (1901)

 

Meu filho mais velho tem 14 anos. Fará 15 anos em breve (10 dias). O ano de 2016 será de muitas festas de 15 anos. Na noite passada, ele teve a primeira. Antevejo que esse ano será de muitas emoções; preciso preparar meu coração e comprar muitos ansiolíticos e relaxantes musculares.

Eu sempre criei meus filhos sabendo que minha função seria prepará-los para o mundo. Não estarei aqui para sempre e quero que eles tenham autonomia, que sejam capazes de fazer as próprias escolhas e traçar o caminho que queiram seguir.

Converso de forma aberta com eles desde que eles eram pequenos. Nunca evitei assuntos e nunca deixei de responder a uma pergunta por achá-la inapropriada. Se a pergunta chegava era sinal de que eles tinham escutado algo que tivesse motivado o questionamento. Isso favoreceu o diálogo e sei que eles têm liberdade de conversar comigo sobre o que tiverem vontade. E se eu não souber algo, vou dizer que não sei.

Até o momento, eles sempre se mostraram responsáveis, bons alunos, carinhosos, amigos, educados… não tenho motivos para impor restrições ou algum tipo de castigo. Eles planejam seus horários de estudo, o tempo de leitura, das tarefas ou outras atividades.

E tudo tem funcionado bem. A mãe está sobrevivendo sem maiores avarias.

Mas não moramos na cidade mais tranquila do mundo. São Paulo é uma cidade grande, com muita violência, um trânsito intenso e muitos perigos. Mesmo assim, não posso colocá-los em uma redoma, nem fornecer imunidade a todos os problemas aos quais estejam sujeitos. Eles terão que enfrentar… e eu terei que me aguentar frente às inúmeras inseguranças e incertezas.

Saímos ontem para comprar uma camisa nova, a ser usada com uma calça que ele já tinha e um blazer que não servirá mais em uma nova oportunidade. Ele se perfumou, se arrumou, ficou lindo (a mãe nunca vai dizer nada contrário a isso) e às 21:30 saímos de casa. Eu fui levá-lo. Não era muito longe.

Voltei para casa. Cuidei do meu caçula. Ele foi dormir. Eu fiquei lendo e esperando pelo telefonema para que eu fosse resgatar meu primogênito na tal festa. O sono veio e me forcei a ficar acordada. Quanto mais o tempo passava, mais o sono fugia… acho que a ansiedade de mãe estava crescendo e mantendo a mente desperta.

À 1:30, resolvi tentar dormir um pouco. Sem chance! À 1:45, recebi o WhatsApp avisando que eu podia sair de casa para buscá-lo. Chegamos de volta em casa às 2:15 ou pouco depois. Ele estava radiante. A festa tinha sido ótima, estavam todos os amigos, ele tinha dançado, conversado, enfim, divertido-se. Tomou água e foi dormir.

A mãe, feliz por ele, exausta e tensa, foi tomar um ansiolítico e, mesmo com o remédio, esperar inutilmente pelo sono que não vinha. A que horas consegui dormir? Não tenho a menor ideia! A que horas acordei? Por volta das 7 horas. Ainda cansada. Ainda tensa. Com o pescoço e as costas contraídos e uma dor enorme na musculatura que quase não permite que eu me movimente.

Nas próximas festas, farei a mesma coisa. Quero que ele aproveite, curta essa fase, divirta-se muito. Eu perderei o sono e ficarei tensa. Mas sei que meu trabalho como mãe estará sendo bem feito: permito a diversão, estou por perto e meu colo estará sempre pronto para acolher depois de algum tropeço que terá na vida.

– Sílvia Souza

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  Meu filho mais velho tem 14 anos. Fará 15 anos em breve (10 dias). O ano de 2016 será de muitas festas de 15 anos. Na noite passada, ele teve a primeira. Antevejo que esse ano será de muitas emoções; preciso preparar meu coração e comprar muitos ansiolíticos e relaxantes musculares. Eu sempre criei […]



1.03.2016
"Mother and Child" de Mary Teasdel,

“Mother and Child” de Mary Teasdel

 

Em julho do ano passado, depois de mais de 40 anos de vida, descobri que sou uma Pessoa Altamente Sensível (Uma Pessoa Altamente Sensível). Quando fiz o teste e li as características, chegando a essa conclusão brilhante que alterou completamente a forma de eu olhar para mim mesma, contei para meu filho mais velho. Ele olhou para mim com a cara mais natural do mundo e me disse: “Só você não sabia!”

Eu sou mãe de dois meninos maravilhosos, que me ensinam coisas todos os dias. O fato de ser mãe e de cuidar deles, protegê-los e ajudá-los não me transforma em um ser sobrenatural. Continuo sendo uma pessoa, uma mulher, que sente, chora, ri, emociona-se, sofre, tem medo, insegurança… e, além de todos esses sentimentos normais, tenho esse aspecto da minha personalidade de ser sensível demais. E eles já sabiam disso muito antes que eu mesma percebesse.

Há um livro da Dra. Elaine Aron que ensina os pais a lidarem com uma criança altamente sensível. Mas nunca achei algo que pudesse orientar um filho sobre como tratar uma mãe que tenha essa característica.

Choro se suponho que eles queiram ficar com o pai e não comigo; entristeço-me se percebo que eles se esqueceram de me telefonar; fico irritada, faço birra, evito abraçar e ajo como uma criança mimada ao ser contrariada. O que exijo deles? Que eles tenham a maturidade de me entender e que saibam os meandros da minha alma e a forma exata de lidar com esse temperamento em que cada mínimo estímulo é amplificado ao extremo?

Resolvi perguntar ao meu filho mais velho (que estava aqui comigo no momento) o que havia de bom e ruim nesse meu traço de personalidade. E aqui transcrevo a resposta dele:

É bom, por exemplo, que você é altamente sensível, então, qualquer coisa que seja boa é altamente boa e a reação é fantasticamente fantástica. É reação enorme de afeto; é reação enorme de orgulho, de tudo. A parte ruim, por outro lado, é que às vezes acontecem algumas coisas que na cabeça de muitos são pequenas, mas que você interpreta como sendo alguma coisa muito mais profunda; o que não necessariamente é ruim, porque você pode detectar coisas que as outras pessoas não veem. Só que, em muitos cenários, é péssimo, porque você pode acabar se ofendendo por coisas que não foram feitas para serem ofensivas. É isso.

E percebo que a relação mãe-filhos não é unilateral. Não temos que ser detentoras de todas as respostas, donas de todas as decisões, sabedoras de tudo o que é bom e o que é ruim. Da mesma forma como não temos um manual para saber como lidar com cada choro do nosso filho, eles também estão aprendendo a conhecer as pessoas e os pais são as pessoas mais próximas e que serão os principais objetos de estudo.

Os filhos analisarão cada reação, cada olhar, cada sorriso sincero ou não, cada incerteza, cada carinho ou raiva ou irritação. Saberão quando estivermos sendo justos em uma punição ou se estamos apenas descontando nosso cansaço ou nossas frustrações.

Da mesma forma que aprendemos a ser mães (ou pais) na tentativa e erro, eles aprendem a testar as reações humanas em nós; somos as cobaias desses pequenos seres que estão aprendendo a existir. O que fizermos será analisado, estudado, copiado, criticado… E eles serão capazes de entender quem somos muito antes de nós mesmos e com mais sabedoria do que qualquer livro de psicologia.

Não precisa muito para que esse aprendizado bilateral dê certo. Precisa apenas de honestidade, sinceridade, que ninguém tenha medo de errar ou de mostrar seu lado mais humano e sensível. Ao mostrarmos quem somos de verdade aos nossos filhos, estamos permitindo que eles validem seus modelos, que balizem suas expectativas e que se tornem mentes mais saudáveis ao lidar com o que vier de desconhecido pela frente.

– Sílvia Souza

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  Em julho do ano passado, depois de mais de 40 anos de vida, descobri que sou uma Pessoa Altamente Sensível (Uma Pessoa Altamente Sensível). Quando fiz o teste e li as características, chegando a essa conclusão brilhante que alterou completamente a forma de eu olhar para mim mesma, contei para meu filho mais velho. […]






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