31.03.2016
Harvard University in 1836; a painting by Eliza Susan Quincy

Harvard University in 1836; a painting by Eliza Susan Quincy

 

Sinto que minha escrita está um pouco diferente nessas últimas semanas. Estou mais objetiva e menos sentimental. Tenho evitado escrever sobre assuntos muito pessoais que façam aflorar emoções. Creio que a morte prematura do meu cunhado possa ter contribuído. Mas certamente há outros fatores também. Estou bastante desiludida com as pessoas, com o mundo, com amigos queridos que passaram a me desprezar, comigo mesma por não conseguir tomar todas as atitudes que julgo corretas ou pela incapacidade de ajudar todas as pessoas que precisam de mim.

Após esse preâmbulo e frente ao sentimento de desilusão que preencheu minha vida recentemente, vou continuar escrevendo sobre algumas coisas menos pessoais, menos sofridas, pelo menos por enquanto. Acho que meu entusiasmo está adormecido.

Então, vou pegar o gancho de uma reunião à qual compareci recentemente na escola dos meus filhos para falar sobre vestibular e escolha profissional.

Meu filho mais velho acabou de completar 15 anos e cursa o primeiro ano do Ensino Médio. Ele é um excelente aluno. Como é normal nessa idade, ainda não tem certeza sobre o que pretende cursar na Faculdade. E os pais dos adolescentes dessa idade já vivem a preocupação do ingresso em uma Universidade. Mas, afinal, por que tão cedo?

Tenho observado uma coisa inédita no país: as pessoas com boa formação profissional ou acadêmica ou financeira estão deixando o país como nunca aconteceu antes. Não são pessoas que procuram outros países para tentar a vida. Não. São pessoas produtivas, que poderiam ajudar a construir um país melhor, mas aceitam ofertas externas com o interesse de fugir da violência, da corrupção, da impunidade. Não é fácil viver em outro país, sem previsão de voltar. Mas é isso o que muitas pessoas estão fazendo… deixam a família, os amigos, a pátria e vão viver como estrangeiros, expatriados em outras terras.

E talvez nunca tenha havido tanta procura por aplicação de estudantes brasileiros em universidades fora do Brasil. É certo que as universidades são melhores, que as distâncias estão encurtadas, que a internet ajuda na comunicação. Mas mesmo assim. Inúmeros jovens de 18 anos buscam tentar a vida fora e, se possível, não voltar mais.

Mas a aplicação para Universidades americanas, especificamente, exige um currículo diferenciado. E os jovens precisam começar a prepará-lo o quanto antes; talvez a partir dos 15 ou 16 anos. Não precisa haver a definição de uma carreira. Apenas deixar tudo pronto para aplicar para uma ou várias universidades nos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, França, Alemanha, Portugal e assim por diante. Eles se preparam para o nosso vestibular e nosso sistema de ensino engessado e se preparam para esses desafios diferentes.

Estudam línguas. Fazem provas de proficiência de inglês, espanhol, francês e o que mais houver de exigência. Fazem atividades extracurriculares, precisam se destacar, estudar, ter bom desempenho… por um sonho de ter uma vida melhor fora daqui. Sonham com segurança, paz, bom sistema de saúde, educação de qualidade para os filhos, possibilidade de fazer pesquisa e criar coisas boas, porque o dinheiro não é desviado para enriquecer apenas alguns. Não são sonhos indecentes. Muito pelo contrário. Eles sonham com aquilo a que todos deveriam ter acesso, aquilo que deveria ser um direito de todas as pessoas.

Estou preparando meu filho para todos os caminhos. Ao menos para que ele tenha a possibilidade de fazer a escolha dele. Não posso dizer que eu fico contente com isso. Acho bastante triste. Vejo um país que teria tudo para ser maravilhoso e que vem perdendo as pessoas mais capacitadas, inteligentes, criativas, porque não consegue dar o mínimo que uma pessoa precisa para viver com tranquilidade.

– Sílvia Souza

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  Sinto que minha escrita está um pouco diferente nessas últimas semanas. Estou mais objetiva e menos sentimental. Tenho evitado escrever sobre assuntos muito pessoais que façam aflorar emoções. Creio que a morte prematura do meu cunhado possa ter contribuído. Mas certamente há outros fatores também. Estou bastante desiludida com as pessoas, com o mundo, […]



29.03.2016
Hortense Breast Feeding Paul de Paul Cezanne (1872)

Hortense Breast Feeding Paul de Paul Cezanne (1872)

 

Resolvi escrever sobre um assunto bastante complicado. Nesse texto estarão presentes: Sílvia Mãe, Sílvia Médica, Sílvia Mulher e Sílvia Feminista. Farei defesa e ataque ao aleitamento e pode acontecer de eu ser contraditória em alguns momentos.

Eu nasci em 1971. Minha mãe tentou me amamentar à exaustão (até sangrar) até perceber que eu estava emagrecendo progressivamente e precisou passar para as fórmulas artificiais que entravam no mercado como uma opção às mulheres que não conseguiam amamentar.

Quando essas fórmulas foram lançadas, chegou com elas o alento às mulheres que trabalhavam e queriam retomar logo suas profissões. Mas não tardou a chegar a reação.

Os trechos que serão citados são do livro “O Conflito: a mulher e a mãe” de Elisabeth Badinter.

É o aleitamento que está no cerne da revolução materna a que assistimos nos últimos vinte anos. Imperceptível, mas firmemente, ele ganha mais adeptos no mundo ocidental. (…) Nos anos 1970, ele é trocado pela mamadeira, o que permite às jovens mães continuar a trabalhar; as que amamentam, então, constituem uma pequena minoria. A inversão da tendência, hoje perceptível, deve-se principalmente à militância e à notável estratégia de uma associação de mães americanas: La Leche League (LLL).

Sete mulheres fundaram a LLL. Elas passaram a fazer reuniões de estímulo ao aleitamento e, aos poucos, os grupos foram se multiplicando dentro dos Estados Unidos.

Contam-se 17 mil animadoras em 1981, no momento em que o índice de aleitamento materno passa, nos Estados Unidos, de 20% em meados dos anos 1950 a 60% em meados nos anos 1980.

Os pontos fundamentais da filosofia da Liga do Leite:

  1. O aleitamento é a maneira mais natural e eficaz de compreender e de satisfazer as necessidades do bebê.
  2. A criança e a mãe precisam estar juntos imediatamente e frequentemente para estabelecer uma relação satisfatória e uma produção de leite adequada.
  3. Nos primeiros anos, o bebê tem uma necessidade enorme de estar com a sua mãe, que é tão básica como a sua necessidade de comer.
  4. O leite materno é o melhor alimento para a criança.
  5. Para o bebê de termo saudável, o leite materno é o único alimento necessário até que o bebê mostre sinais de precisar de sólidos, mais ou menos na metade do seu primeiro ano de vida.
  6. A relação de amamentação continua idealmente até o bebê superar essa necessidade.
  7. Uma participação consciente e ativa da mãe no parto, ajuda ao bom início da amamentação.
  8. A amamentação é conseguida e sustentada através do apoio, ajuda e companheirismo do pai do bebê. A relação única do pai com o seu bebê é um elemento importante no desenvolvimento da criança desde tenra idade.
  9. Uma boa nutrição significa ter uma alimentação variada e equilibrada, constituída por alimentos o mais próximo o possível do seu estado natural.
  10. Desde a primeira infância, as crianças precisam de pais carinhosos que as encorajem e estejam atentos a seus sentimentos.

A partir dessa reunião inicial de apenas sete mulheres, elas conseguiram difundir e pregar a amamentação e a permanência da mãe com o bebê pelo maior tempo possível, criticando as mães que precisavam deixar as crianças em creches para que pudessem voltar a trabalhar.

Não pretendo fazer uma pregação contra o aleitamento materno. Vários estudos apontam sua importância na prevenção de várias doenças do bebê e, sem dúvida alguma, ajuda muito a estreitar o vínculo da mãe com seu filho.

Eu consegui amamentar meus filhos por cerca de 3 meses. Entretanto, nos dois, precisei iniciar complementação com fórmulas infantis antes dos 2 meses. O leite foi progressivamente diminuindo, apesar das minhas tentativas de uso de medicamentos que estimulassem a lactação ou de todas as sugestões das crendices populares, como tomar canjica, vinho do Porto e inúmeras outras das quais já me esqueci.

E a mãe vê-se envolvida na frustração de não conseguir amamentar o quanto gostaria e nas cobranças de todas as pessoas à sua volta que reforçam a sensação de fracasso.

O fato de eu ser médica agravava ainda mais a situação. Afinal, aprendi na faculdade que todas as mulheres são capazes de amamentar e que não há falhas desde que o estímulo seja adequado.

É aí que reside o principal problema, no meu ponto de vista. Eu acho extremamente importante o aleitamento e sou uma estimuladora desse ato. Mas culpar a mãe pela falha ou pela dificuldade de amamentar, não ajuda nada. O sentimento de culpa já acompanha a mãe para onde quer que ela vá. Nós nos desdobramos, ficamos noites em claro, deixamos de comer, encurtamos o tempo dedicado a nós mesmas… e ainda somos acusadas por qualquer falha ou dificuldade que surja no meio do caminho. Não é justo!

E tenho outra crítica, nesse caso bastante pessoal, das mães que amamentam até que a criança tenha 2 ou mais anos de idade. Embora haja uma recomendação da OMS para que se mantenha o aleitamento até que as crianças tenham 2 anos de idade, acho essa recomendação importante em lugares onde possa faltar o acesso a alimentos de qualidade ou que tenham falta de água limpa ou de condições adequadas de higiene.

Não consigo conceber a “obrigação” da mãe de manter a amamentação até essa idade nos círculos sócio econômicos culturais que contam com melhores condições de vida. O que observo é quase uma escravidão da mãe à amamentação, um vínculo psicológico da mãe e do bebê e um prejuízo da relação homem-mulher (pai-mãe) enquanto casal, já que a criança está constantemente inserida nesse relacionamento.

Vejo mães que abandonam suas profissões, que se desdobram para tirar o leite e deixar para que o bebê possa recebê-lo pelas mãos de outras pessoas (geralmente a avó), que usam momentos de folga para correr até a casa e poder amamentar pessoalmente…

Não é à toa que cada vez menos mulheres querem ter filhos e, mesmo aquelas que querem, acabam se contentando com 1 ou 2. Mesmo havendo a licença maternidade, as exigências e cobranças feitas às mães são desumanas em uma sociedade em que se busca o respeito e a igualdade.

Volto a deixar claro que considero o aleitamento materno extremamente importante. Apenas gostaria que as obrigações fossem menores, que o olhar de compreensão fosse mais comum e que os interesses das mulheres-mães fossem tão importantes quanto os interesses e as necessidades dos bebês.

– Sílvia Souza

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  Resolvi escrever sobre um assunto bastante complicado. Nesse texto estarão presentes: Sílvia Mãe, Sílvia Médica, Sílvia Mulher e Sílvia Feminista. Farei defesa e ataque ao aleitamento e pode acontecer de eu ser contraditória em alguns momentos. Eu nasci em 1971. Minha mãe tentou me amamentar à exaustão (até sangrar) até perceber que eu estava […]



22.03.2016
Leontine Reading de Pierre Auguste Renoir (1909)

Leontine Reading de Pierre Auguste Renoir (1909)

 

A adolescência atinge seu auge por volta dos 15 anos, pouco mais ou menos. Os jovens querem autonomia e independência, querem experimentar coisas novas, compartilhar as vivências com os amigos; os pais perdem importância, assim como os irmãos mais novos.

Eles passam a desenvolver o próprio gosto musical, os filmes que mais agradam, as roupas que querem no guarda-roupas… e tudo isso é altamente dependente das preferências dos colegas, do grupo, daqueles com quem eles conversam sobre o cotidiano.

Isso está acontecendo com meu filho mais velho. Exatamente isso. E fico muito feliz pelo fato de que ele goste de dividir comigo essas novas descobertas, as coisas que ele conheceu com amigos, mas faz questão que eu saiba, que eu veja, que eu escute, que eu dê risada das coisas que ele achou engraçadas.

E eu me lembro como se fosse ontem de quando eu passei por essa mesma fase, essas mesmas descobertas, a diversão em grupo que parecia muito melhor do que meus momentos em casa, o aborrecimento de ter que almoçar todos os domingos na casa dos meus avós, em outra cidade, e não podia encontrar meus amigos.

Muitas coisas podem ter mudado. Mas as transformações pelas quais os adolescentes passam por volta dos seus 15 anos (pouco mais ou menos) são as mesmas.

Eu acho que tenho conseguido conviver com essas mudanças no meu filho… principalmente porque penso em mim, 30 anos atrás, e sei exatamente como me sentia. Consigo trazer as mesmas sensações e desejos apenas por reacender a memória, colocar uma música de que eu gostava ou sentir um cheiro que me remeta àquela época.

O que muda em mim e, nesse aspecto, ainda estou um pouco desorientada é o fato de, esse momento, também ser uma fase de tantas exigências na escola e no aprendizado. Esses anos da vida do adolescente são aqueles em que ele tem que viver todas essas novas experiências e ainda tem que decidir a profissão, ter bom desempenho escolar, pensar no futuro (sendo que ele não consegue pensar em si mesmo além de 3 a 5 anos) e preparar-se para o vestibular.

Eu sempre fui uma boa aluna. Era a melhor aluna do colégio. E, ainda assim, houve momentos de não querer estudar, de me desinteressar das matérias, de tirar nota vermelha porque já tinha fechado as notas e não queria mais fazer algo além de tomar sol e bater papo com as amigas.

Mas agora sou mãe. E aí? Tenho que obrigar meu filho a passar as tardes estudando e lendo livros nem sempre interessantes? Ou posso confiar nele e permitir que ele desenvolva a própria autonomia para estabelecer seus horários de estudo, desde que ele se mantenha consciente das decisões que terá que tomar no futuro e que dependem das atitudes do momento atual?

Não acredito que haja uma resposta. Provavelmente depende do perfil de cada filho, de cada pai, de cada plano de futuro. Mas eu tenho uma grande tendência de confiar em sua responsabilidade e na forma como eu o orientei até agora para que saiba traçar sua vida.

– Sílvia Souza

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  A adolescência atinge seu auge por volta dos 15 anos, pouco mais ou menos. Os jovens querem autonomia e independência, querem experimentar coisas novas, compartilhar as vivências com os amigos; os pais perdem importância, assim como os irmãos mais novos. Eles passam a desenvolver o próprio gosto musical, os filmes que mais agradam, as […]






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