23.09.2016
"Pier Inn The Bay Of St Tropez" de Cornelis Vreedenburgh

“Pier Inn The Bay Of St Tropez” de Cornelis Vreedenburgh

 

Os pais organizaram a viagem de férias. Levariam as três meninas para a praia. Iriam também os avós, os tios e a prima. Encheram as duas Caravans da Chevrolet com uma mudança: malas, pranchas, comida para a semana de férias e crianças entusiasmadas em sua primeira viagem para a praia.

O pai dirigia um dos carros e o tio dirigia o outro. As meninas queriam ir sempre juntas, rindo e brincando. Nossa menina era a mais velha. Ela tentava brincar com a irmã e a prima, mas ela não se sentia muito bem em viagens de carro. A mãe lhe dava um remédio para que dormisse e tolerasse as muitas horas de viagem naquelas estradas estreitas e sinuosas em direção ao litoral.

Eles tinham alugado uma casa. Não era de frente para o mar, mas eles conseguiam todos caminhar até chegar à praia. Precisavam carregar o guarda-sol, as cadeiras, as bolsas, as pranchas; e todos precisavam ajudar. Não havia o peso dos cremes e protetores solares. Eles não existiam ainda.

Nossa menina, com sua pele branca, seus cabelos loiros e olhos azuis, iria sofrer suas primeiras bolhas e queimaduras causadas pelo sol.

Eles chegaram à casa no meio da tarde. Tiraram as malas. Levaram tudo para dentro. Não era uma casa nova nem bonita, mas era tudo novo e encantador para as crianças. A avó gostava de colocar todos para trabalhar: lavaram toda a louça, limparam toda a casa, guardaram toda a comida.

Mas a menina estava ansiosa para ver o mar. E não era possível ver o mar da casa. Depois de tudo organizado, arrumado, limpo, ela foi colocar seu maiô vermelho, calçou um chinelo e saíram todos em direção à praia. Ainda distantes, ela já escutava o som das ondas que tocava sua melodia inconstante. Caminharam algumas centenas de metros, até que começaram a ver as areias grossas, de um tom difícil de definir, mas mostrando seu brilho que ainda refletia os raios de sol do poente.

Eles chegaram mais perto e ela pisou na areia. O pai pediu para que ela tirasse o chinelo e sentisse a areia diretamente nos seus pés infantis. Ela pisava na areia solta e áspera e seus pés iam sendo envolvidos como em um abraço.

A praia era larga e tinham que andar bastante até chegar ao mar.

Ela olhava admirada aquela imensidão de água que se ligava ao céu, mostrando o contínuo da natureza. As ondas formavam espumas brancas que iam e vinham sem interrupção. Ela não sabia física e não entendia o movimento eterno das ondas. Apenas captava sua beleza e a tranquilidade que aquela imagem lhe trazia. O céu, o mar, o vento soprando nos seus cabelos, o som das ondas, constante e arrítmico.

O pai pegou uma concha que fora deixada pelo mar, como um presente, e pediu para que ela colocasse no ouvido. E ela escutou a música que havia na concha, como se a concha guardasse dentro dela todas as notas e os instrumentos para tocá-las.

A água do mar era fria. E salgada. Era a primeira vez que ela colocava água salgada na boca. Mas não a incomodou. Era tudo tão lindo, tão mágico, uma conexão tão perfeita com tudo aquilo que não tinha sido criado pelas pessoas, que nada seria capaz de incomodá-la.

– Sílvia Souza

REFLEXÕES E ANGÚSTIAS LOGO PEQUENA

 

 

  Os pais organizaram a viagem de férias. Levariam as três meninas para a praia. Iriam também os avós, os tios e a prima. Encheram as duas Caravans da Chevrolet com uma mudança: malas, pranchas, comida para a semana de férias e crianças entusiasmadas em sua primeira viagem para a praia. O pai dirigia um […]



2.09.2016

10_LaPausa

 

Uma das minhas paixões são os perfumes. Já escrevi sobre eles antes. Não sou uma grande conhecedora, mas procuro ler um pouco e aprender cada vez um pouquinho mais. Normalmente, não sou grande apreciadora de fragrâncias da moda ou excessivamente comerciais. Gosto de produtos mais exclusivos, com essências concentradas e mais refinadas. Minhas preferências são os aromas florais, mas estou sempre aberta a conhecer as novidades.

Resolvi escrever um pouquinho sobre o perfume que escolhi para esta semana: 28 La Pausa da Coleção Les Exclusifs de CHANEL.

Este perfume foi uma criação do perfumista anterior da CHANEL, Jacques Polge, que atualmente se aposentou e seu filho assumiu as últimas criações da marca. É um perfume floral amadeirado e atalcado, sóbrio e elegante. Foi lançado em 2007. As notas centrais do perfume ficam em torno da Íris pallida, uma flor conhecida como o ouro azul da perfumaria de Grasse.

 

iris pallida

 

O perfume se constitui em um floral atalcado e fresco. Ele foi pensado para evocar a casa de férias que Gabrielle Chanel mandou construir na cidade de Roquebrune-Cap-Martin, no departamento dos Alpes Marítimos, na França, da década de 1930. A casa foi chamada de La Pausa e pertenceu a Coco Chanel até 1953. Jacques Polge tentou criar um perfume simples e luxuoso como um verão à La Pausa.

Existem poucas marcas per perfumes que conseguem incorporar às suas fragrâncias materiais tão exclusivos e de tanta qualidade quanto a Chanel. E a coleção Les Exclusifs ainda foi toda construída com esse refinamento. Infelizmente, o preço acaba refletindo a raridade das essências. Essa coleção não é barata.

Tenho alguns desta coleção e o 28 La Pausa é um dos meus preferidos. Ele é muito agradável, suave, intensamente floral.

Outros perfumes construídos em torno da Íris:

  • No 19 de Chanel
  • No 19 Poudré de Chanel
  • Iris Poudre de Frederic Malle
  • Infusion d’Iris de Prada
  • Heure Exquise de Annick Goutal
  • Hiris de Hermès
  • Iris Pallida de L’Artisan Parfumeur
  • La Vie Est Belle de Lancôme

 

 

  Uma das minhas paixões são os perfumes. Já escrevi sobre eles antes. Não sou uma grande conhecedora, mas procuro ler um pouco e aprender cada vez um pouquinho mais. Normalmente, não sou grande apreciadora de fragrâncias da moda ou excessivamente comerciais. Gosto de produtos mais exclusivos, com essências concentradas e mais refinadas. Minhas preferências […]



3.06.2016

Guerlain

 

Há dias em que escrevo meus sentimentos mais profundos, geralmente meio melancólicos e carregados de desesperança. Mas não sou sempre assim. Tenho algumas paixões que me empolgam, em especial se eu encontrar ressonância. Excluindo meus filhos e minha família, minhas maiores fontes de entusiasmo são: tudo o que se refere a Portugal e França (os dois países onde deixei parte do meu coração), livros (em cujos mundos eu gostaria de viver) e, por último, o item mais fútil: perfumes.

Infelizmente, não sei tanto sobre perfumes quanto eu gostaria. Tento ler, aprender, experimentar. Mas é um mundo extremamente amplo. Pensei em, de vez em quando, escrever sobre perfumes; meu intuito não é ensinar nada para ninguém, porque não tenho conhecimento para isso. Eu pretendo escrever para que eu mesma aprenda. E, quem sabe, encontro ressonância em alguém que me leia e se interesse também e possa me ensinar mais ou queira trocar experiências.

Vou começar do início: a história do perfume.

1. Antiguidade

Nas civilizações antigas, as principais matérias brutas dos perfumes (flores, plantas aromáticas e resinas) eram reservadas ao culto dos deuses. Egípcios e gregos queimavam as essências aromáticas em homenagem às divindades, porque o perfume exaltava a beleza e a força. A palavra perfume é derivada do latim “per fumum” (através da fumaça).

Nesse contexto de religiosidade, o uso de substâncias odoríferas se intensifica: incensos, óleos, bálsamos. Progressivamente, o perfume foi se associando à beleza feminina, por causa da rainha Cleópatra que o utilizava na forma de pomadas ou em banhos perfumados.

 

2. Idade Média

Com o advento das invasões bárbaras que levaram à queda do Império Romano, na Idade Média, ocorre uma redução no uso de produtos perfumados, limitados à utilização de plantas aromáticas cultivadas em jardins fechados, como feito por Charlemagne em seus palácios.

A partir do Século XII, a reabertura das rotas comerciais romanas e a intensificação do comércio com o Oriente permitem uma redescoberta de inúmeras fragrâncias. Seguindo os chineses e os árabes, os alquimistas europeus descobrem o álcool etílico e a destilação. Com as viagens de Marco Polo, o comércio de especiarias aumenta e acelera o processo de redescoberta.

 

3. Renascimento

No Renascimento, a sociedade recorre cada vez mais ao perfume como uma forma de esconder os odores corporais desagradáveis. Usavam-se perfumes fortes e marcantes, com duração suficiente para cumprir sua missão de dissimulação: âmbar, musc, jasmim, tuberosa. As rainhas e cortesãs disputavam as fórmulas dos primeiros perfumistas italianos; além disso, os grandes navegadores levavam novas matérias primas da América e da Índia: cacau, baunilha, tabaco, pimenta, cravo, cardamomo.

Vindos da Espanha e da Itália, perfumistas estrangeiros instalam-se em Paris e as luvas perfumadas invadem a França.

 

4. Período Clássico

A associação entre o couro e o perfume é tão próxima que, em 1656, ocorre a criação da companhia das luvas perfumadas na França. Sob o reinado de Luís XIV, essa companhia obtém o monopólio de distribuição de perfumes, antes feito pelos boticários e farmacêuticos. A corte de Versailles passa a usar de forma disseminada os perfumes e cosméticos; e o Rei Sol (Luís XIV) mandava perfumar as fontes dos jardins de Versailles projetados por Le Nôtre: flor de laranjeira, jasmim e cravo branco.

A grande demanda de produtos perfumados leva a França a desenvolver sua própria produção: a região de Grasse, possuindo um clima particularmente favorável, passa a se projetar como produtora de matérias primas para os perfumes e, posteriormente, na própria produção dos perfumes.

Rose de Grasse

Rose de Grasse

 

5. Século XVIII

O Século XVIII foi fundamental para o desenvolvimento da perfumaria. Nesse período, ocorreu a passagem de perfumes muito fortes para as fragrâncias mais delicadas. A França, onde a corte de Versailles é reconhecida como modelo de refinamento pelas outras cortes europeias, é a pátria dos maiores perfumistas e das criações mais inovadoras. A corte de Luís XV é batizada de “a corte perfumada” e recomenda-se o uso de um perfume diferente por dia.

 

6. Século XIX

Em razão de sua associação com a corte, os perfumes caem em desgraça durante a Revolução, antes de voltar à moda com o Império: Joséphine gostava dos aromas exóticos e Napoleão abusava da água de Cologne.

No Século XIX, a perfumaria sofre uma revolução, nos mesmos moldes da indústria. O surgimento dos conhecimentos de química e as várias descobertas científicas e técnicas levam a uma reformulação total das matérias e dos produtos da perfumaria. O comércio de flores de luxo e dos perfumes vai se tornando pouco a pouco uma arte.

O progresso da química propicia a fabricação de moléculas artificiais capazes de reproduzir as qualidades olfativas das essências mais raras, enriquecendo as opções do perfumista com sensações inéditas. Passa-se a consumir perfume na forma de sais de banho, sachets para armários, entre outras formas. Em 1870, o escritor Brillat-Savarin inventa o vaporizador, simplificando o uso das preparações alcoólicas.

Esse crescimento também foi dependente das fábricas de produção de vidros, que passaram a produzir os frascos em vidro em série e a preços mais baixos. Tudo isso levou ao surgimento e crescimento das grandes maisons da perfumaria: Houbigant, Piver e Guerlain, que produziu a Eau de Cologne Impériale para a Imperatriz Eugénie e recebeu, de Napoleão III, o título de “Perfumista Oficial da Sua Majestade“.

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7. 1900 a 1950

Na Belle Époque, o perfume se torna um produto de luxo, com François Coty, perfumista de vanguarda, e Renée Lalique, joalheiro e criador de frascos em cristal da perfumaria moderna.

Nos anos 20, Coco Chanel cria um perfume revolucionário com notas de aldeídos, N°5 (1921). A maison Guerlain cria Shalimar, um oriental que se tornou seu maior sucesso. Após a guerra, os perfumes voltam a dar um ar de sedução e as atrizes de Hollywood passam a inspirar criadores: Christian Dior lança seu primeiro perfume, Miss Dior (1947), e Nina Ricci lança l’Air du Temps (1948).

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8. A partir dos anos 1950

Nos anos 50, a arte da perfumaria fica mais democrática, tornando-se financeiramente mais acessível. Ocorre o surgimento das águas de toilette masculinas, associadas ao ritual de se barbear e a difusão do perfume americano.

Nos anos 70, surgem os perfumes masculinos verdadeiros, dissociando o ato de se perfumar e de se barbear.

As preferências de fragrâncias mais suaves ou mais marcantes vão mudando de acordo com a moda ou fatos marcantes no mundo.

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Fonte: Parfums et Senteurs

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  Há dias em que escrevo meus sentimentos mais profundos, geralmente meio melancólicos e carregados de desesperança. Mas não sou sempre assim. Tenho algumas paixões que me empolgam, em especial se eu encontrar ressonância. Excluindo meus filhos e minha família, minhas maiores fontes de entusiasmo são: tudo o que se refere a Portugal e França […]






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