15.03.2016
Castelo de Bragança, Bragança, Portugal

Castelo de Bragança, Bragança, Portugal

 

Dá-me um sorriso a brincar,
Dá-me uma palavra a rir,
Eu me tenho por feliz
Só de te ver e te ouvir.

Fernando Pessoa

  Dá-me um sorriso a brincar, Dá-me uma palavra a rir, Eu me tenho por feliz Só de te ver e te ouvir. Fernando Pessoa



24.02.2016
"D'ou Venons Nous / Que Sommes Nous / Où Allons Nous" de Paul Gauguin (1897)

“D’ou Venons Nous / Que Sommes Nous / Où Allons Nous” de Paul Gauguin (1897)

 

Meus pais lêem tudo o que escrevo e sei que, depois desse texto, será um dos dias em que minha mãe vai me ligar e dizer que eu penso demais nas coisas… Até pensei em escrever algo diferente, mas deve haver uma pessoinha dentro de mim que fica me ditando o que escrever… A Rosa Montero, escritora espanhola, chama essa “pessoinha” dentro dela de “a louca da casa”. Vou pensar numa forma de nomear a minha também.

Hoje acordei cedo, como costumo fazer em quase todos os dias. Segui minha rotina diária. Embora cada dia seja único e nada aconteça exatamente da mesma forma, não houve nenhum evento novo ou que tenha fugido do habitual.

E me veio uma pergunta que me incomoda com frequência cada vez maior e para a qual não tenho resposta… Afinal, qual o sentido de tudo? De tudo o que fazemos, dessa rotina diária, de tanto sofrimento, tanta batalha?

Meu dia é motivado por pessoas (pessoas que amo ou pessoas por quem me importo): meus filhos, meus pais, minhas irmãs, meus sobrinhos, meus amigos, meus pacientes… E sofro porque fico longe da minha família. Escutar a voz pelo telefone é bom; até dá para ver a imagem. Mas e o contato? O abraço? O toque? O carinho? Eu preciso disso. Por que não os vejo mais? Por que não vivemos mais perto uns dos outros? Por que seguimos nessa rotina sem sentido, tentando ignorar a saudade que ocupa um espaço enorme dentro da gente?

Converso com pessoas que vivem para o trabalho, sem que destinem um tempo para a família ou para si próprios… Para quê? Sei que há necessidade de ter um salário, uma forma de ganhar a vida, uma programação para o futuro… Quando será o “futuro”? Quando a pessoa tiver 80 anos? Quando houver dores e doenças?

Vejo as pessoas que guardam mágoas ou que magoam os outros, que são egoístas ou maltratam ou ignoram, pessoas intolerantes, mesquinhas… Vale a pena? A vida passa tão rápido! Há pessoas que se afastaram de mim, com quem tento contato, que não me retornam e, em alguns casos, eu nem mesmo sei o que fiz (se fiz alguma coisa). Ou mesmo que eu tenha feito alguma coisa que magoasse alguém, será que a sensação do perdão, de esclarecer os mal-entendidos, não é muito melhor do que guardar aquele sentimento venenoso dentro de si?

Algumas pessoas tentam encontrar um sentido para a vida e acabam se contentando em algo tão pequeno e superficial quanto se esforçar para ter um corpo perfeito passando horas na academia ou tomando remédios de forma inconsequente, remédios que fazem mais mal do que bem. Outras que passam fome a vida toda, porque acham que serão felizes se forem magras. Alguns vivem uma vida de mentira, tentando não ver o sofrimento, a miséria e a doença. Outros ignoram sua própria miséria (a miséria da alma) e preenchem suas vidas criticando os outros e negando-se a ver suas próprias falhas e defeitos.

As relações se tornaram superficiais. Tenta-se obter do outro alguma vantagem, o sexo casual, um favor, sem nem perguntar se está tudo bem. Ninguém quer saber dos problemas e a vida vai sendo apresentada pelo Facebook como se fossem todos ricos, bonitos e felizes. Afinal, é essa vida de mentira que conta? É nela que temos que encontrar sentido? Se eu estiver bonita, jovem, magra e sorridente na foto, posso me considerar realizada?

Fazia meu Pilates de manhã e pensava em tudo isso. Tive vontade de chorar. Aliás, algumas lágrimas chegaram a surgir, mas engoli o choro a seco para que não mostrasse minha tristeza e minha indignação para os outros.

Queria cercar minha existência de pessoas que se importam comigo e por quem tenho carinho. Gostaria de me desculpar com aquelas a quem causei alguma mágoa. Quero desculpar todos aqueles que me fizeram chorar. Quero uma vida mais simples, sem desentendimentos, nem brigas, onde as diferenças possam ser esclarecidas e toleradas.

A vida passa tão rápido… o que vem depois ninguém sabe… É aqui e agora que temos que resolver nossos conflitos e tentar dar algum sentido para essa nossa existência, algum sentido maior do que bens materiais, vaidade excessiva ou a programação para um futuro que pode nunca chegar.

– Sílvia Souza

REFLEXÕES E ANGÚSTIAS LOGO pequeno

  Meus pais lêem tudo o que escrevo e sei que, depois desse texto, será um dos dias em que minha mãe vai me ligar e dizer que eu penso demais nas coisas… Até pensei em escrever algo diferente, mas deve haver uma pessoinha dentro de mim que fica me ditando o que escrever… A […]



23.02.2016

 

Em todos os anos, lançam um novo filme sobre o Natal. Diferente de quando eu era criança, em que na época de Natal sempre eram reprisados filmes antigos sobre a vida de Jesus, como Ben-Hur, os filmes atuais falam de presentes, Papai Noel e, se sobrar um espaço, sobre o real espírito do Natal e seu significado.

Eu sei que o Natal já passou há quase dois meses. Mas assisti a esse filme no último final de semana e queria comentar a respeito.

Embora seja mais uma comédia que usa o Natal como cenário, eu gostei de alguns questionamentos que o filme traz (de forma superficial). É claro que ninguém quer ficar pensando seriamente em problemas na época de Natal. Na verdade, acho que essa é a postura da maioria das pessoas sempre: simplesmente varre todos os problemas para baixo do tapete e faz de conta que vive uma vida perfeita.

Acho que por já ter vivido mais da metade da minha vida, não tenho muitas ilusões. E meu jeito extremamente questionador e reflexivo faz com que eu queira entender o que se passa, tente ver os problemas de frente e resolvê-los para o bem das pessoas que convivem comigo e meu próprio.

Sei que estou divagando um pouco e saí das questões do filme. O filme aborda basicamente as relações familiares e suas dificuldades:

  • o casal que, após 40 anos de casamento, resolveu se separar
  • as irmãs que não conseguem se relacionar bem por causa de ciúmes e mágoas; e cada uma vê a outra como a mais forte entre elas
  • a filha que acha que é sempre uma decepção para os pais
  • o idoso que vive solitário
  • a dificuldade de diálogo entre o casal divorciado

E outras pequenas questões surgem em paralelo, até para trazer alguma leveza à história. Mas dentro de todos os temas, dois pontos foram os que me prenderam: casamento e suas dificuldades e a diferença entre a nossa percepção sobre as coisas e a percepção dos outros e a realidade dos fatos.

Quando a gente se casa, existe uma ilusão de amor eterno e de convivência harmoniosa. Nenhum dos dois quer parar para pensar que são duas pessoas diferentes, com passados diferentes, com desejos diferentes… e não se aceita que algumas coisas não sejam ditas e permanecerão como segredos, guardados para alguns raros momentos em que se está só. Vejo casais que afirmam que isso não acontece; que um sabe tudo sobre o outro; que não brigam; que têm sempre a mesma opinião… e daí em diante. A verdade é que eu não acredito em nada disso. Gostaria que fosse possível, mas não acho que seja. Há sempre nossos segredos inconfessos, os pontos obscuros da nossa alma que nós mesmos não conseguimos desvendar, quanto mais verbalizar e contar isso para o outro. E mudamos o tempo todo; mesmo sem querer. A cada nova experiência, a cada pessoa que conhecemos, a cada livro lido, tudo isso contribui para reflexões e transformações. O casal pode mudar na mesma direção, mantendo o diálogo e, assim, continuam falando a mesma língua e compreendendo os desejos um do outro. Mas muitas vezes isso não acontece. Um passa a sonhar com uma viagem para a África e o outro está vivendo em função dos filhos. E quando percebem, não conversam mais e, se tentam conversar, não se comunicam, como se falassem idiomas diferentes.

Um dos problemas que tenho na vida é que quero alguém que queira desvendar todos os meus segredos, mesmo os mais obscuros, e isso é quase impossível. Tive isso uma única vez… e não durou… e a dor que sobra é ainda maior, porque é como se alguém tivesse levado uma parte minha embora…

A outra questão do filme que fez com que eu pensasse muito sobre minha vida é a forma como nos vemos e como achamos que os outros nos vêem. Muitas vezes temos nossos traumas e dificuldades para encarar alguns problemas ou situações. E acaba sendo mais fácil culpar os outros por essas dificuldades, por não tomarmos uma atitude em nossas vidas, por fugirmos das nossas responsabilidades… E passamos a vida sendo aquilo que achamos que os pais, ou o namorado, ou os irmãos gostariam que fôssemos; mas, na maioria das vezes, nem mesmo perguntamos se aquilo é real ou apenas uma ilusão criada por nós mesmos. O papel da Olivia Wilde é de uma mulher assim, que passa a vida se sentindo julgada e rejeitada pelos pais, porque acha que não consegue nunca superar suas expectativas em relação a ela.

E eu estou sempre vivendo isso… tentando caber no que esperam de mim… mas será que eu sei de verdade o que esperam de mim? Será que não é apenas uma fuga, por medo de enfrentar aquilo que quero para minha vida?

Se acontecer de alguém assistir a esse filme, provavelmente a pessoa vai achar um filme bobinho e talvez não consiga ver essas coisas onde me prendi e nas quais parei para pensar. Tudo isso é muito individual e depende da nossa vivência. Mas eu gostei do filme e pensei sobre esses e outros pequenos aspectos que tornam os relacionamentos tão complicados, quando tudo deveria, na verdade, ser simplificado.

– Sílvia Souza

REFLEXÕES E ANGÚSTIAS LOGO pequeno

 

 

  Em todos os anos, lançam um novo filme sobre o Natal. Diferente de quando eu era criança, em que na época de Natal sempre eram reprisados filmes antigos sobre a vida de Jesus, como Ben-Hur, os filmes atuais falam de presentes, Papai Noel e, se sobrar um espaço, sobre o real espírito do Natal […]






%d blogueiros gostam disto:
DESIGN POR JESS