11.07.2016

“Deux Soeurs” de William-Adolphe Bouguereau (1901)

 

De repente, a irmã estava lá. Não sabia o que tinha se passado; não entendia o aumento da barriga da mãe, nem seu maior cansaço. Sabia apenas que, em suas lembranças de vida, a irmã sempre esteve presente.

A irmã tinha grandes olhos verdes, cabelos pretos lisos em quantidade e um sorriso sempre pronto no rosto. Conquistava todas as pessoas com seu bom humor e suas gargalhadas.

A menina mais velha sempre fora séria, de olhar desconfiado e jeito de poucos amigos. Tinha os privilégios da filha mais velha e de ser a primeira neta. Mas as poucas vantagens que vinham com essa posição não compensavam a solidão intensa que sentia.

A chegada da irmã tinha tirado todas as atenções da mais velha. Ela não era mais a única. E não era simpática.

Por outro lado, a irmã estava sempre lá; preparada para dar um abraço, um beijo, para fazer um carinho. Ou simplesmente estar.

Elas passaram a ser inseparáveis. A mais velha amarrava o sapato da irmã, ajudava com as tarefas. E, em troca, ela tinha afeto e amizade.

A irmã se tornara sua protetora; mesmo sendo mais nova e menor, a menininha defendia a mais velha nas mais variadas situações; era sua voz, sua força, sua valentia.

Uma complementava a outra de forma quase perfeita. Pareciam duas peças do mesmo jogo, em que uma tinha o que faltava à outra. Elas brigavam sim, como todos os irmãos brigam. Tinham desejos diferentes em alguns momentos. A mais velha tinha seus egoísmos, seus autoritarismos, aqueles acessos de dominação que são tão comuns nos primogênitos.

A mais velha queria sempre escolher a brincadeira, o programa de TV, o lugar à mesa. À irmã, cabia aceitar ou se rebelar. Quando isso acontecia, iam as duas de castigo para o quarto, cada uma em sua cama, as duas chorando ou de cara emburrada. E tinham que permanecer no castigo pelo tempo estipulado pela mãe. Geralmente, quando a mãe voltava, as duas estavam rindo e brincando, como se nada tivesse acontecido.

Havia muitos momentos em que a mais velha tinha ciúmes da caçula. A pequena tinha seu encanto. A mais velha queria que gostassem dela como da mais nova, daquela forma gratuita, apenas por suas gracinhas. À mais velha, as gracinhas não caíam bem; ficavam forçadas. Ela era admirada pela inteligência, pela precocidade, mas sempre por um desempenho, uma realização, e nunca de forma gratuita. A única que gostava dela de forma gratuita e desinteressada era a irmã. A menininha olhava para a mais velha com admiração e amor, mesmo que não recebesse nada além de uma careta.

O amor entre as duas não era pela consanguinidade. Ele tinha sido construído. Convivência. Admiração. Carinho. Interdependência. Amizade. Troca. Necessidade. Companhia. Proteção. Entrega. Companheirismo. Compreensão. Simbiose. Uma estava para a outra. Não precisavam falar a linguagem dos adultos. Elas tinham sua própria comunicação. Os olhares. Os sorrisos.

E muito, muito bem-querer.

– Sílvia Souza

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  De repente, a irmã estava lá. Não sabia o que tinha se passado; não entendia o aumento da barriga da mãe, nem seu maior cansaço. Sabia apenas que, em suas lembranças de vida, a irmã sempre esteve presente. A irmã tinha grandes olhos verdes, cabelos pretos lisos em quantidade e um sorriso sempre pronto […]



24.06.2016

Rose

 

Ele estava ali. Olhava para todos os lados. Analisava, pensava e decidia. Ele a viu sozinha, isolada de todas as outras flores do jardim. Era bonita, delicada e solitária.

Aproximou-se e arriscou um contato. Fez um elogio, mas não qualquer elogio. Declamou um poema de amor dizendo que era aquilo que buscava. Ela não conseguiu ficar indiferente à melodia da sua voz e à beleza daquelas palavras. Olhou para ele e afrouxou um pouco seus espinhos, como quem despe uma armadura.

Ele sentiu que podia se achegar. Sem movimentos bruscos, declamando outras poesias de amor, as mais bonitas que conhecia, tentava alcançar o perfume raro que ela exalava. Já podia observar a delicadeza de suas pétalas, mesmo que ainda não se atrevesse a tocá-las.

Arriscou dizer que estava apaixonado por sua beleza. Ela, naquela solidão, desabrochou um pouco mais e expôs todos os tons suaves do rosa que a compunha. Ele se encantou com a raridade daquelas cores e com a facilidade com que ela desabrochava, pelo simples fato de escutar elogios e declarações de amor. Não estava ela já acostumada a escutar palavras de amor?

Não. Havia aqueles que tentavam se aproximar com grosserias e ela se fechava totalmente. Outros faziam elogios comuns, que não estavam à altura de sua beleza. Ela, ali isolada naquela solidão, única com aquelas cores e aquele encanto, nobre e rara, sonhava em escutar poemas de amor, em despertar um amor intenso e instantâneo e encontrar aquele que reconhecesse que não poderia viver sem sua beleza, seu perfume e seu encanto. Ela não se achava especial. Não. Ela apenas acreditava que chegaria aquele ser único, aquele que os poemas de amor juravam haver para cada um e nos quais ela acreditava com todas as forças.

Ele percebeu a fragilidade daquele coração e, encantado com sua inocência, disse que a amava como nunca tinha amado outra flor. Perguntou se poderia tocar uma de suas pétalas. Ela lhe permitiu porque tinha necessidade de carinho. Ele acariciou a maciez daquela superfície e pediu a permissão de guardar uma lembrança dela consigo.

Apesar da dor que sentiria, ela permitiu que ele arrancasse uma de suas pétalas… e ele retirou a mais bela dentre elas. Mas não se contentou com apenas uma. Foi arrancando cada uma delas sucessivamente, apesar do choro silencioso e resignado da bela rosa. Ela achava que tudo era parte da entrega por amor.

Depois de todas as pétalas arrancadas, da rosa desfeita, do perfume dissipando-se ao vento, ele partiu em sua busca pela próxima flor solitária daquele ou de outros jardins.

– Sílvia Souza

Rosa

 

  Ele estava ali. Olhava para todos os lados. Analisava, pensava e decidia. Ele a viu sozinha, isolada de todas as outras flores do jardim. Era bonita, delicada e solitária. Aproximou-se e arriscou um contato. Fez um elogio, mas não qualquer elogio. Declamou um poema de amor dizendo que era aquilo que buscava. Ela não […]



20.06.2016

A Vênus das Peles

 

Título original: Venus im Pelz

Primeira publicação: 1870

Tradutor: Saulo Krieger

Editora: Hedra (16-11-2015)

ASIN: B0183X9I9O

Sinopse: A Vênus das peles”, de Sacher-Masoch, foi publicado originalmente em 1870, e narra pela primeira vez, com detalhe e clareza, a submissão sexual e existencial, ao mesmo tempo dolorosa e prazerosa, servil e libertária – pois se trata de servidão voluntária -, de um homem a uma mulher. O livro não é apenas a obra fundamental do masoquismo. Ele é também uma das obras fundamentais da cultura contemporânea, em que a liberdade e a realização individuais se alimentam reciprocamente. O masoquismo, termo depois consagrado por Freud, o sadismo e inúmeras outras práticas hoje conhecidas, reconhecidas e nomeadas, como o fetichismo, o travestismo e o próprio homossexualismo antes conhecido como “o amor que não ousa dizer seu nome” – ousam nomear-se quando deixam de ser negados e renegados e podem, entre outras coisas, tornar-se referências de grandes obras de arte, como a “Vênus das Peles”.

 

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Leopold von Sacher-Masoch nasceu em 1836 na cidade de Lemberg, situada na Galícia, província ao sul da Polônia que, desde 1772, estava incorporada ao Império Austro-Húngaro. Hoje sua terra natal fica em território ucraniano. Entretanto, definia-se a si mesmo como alemão, invocando sua identidade com a língua germânica, na qual pensava e “sentia”. Tal identidade não impediu que sua verdadeira terra, a Galícia e os legendários Cárpatos, fossem o cenário de seus primeiros escritos, que ainda guardavam um caráter regionalista. Filho de família aristocrática, aprendeu francês ainda na infância, língua em que se alfabetizou juntamente com o alemão, para enfim estudar filosofia e ciências. Desde cedo alimentou o sonho de se tornar um escritor importante e reconhecido. Com esse desejo, elaborou o projeto de publicação de um conjunto de livros que se chamaria O legado de Caim , no qual retrataria aspectos da condição humana. Esse tema era, de fato, o que mais o instigava, e que viria a ser o motor de sua produção literária. Tanto que o presente romance, A vênus das peles , obra que o imortalizou, aborda, de modo direto e corajoso, um aspecto tão misterioso e intrigante da alma humana que é o prazer sensual que se pode extrair do sofrimento.

Antes da publicação de A vênus das peles, Sacher-Masoch já era um escritor conhecido por diversas obras. Entretanto, por uma ironia, a fama que desejava alcançar foi sobrepujada por aquela que veio do uso do seu próprio nome na invenção da palavra masoquismo.

Eu nem mesmo sabia da existência desse livro e desconhecia a origem da palavra masoquismo. Recentemente, assisti ao filme “A Pele de Vênus” (“La Vénus à la fourrure” – 2013), de Roman Polanski, com Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric. O filme fala de uma adaptação da obra de Sacher-Masoch para o teatro e os dois personagens ensaiam a peça. Gostei muito do filme e fiquei interessada nessa obra do Século XIX.

 

 

Mas a leitura me surpreendeu. De forma positiva. Acho que pelo fato de ser diferente do que eu esperava. Não é apenas uma relação masoquista (nos termos como empregamos o termo hoje em dia). Na verdade, trata-se de uma história de um amor absolutamente intenso e apaixonado. Severin propõe se entregar a ela completamente, ser seu escravo, servi-la, mas não pode pensar em perdê-la. Wanda não aceita a proposta de imediato. Ela confessa que tem receio de como irá se comportar ao final do tempo proposto por Severin.

Só se pode verdadeiramente amar o que está acima de nós, o que nos oprime pela beleza, pelo temperamento, pelo espírito, pela força de vontade, e se torna nossa déspota.

Ela acaba cedendo ao desejo dele, após muita insistência, e eles assinam um contrato em que ele se compromete a ser seu escravo pelo período de um ano.

Ser teu escravo! Sem qualquer limite, tua propriedade, sem vontade, para que disponhas de mim a teu bel-prazer, e que disso não tenhas o menor arrependimento.

No início, ela entra no jogo que ele idealizou, mas demonstra amor, carinho e receio de estar se excedendo nas punições.

Sim, com toda a seriedade eu digo que é meu desejo ser teu escravo. Quero que teu poder sobre mim seja sacramentado pela lei, que minha vida esteja em tuas mãos, que nada neste mundo me proteja de ti ou me salve de ti. Ah! Volúpia, sentir que estou completamente sob o teu arbítrio, que dependo de teu humor, de um gesto de teus dedos. E então que ventura! , se fores piedosa, se o escravo puder beijar teus lábios, depender de ti na vida e na morte. Ajoelhei e apoiei em seu regaço a minha fronte, que ardia.

Mas chega um momento em que ela assume de fato a posição de déspota e passa a desejar feri-lo e magoá-lo de verdade. Ele acaba se permitindo passar por várias humilhações, até o limite de sua tolerância.

A linguagem e as cenas são descritas da forma correspondente ao de outros livros do Século XIX. Não existem descrições de cenas explícitas, nada além do jogo de sedução e de subordinação.

A mim, o livro passou a ideia de um amor muito sofrido, em que o homem se entrega de corpo e alma, esperando com isso, ter a mulher ao seu lado para sempre. Ele se desespera apenas de pensar na possibilidade de ela vir a deixá-lo.

Não acho que sejam raros esses amores extremos e de entrega completa. Nem mesmo acho que seja algo condenável. Mas uma relação desse tipo exige que o déspota também ame o subordinado. Ou a relação de crueldade se impõe. E será que o déspota é capaz de continuar amando indefinidamente aquele que se entrega com tanta docilidade à completa dominação?

É uma leitura que eu recomendo. Gostei muito, embora eu tenha ficado com o gosto amargo de um sofrimento intenso.

A moral é que a mulher, tal como a natureza a criou e como o homem atualmente a educa, é sua inimiga, podendo tão-somente ser sua escrava ou sua déspota jamais sua companheira. Isto, só quando ela tiver os mesmos direitos que ele, só quando por nascimento, pela formação e pelo trabalho, for igual a ele.

 

 

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  Título original: Venus im Pelz Primeira publicação: 1870 Tradutor: Saulo Krieger Editora: Hedra (16-11-2015) ASIN: B0183X9I9O Sinopse: “A Vênus das peles”, de Sacher-Masoch, foi publicado originalmente em 1870, e narra pela primeira vez, com detalhe e clareza, a submissão sexual e existencial, ao mesmo tempo dolorosa e prazerosa, servil e libertária – pois se trata de servidão voluntária -, de […]






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