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Speed Dating

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Ele aceitara participar daquilo apenas porque o amigo lhe pediu. Todos foram entrevistados com antecedência e foram escolhidos homens e mulheres em quantidades iguais. Ele não sabia ao certo como acontecia essa etapa anterior ao evento, mas o amigo já tinha lhe dito que sempre havia mais mulheres do que homens; então, faziam uma seleção baseada na entrevista. Ele achava um pouco injusto, mas assim era o mundo.

Fazia pouco tempo que estava divorciado. O divórcio nunca tinha sido uma opção na sua vida; tinha-lhe sido imposto e não houve outra escolha além de aceitá-lo. Ainda sofria pela falta da ex-mulher e, mais intensamente, pela distância dos filhos.

Logo que se separou, sua caixa de mensagens do Facebook ficou repleta; mulheres que ele não via há anos e outras que nem conhecia escreveram fazendo convites variados; algumas mais contidas e outras bem explícitas. Na época, assustou-se um pouco com o assédio. Chegou a sair com uma amiga casada (que era amiga da ex-mulher, inclusive) apenas para uma conversa e um desabafo; no final do almoço, ela deu o bote e partiu para cima dele, o que gerou um enorme desconforto.

A partir desse evento, ele passou a se afastar das amigas, manteve alguns compromissos familiares e envolveu-se com seu trabalho o máximo que pode.

E agora estava naquela situação: se arrumando para aquele encontro ao estilo Speed Dating. Não esperava nada. Não pretendia se relacionar com ninguém. Se o organizador não fosse seu amigo, não se disporia a ir.

Estava vestido como sempre; usando o perfume de sempre; com a barba por fazer, mostrando certo desleixo e desprezo por aquele evento. A maioria das pessoas já estava no local e o amigo já organizava cada um em seu lugar e explicava as regras. Eram os homens que se deslocavam, de mesa em mesa, a cada 2 minutos, conforme a sineta tocasse. E havia um papel para que fizessem as anotações.

Olhou para cada uma das mulheres ali presentes. A maioria devia estar na mesma faixa etária que ele, pouco mais ou menos. Algumas bonitas, algumas bem arrumadas, algumas eufóricas, algumas nervosas. Não sabia se alguém já tinha participado daquilo antes.

Sentou-se. A sineta tocou e os bate-papos começaram. Ele era inteligente e sabia como levar uma conversa. Como estava tranquilo e sem expectativas, conseguia acalmar sua interlocutora e os assuntos percorriam caminhos diversos. Uma após a outra, ele se deslocava de mesa em mesa, olhava nos olhos de cada uma delas, via os sorrisos, o desejo de impressionar e se incomodava com a superficialidade dos diálogos, repletos de falsidades, como se tentassem vender suas qualidades inexistentes.

Quando acabou, preencheu o papel com suas observações. Apenas por diversão, para ver qual seria o resultado, anotou no papel que tinha interesse por todas. Queria saber a contrapartida.

Em uma semana, o amigo lhe telefonou. Quase todas tinham se mostrado interessadas por ele. E o amigo lhe passou os contatos, caso ele quisesse telefonar. Lembrava-se delas. Talvez até gostasse de conhecer melhor uma ou duas da lista.

Depois desistiu. Deletou o e-mail do amigo. Ainda não estava pronto. Não queria um relacionamento por enquanto. Tinha preguiça só de pensar em jantares (de sedução), presentes (que não agradariam), flores (que murchariam), no tempo de aprendizado sobre os gostos dela e do ensinamento de suas preferências. Sentia-se cansado para tudo isso…

Quando chegasse o momento, tentaria uma amiga, uma antiga namorada talvez, alguém com quem fosse possível pular algumas etapas.

Certamente não agora.

– Sílvia Souza

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