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Solidão

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Solidão

Cheguei sozinha ao mundo, como a maioria dos bebês. Nas angústias que acompanhavam os choros desesperados, ninguém entendia as minhas necessidades.

Fui crescendo só em um mundo de adultos. Era deixada sozinha em casa com poucos meses de vida. Os gritos ecoavam pela casa vazia.

Durante as horas de trabalho dos meus pais, pessoas com outros afazeres se dispunham a olhar por mim, sem nunca conseguir entender minhas carências.

Aprendi a economizar nas palavras. E agradava os outros para ter atenção.

Ia me recolhendo cada vez mais na minha concha, único lugar onde me sentia protegida.

Finalmente, eu tinha uma irmã. E embora mais nova do que eu, era minha protetora, aquela que brigava por mim e desbravava os caminhos. Era minha voz de comunicação com o mundo. Ao lado dela, eu me sentia compreendida e protegida.

Minha irmã foi sendo meio apoio. Com ninguém mais eu conseguia me relacionar, conversar.

Para entrar nas brincadeiras, eu precisava ter uma boneca bonita ou algo interessante que atraísse o interesse das outras crianças.

Me saía bem na escola porque me fechava no meu universo de livros, onde não poderia ser agredida.

Ninguém entendia meu jeito de ser. Cobravam maior exposição, conversas desconfortáveis, extroversão. Eu precisava me ajustar ao mundo de acordo com as opiniões da maioria das pessoas. A única que não me desejava diferente era minha irmã.

Os namoros aconteceram porque a beleza ajudava. Mas as amizades não são feitas com a beleza de fora. E a beleza de dentro só é conhecida quando permitimos que outras pessoas entrem em nosso mundo.

O que eu parecia para a maioria das pessoas? Alguém antipática, antissocial e falsa. Como podiam me achar falsa, quando eu tinha uma ingenuidade insuportável em mim?

Conseguia fazer uma ou duas amigas. As poucas pessoas em quem eu depositava minha confiança.

Cheguei a São Paulo aos 17 anos, sozinha e fui acolhida pela cidade de concreto com sua frieza e indiferença.

A solidão se ampliou apesar da multidão de pessoas que preenchia todos os lugares.

Minha irmã não estava mais ao meu lado. Quase desmoronei incontáveis vezes. Pensei em desistir. Mas, apesar do meu retraimento, tinha uma força gigantesca dentro de mim que precisava perseguir seu sonho.

E fui aceitando a solidão como parte de mim, como algo que sou.

Não é com tristeza que escrevo isso. É apenas uma constatação. Como alguém que diz “nasci com os olhos azuis”, eu digo “nasci com os olhos azuis e com a solidão como companheira”.

E assim tem sido minha vida…
 

 

– Sílvia Souza

(27/07/2015)

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1 Comment
  • M.Raydo disse:

    Ok! Achei o vídeo fofo! Sim! Fofo!!! A menina é uma graça nesta luz linda! Me lembra o sol da manhã da minha infância. A casa da minha mãe era mágica! 🙂
    Seja só, se esta é a sua inspiração! Mas, seja feliz com você mesma e sua solidão.
    Eu gosto de um pouco de solidão, me cai bem um silêncio. vez ou outra.

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