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Saúde: Ritmo circadiano e o metabolismo

Saúde: Ritmo circadiano e o metabolismo
Saúde: Ritmo circadiano e o metabolismo

Por mais avançada que esteja a medicina, há muitas coisas que ainda nos são desconhecidas. Por esse motivo, fazer afirmações muito veementes sobre alguns pontos polêmicos é temerário. Os conhecimentos sobre o controle do peso e alguns aspectos do funcionamento metabólico ainda são recentes e novidades aparecem com muita frequência. Não conseguimos ainda ter uma ideia absoluta do conjunto, com o envolvimento dos hormônios, dos alimentos (tipo de alimento, horário das refeições, quantidade), do padrão de sono, da microbiota intestinal e talvez outros fatores que ainda venham a ser identificados.

Nos últimos 20 anos, os cientistas vêm tentando entender o ritmo circadiano do corpo humano e de todos os processos fisiológicos envolvidos. Hoje em dia, começa-se a perceber como os hábitos de sono e alimentares pode afetar esse funcionamento e contribuir para o aparecimento de doenças como obesidade e diabetes. Até o momento, duas mudanças comportamentais demonstraram benefício metabólico em estudos experimentais e nos primeiros estudos clínicos; elas foram: melhora do sono e horários das refeições.

 

Controle do ritmo circadiano

Existe uma parte do nosso cérebro chamada Núcleo Supraquiasmático (SCN) que funciona como um marcador do sistema circadiano no corpo humano. Quando a retina capta ondas luminosas como as emitidas pelo sol, acontece uma cascata de eventos, com a ativação de genes no SCN que irão levar à liberação de cortisol após o despertar; com o entardecer, a diminuição da luz acarreta a ativação de outros genes que levarão à liberação de melatonina, sinalizando o momento de dormir. A ativação cíclica dos genes do SCN regulam a expressão de centenas (talvez milhares) de genes em todo o corpo, incluindo muitos genes envolvidos no metabolismo.

Mais recentemente, pesquisadores descobriram que alguns órgãos e tecidos possuem “relógios” próprios e são controlados por genes que possuem uma função cíclica, de acordo com o ritmo circadiano. A oscilação do funcionamento destes genes é mais importante em órgãos envolvidos no metabolismo da glicose, como fígado, intestino, tecido gorduroso e células do pâncreas. Como estes órgãos não são regulados pela luz do sol diretamente, acredita-se que a ingestão de alimentos seja um importante marcador do momento do dia.

Quando os horários em que se come coincidem com aqueles em que os genes do SCN estão ativados, ou seja, os “relógios” centrais e periféricos estão trabalhando em conjunto, o metabolismo funciona de uma forma mais saudável. Mas se houver um desencontro, o que ocorreria se a pessoa come fora de hora (especialmente à noite) ou se a pessoa não dorme bem e permanece acordada durante grande parte da noite, acaba ocorrendo uma dessincronização dos dois “relógios” e problemas metabólicos. Temos uma tendência a metabolizar pior o açúcar que seja consumido em refeições noturnas do que no café da manhã, por exemplo.

Estudo realizados com animais mostraram que problemas envolvendo os reguladores do ritmo circadiano podem causar obesidade e outros problemas metabólicos. Um estudo de 2005 com camundongos que tinham mutações em um gene chamado Clock mostrou que eles tinham grande tendência a aumento de peso, mesmo seguindo uma dieta padrão e também apresentavam síndrome metabólica, aumento do colesterol, aumento da glicemia e diminuição da produção de insulina; além disso, eles dormiam menos e tinham alterações nos horários das refeições.

Outros estudos em que se alterou o horário normal da alimentação dos animais mostraram que eles passaram a ganhar mais peso, mesmo comendo a mesma quantidade e a mesma comida dos animais que se alimentavam no horário habitual; os cientistas descobriram que os genes do SCN ficavam ativados nas 24 horas do dia, o que levava a descontrole do “relógio” dos órgãos periféricos também.

Vários estudos metabólicos já mostraram que pessoas que trabalham à noite têm maior risco de aumento de peso e de desenvolvimento de diabetes. Mutações em genes reguladores do ritmo circadiano foram associados a obesidade e doença metabólica; e uma variante genética no gene do receptor de melatonina está associada ao risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2.

Hoje em dia existe ainda um agravante: por causa do excesso de iluminação nas cidades e do uso de alguns dispositivos eletrônicos que apresentam ondas de luz semelhantes às do sol, muitas pessoas saudáveis passaram a apresentar distúrbios do sono e alterações do ritmo circadiano.

We live in a society where sleep is not respected.

[Vivemos em uma sociedade na qual o sono não é respeitado.]

– Eve Van Cauter, PhD

A privação de sono tem um impacto negativo na tolerância à glicose em muitas pessoas, incluindo adultos e crianças saudáveis, pacientes hospitalizados e naqueles com diabetes. A privação do sono também aumenta a fome.

 

Intervenções práticas

O pesquisador Satchidananda Panda e seus associados desenvolveram um aplicativo para o celular chamado myCircadianClock, que ajuda as pessoas a terem uma ideia de como está o padrão dos horários alimentares, do sono e das atividades diárias, além de ajudar a controlar os horários das medicações e suplementos. Eles iniciaram usando o aplicativo para coletar os dados de cerca de 10.000 pessoas e, com estas informações, pretendem identificar padrões que possam ajudar os médicos no diagnóstico de pessoas com alterações do ritmo circadiano.

Um dos pontos importantes identificados com o aplicativo foi o intervalo das refeições e o consumo alimentar. No estudo inicial com 156 pessoas, percebeu-se que cerca da metade comia ao longo de mais de 15 horas, sendo que aproximadamente 1/3 das calorias era consumida após às 18 horas. Os estudos em animais mostram que restringir a ingestão alimentar a até 12 horas do dia, durante os horários mais ativos do dia, ajuda a melhorar o peso, o metabolismo e o ritmo circadiano.

A equipe do Dr. Panda fez um estudo piloto com 8 dos usuários que estavam neste padrão e pediram para que eles ingerissem alimentos por 10 a 12 horas no dia. Os participantes tiveram redução do peso, passaram a dormir melhor, beliscaram menos e tiveram menos desejo de consumo de alimentos doces.

Embora mais estudos sejam necessários e voltando ao início do texto em que faço referência aos inúmeros fatores envolvidos no controle do peso e nos controles metabólicos, ajustar os horários das refeições pode ser algo simples e que pode trazer grandes benefícios para a saúde de forma geral. Idealmente, não deveríamos comer mais nada após o jantar.

No meu ponto de vista, um aspecto que ainda é muito desafiador é melhorar o padrão de sono nas pessoas que apresentam muitos despertares durante a noite ou que sofrem de insônia. As medidas comportamentais (apagar todas as luzes e evitar o uso de aparelhos eletrônicos antes de dormir entre outras) são extremamente importantes, mas podem não ser suficientes.

Sleep should be considered a pillar of health, with nutrition and exercise. It’s very important to examine the possibility that optimizing sleep might be a lifestyle intervention that might be more successful than dietary restriction or exercise. It’s one more thing people can do.

[O sono deve ser considerado um pilar da saúde, com nutrição e exercício. É muito importante examinar a possibilidade de que otimizar o sono pode ser uma intervenção de estilo de vida que pode ser mais bem sucedida do que a restrição dietética ou exercício. É mais uma coisa que as pessoas podem fazer.]

– Eve Van Cauter, PhD

 

Fonte: The JAMA Network

 

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