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Saudades

Saudades
Saudades

Me lembro da casa pequena em um terreno enorme. O terreno era todo cercado por canteiros de flores, que você cultivava com um carinho sem igual. Eram cravos brancos, rosas e mini rosas de todas as cores, margaridas e muitas outras flores que eu não sabia nomear. Tinha até aquela babosa (que atualmente ficou conhecida por seu nome científico Aloe vera); eu gostava de quebrar um pedacinho da planta pra ver o recheio cremoso que havia nela. Quantas flores eu arrancava pelo simples fato delas serem lindas e eu queria torná-las minhas bonecas: as pétalas das rosas (viradas de cabeça para baixo) eram as saias dos vestidos de baile. Não havia muitos brinquedos, mas não faltava a imaginação para criar os meus próprios brinquedos exclusivos.

Apesar do seu carinho com as plantas, não me lembro de você ter brigado pela destruição do seu jardim.

Corria para o quintal de trás, com sua pequena grade e o portão que abria na escada. A escada que levava a um mundo mágico. Descia aquela escada para o imenso espaço de terra, onde você cultivava as árvores mais incríveis das melhores frutas que eu já comi na minha vida. Eram as maiores e mais doces jabuticabas que poderiam existir. Era impossível para mim (e ainda é) imaginar que pudesse haver algo melhor no mundo!

E tinha a figueira, o mamoeiro, o coqueiro, a mangueira (que na verdade, ficava no quintal da vizinha, mas suas frutas chegavam até o nosso quintal). Ali você criava suas galinhas, que você matava sem crueldade ou sofrimento, mas como algo que fazia parte da vida. Eu me lembro do ritual. Não era macabro. Eu não me entristecia. Era algo necessário para nosso almoço de domingo. Eu, minha irmã e minha mãe também ajudávamos: passar as penas na água fervente, arrancá-las, queimar as pontinhas da pele da galinha (o que deixava aquele cheiro horrível na cozinha). Cortávamos e limpávamos; a moela era a pior parte. E você cozinhava os ovinhos que estavam dentro dela para que comêssemos. Como pode haver beleza e saudades nesse ritual que preenchia os finais de semana da minha infância?

Quando havia coco maduro, você derrubava, abria, descascava, ralava. E lá vinha sua cocada maravilhosa, feita em pedaços. E não era apenas a cocada. Quando tínhamos milho, descascávamos todas juntas, e você preparava o curau e a pamonha. Era doce de abóbora, de mamão, de banana. Não se perdia nada. Você sempre conseguia dar um destino para tudo.

E nos fazia os vestidos com casinha de abelha; vestia as três iguais, mudando apenas a cor do vestido. E costurava outras roupas. Lavava. Passava.

Ensinei a você os jogos de baralhos. E tantas outras coisas que eu aprendia na escola e que você nunca tinha ouvido falar. E você escutava e desejava aprender, apesar dos 45 anos que tinha a mais do que eu.

Eu herdei seus olhos azuis e sua pele muito branca. Herdei sua vaidade, seu gosto por perfumes e cremes. Mas era uma vaidade de quem nunca teve muito, de quem sempre trabalhou demais, de quem ficou órfã cedo e teve que cuidar de todos os irmãos e depois de todos os cunhados. Nunca vi preguiça nos seus olhos. Nunca algo feito de má vontade.

Você sempre teve opiniões firmes (e nem sempre justas). E acabei me afastando de você. Passei distante os últimos meses da sua vida, quando você já não andava e não se conformava com isso.

Eu precisava defender meu ponto de vida, mas poderia ter sido menos dura, menos intransigente. Agora você não está mais aqui para que eu possa lhe dar meu abraço. Para você, a vida não valia a pena sem poder andar, sem poder cumprir todos os rituais com os quais conseguiu manter a família unida.

E é só em sonho que eu posso esperar vê-la de novo. Há um ano você se foi. Acabou seu sofrimento. Eu sabia que você precisava ir. Permanece a saudade infinita e essas lembranças que ninguém pode roubar de mim.

 

Minha avó (19/10/1925 a 18/09/2014)

– Sílvia Souza

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