Now reading

Reflexões pessoais sobre a Operação Carne Fraca

Reflexões pessoais sobre a Operação Carne Fraca
Reflexões pessoais sobre a Operação Carne Fraca

Sou do interior do Estado de São Paulo. Passava sempre minhas férias na fazenda do meu avô, pai da minha mãe. Ele foi um descendente de imigrantes espanhóis que chegaram ao Brasil sem nada; ele estudou o suficiente para ser alfabetizado e trabalhou muito duro a vida inteira para construir algum patrimônio. Não recebeu nada de mão beijada nem teve benefícios públicos. Sua história de vida é uma das mais bonitas que já conheci.

Vivo em meio aos bois desde pequena. Os negócios da família sempre envolveram a pecuária. Agora estou aprendendo de fato sobre ela e vou iniciar um MBA em Agronegócio para profissionalizar a atividade.

O que posso dizer é que a Pecuária mudou muito. Hoje em dia, precisamos de muitos investimentos tecnológicos para melhoria genética do gado, seleção dos melhores animais, investimentos em gramíneas mais adaptadas, vacinas, rações adequadas, investimento nos funcionários que cuidam dos animais. Não é uma atividade barata nem fácil. Como todo tipo de trabalho e de produção, envolve conhecimento, capacitação e muita dedicação.

Temos também as exigências do meio ambiente e nosso compromisso em zerar as emissões de carbono. Os produtores trabalham no reflorestamento e na associação lavoura-pecuária para melhorar a produtividade e diminuir a poluição atmosférica.

São muitos detalhes que as pessoas que estão de fora não enxergam. E tudo isso com uma margem bastante estreita, porque o preço do boi vem caindo. O preço da carne no supermercado pode não ter reduzido, mas o preço pago para os produtores pelos frigoríficos está caindo; levando-se em conta a inflação e o aumento de preço de tudo o que é comprado, a margem da produção de carne e leite está cada vez mais estreita.

Apesar de todas as dificuldades, o efetivo de bovinos chegou, em 2015, a mais de 215 milhões de cabeças. Temos o segundo maior rebanho do mundo (22,5% do total mundial), atrás apenas da Índia. O país também foi o segundo maior produtor de carne bovina, participando com 16,3% da produção global. Os Estados Unidos (maior produtor mundial), o Brasil e a União Europeia, juntos, respondem por cerca de 48,5% da carne produzida mundialmente.

Em relação à exportação de carne bovina, o Brasil ocupou a terceira posição do ranking internacional em 2015, sendo Índia e Austrália, respectivamente, os maiores exportadores.

A qualidade da nossa carne vem melhorando progressivamente para fazer frente aos mercados mais exigentes. E temos investido nisso, apesar de algumas competições desleais. O Brasil produz o boi “verde”, alimentado apenas a pasto e rações baseadas em cereais, como milho. Não usamos nenhum tipo de estimulante hormonal para aumento do peso mais rapidamente. Os bois criados nos Estados Unidos são engordados com implantes hormonais, para que tenham um ganho de massa muscular e de massa gorda com maior velocidade. Nossa melhoria vem apenas da seleção genética e dos cuidados com pasto e ração.

Quando falamos dos frigoríficos e das irregularidades da Operação Carne Fraca, condenamos a carne; mas o produtor não é culpado e nossa carne é boa. Novamente, a culpa vem de governos que amplificaram as práticas de corrupção a níveis nunca vistos antes.

Contávamos com vários frigoríficos menores, o que era saudável e favorecia a competitividade. Com o investimento do BNDES no JBS, criou-se quase um monopólio da carne. Meu intuito com este artigo não é de forma alguma defender o JBS (muito pelo contrário), mas apenas mostrar que nossa Agropecuária é forte e importante e a crise que vivemos não foi pior até agora por causa dela. Neste momento, tenho sérias dúvidas sobre o rumo da economia. O que estava ruim pode piorar muito, porque a Agropecuária envolve milhões de pessoas e muitos ramos de negócios que foram fragilizados pela forma como as notícias foram veiculadas.

Quero que toda a corrupção seja combatida. Quero que todos os responsáveis sejam presos. Mas não podemos endemonizar quem produz de forma correta e quem ainda acredita no país.

Precisamos travar as batalhas, mas de forma consciente e responsável e sem colocar todos os frigoríficos no mesmo balaio, porque a grande maioria é correta e está preocupada em manter o país à frente das exportações de carnes e ajudar a melhorar nossa balança comercial e a entrada de capital, com a qualidade e cuidado que a produção de alimentos exige.

Temos que nos unir nos momentos difíceis e ajudar a punir os verdadeiros responsáveis que, mais uma vez, acabam sendo nossos políticos que sempre dão um jeito de amplificar sua teia de corrupção e de impunidade.

Eu precisava passar essa mensagem e espero que todos pensem um pouquinho, pelo bem do país.

 

Written by

4 Comments
  • carlos disse:

    Olá Silvia, é que na Espanha, a Política Agrícola Comum, PAC, os subsídios estão promovendo para comercializar má qualidade carne bovina, a alimentação do gando com farinha de peixe e drogas que visam a retenção de líquidos, como substitutos legais do nefasto Clembuterol. Um beijo.

    • Silvia Souza disse:

      Estes produtos são usados na carne produzida na Espanha?
      Aqui, o produtor procura fazer tudo certo. Não sei se todos, mas digo pelo meu pai e meus tios e por depoimentos de outras pessoas da Pecuária.
      O grande problema é a corrupção; fiscais acabam se vendendo, assim como outras pessoas responsáveis pelo processamento dos produtos.
      É uma pena!
      A corrupção é a coisa mais corrosiva para uma sociedade.
      Beijo!

Instagram
  • #albertcamus #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #lamatseringeverest #citações #budismo #reflexõesdesilviasouza
  • #honorédebalzac #citações #trechosliterarios #amulherdetrintaanos #reflexõesdesilviasouza
  • #edmundburke #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #rubemalves #citações #reflexõesdesilviasouza