A outra carta
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Raiva

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Raiva

Era uma mulher controlada. A vida toda tinha sido controlada. Não falava alto. Não perdia a calma. Não alterava a voz. Conseguia sorrir nos momentos mais tensos. Tinha sempre uma palavra amiga quando percebia que alguém perdia o controle da situação. Coisa que nunca ninguém tinha visto acontecer com ela.

No trabalho, mantinha-se calma, educada, atenciosa. Pronta a escutar mais do que a falar. Tratava seus subalternos com enorme respeito e todos queriam trabalhar com ela.

Dedicava tempo aos filhos. Jantava com eles todas as noites. Ajudava na lição de casa. Abraçava, beijava, fazia carinhos constantes. Raramente precisava levantar a voz. O diálogo estava presente sempre, mesmo nos assuntos mais difíceis dos pais conversarem com os filhos.

Falava com os pais todos os dias. Escutava as queixas, os problemas, as dores. Ouvia e dizia algo que trouxesse algum conforto, algum otimismo.

Dedicava um tempo diário para si mesma, como uma forma de equilibrar suas energias. Meditava. Exercitava-se. Escrevia. Lia. Construía sua paz nas suas orações. Entendia que o autodomínio era essencial para a convivência com as outras pessoas. Dessa forma, sentia-se respeitando a liberdade de todos e acreditava que seria uma forma de ter sua própria liberdade respeitada.

Houve um dia em que um evento turvou a tranquilidade de sua paz. Ela se apaixonou. Não foi uma paixão qualquer. Foi um sentimento avassalador, daqueles que destrói tudo à sua frente, sem pedir licença. Ela mesma não sabia explicar… não entendia… não tinha controle… E isso a desestabilizou. Não consentia com a possibilidade de não comandar suas emoções e sua forma de agir.

Ele a conquistou. Ela foi seduzida, transformada; passou a viver coisas que não tinha experimentado antes em sua vida correta e controlada. Ele fez promessas de viagens, de futuro, de amor eterno. E as barreiras do seu afeto, sempre mantidas pela razão, romperam-se mediante o calor daqueles olhos castanhos. Ela se entregou.

Um dia, ela soube. Ele não poderia cumprir as promessas. Ele não era forte o bastante para dar o passo em direção de uma nova vida. Ele era preenchido pela covardia do comodismo; aquela que prefere manter a vida como está, mesmo que tomada pela mediocridade, porque tem medo de enfrentar o desconhecido. Ele pediu desculpas pelas promessas vãs, sem ter a hombridade de a olhar nos olhos.

Ela não soube dar nome ao sentimento que a dominou. Ela sentia algo queimar dentro de si mesma, algo irracional e selvagem, que desconectou toda sua razão daquele corpo violentado pelo desrespeito. Ela, que sempre achara que seria respeitada por manter sua postura tão correta e honrada. Era uma dor tão brutal, que não havia meditação ou leitura ou escrita ou grito ou prece… nada que acalmasse aquele fogo que ardia dentro de si. Ela tinha vontade de se mutilar, de se ferir, como uma tentativa desesperada de conseguir localizar a dor no seu físico, o que seria mais fácil de curar e de aplacar.

Depois de chorar por horas, esquecendo-se da presença dos filhos com seu olhar de incompreensão, evitando falar com quem quer que fosse porque a ira calava sua capacidade de articular palavras e ela apenas conseguir rugir como uma leoa ferida, com os olhos vermelhos e inchados e sem nenhum controle dos seus atos, ela se sentou ao computador.

E, usando a arma mais letal dos dias atuais, ela descarregou toda sua raiva irracional no teclado, escrevendo o que não conseguia verbalizar, contando toda a sua história naquele e-mail venenoso e brutal. E, sem refletir, apertou o botão de enviar. E sua carta seguiu, repleta de raiva e perversidade, para a caixa de entrada da outra, da mulher legítima, daquela de quem ele não tinha conseguido se afastar.

– Sílvia Souza

 

 

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