Meu fracasso como mãe
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Quando a mudança se fez necessária

Beleza
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Quando a mudança se fez necessária
Quando a mudança se fez necessária

A Beatriz Aguiar do Blog Since85 propôs duas publicações coletivas do Projeto Vai um Café para o mês de Março. Uma delas foi sobre o Dia Internacional da Mulher (Afinal, o que queremos?). A outra é sobre mudança; qualquer tipo de mudança. Acho que eu teria várias histórias para contar com esse tema: mudanças de casas, mudanças de trabalho, mudança de profissão, mudança de crença, mudança de vida… tantas decisões importantes que implicaram em reviravoltas completas; algumas vezes levando a algo melhor, outras vezes a muita dor e sofrimento e, em alguns casos, arrependimento. Mudar (seja qualquer tipo de mudança) nunca é fácil. Até mesmo mudar a cor do cabelo pode ser traumático (uma vez tentei ficar ruiva e foi um desastre completo).

Entre tantas opções que eu tinha, resolvi escrever sobre uma decisão difícil, sofrida, mas que tem certo glamour para quem olha de fora.

Em dezembro de 2004, meu marido recebeu um convite para fazer um pós-doutorado na Universidade de Paris. De imediato, ele negou. Nem mesmo pensou a respeito. Poucos dias após essa negativa, ele recebeu um e-mail com uma nova proposta em que alguns termos haviam mudado. Não era mais para um pós-doutorado, mas um convite para que ele fosse como Professor Convidado da Universidade de Paris.

Assim que ele me comunicou o convite (eu estava trabalhando nesse momento), passei a procurar na Internet opções de serviços de pós-graduação nas proximidades do dele para que eu também pudesse estudar lá.

Ao chegar em casa, ele me disse que não iria. Impossível! Tínhamos 2 crianças, uma de 3 anos e outra de menos de 1 ano, não falávamos francês… sem chance! Esse foi um dos momentos em que precisei trazê-lo de volta à razão. É claro que iríamos! Como assim? Esse seria um passo importantíssimo na carreira dele. Faríamos aulas particulares de francês. Daríamos um jeito!

Nossa mudança ficou decidida. Mudaríamos para a França em 6 meses. Havia muita documentação para ser providenciada, tradução juramentada de muitos documentos, visto de permanência, passaportes das crianças. Fazíamos as tais aulas particulares. Trabalhávamos e cuidávamos das etapas finais da obra de um apartamento; teríamos que nos mudar em São Paulo ainda antes de irmos para a França. As mudanças propostas pelo arquiteto foram todas revistas e teríamos que nos mudar sem móveis e decoração.

Como nada em nossas vidas acontece de forma simples, nesses 6 meses que antecederam a partida, meu marido começou a se afastar de mim progressivamente. Emagreceu, passou a se arrumar mais, usar perfume para trabalhar e interagia cada vez menos comigo que, envolvida demais com os filhos, viagem e apartamento novo, demorei muito tempo para me dar conta de que não nos falávamos mais e de que ele evitava qualquer tipo de contato comigo.

A data da partida se aproximava e eu senti que vivia uma situação de imensa incerteza. O que estava acontecendo? Ele chegou a cogitar que eu ficasse em São Paulo com os meninos. Proposta que não foi aceita, já que ele também não tinha coragem de tomar nenhuma atitude mais drástica.

Às vésperas da viagem, ele adoeceu e ficou internado por cerca de 1 semana. Mudei de apartamento sozinha. Arrumei tudo para a viagem sozinha. Após sua alta, partimos para a França, os 4, sendo que eu e ele não trocávamos nenhuma palavra além do absolutamente essencial.

Parti para um país estranho, onde eu só tinha estado 1 vez, quase sem compreender a língua, ainda sem apartamento para morar, com 2 filhos pequenos, sem ninguém para me ajudar, e sem um companheiro que pudesse me amparar nas incertezas que estavam por vir.

Como foi morar na França? Foi o melhor ano da minha vida.

Minha vida profissional? Ficou absolutamente parada, porque não havia creche para meu filho caçula e o mais velho não se adaptou à escola. Passei 1 ano exclusivamente como mãe e dona de casa.

A vida profissional dele? Ele teve um ano espetacular, com muita produção científica, muitas publicações, que permitiram que ele fizesse um concurso para Professor Livre Docente ao final do nosso ano na França e, logo a seguir, fosse aprovado no concurso para Professor Associado da Faculdade. Teve um reconhecimento mundial dentro de sua área de trabalho.

Sinceramente? Não sei se há muitas pessoas que conseguiriam enfrentar tudo o que tive que encarar nessa mudança. Houve dias em que pensei em largar tudo e voltar para o Brasil, para meus pais, para minha família. Eu não estava lá por mim. Estava lá apenas por uma aposta em um futuro que era absolutamente incerto. E, mesmo assim, vesti minha armadura e parti para a luta. Ao final, tive sim o reconhecimento. Renovamos nossos votos de 10 anos de casamento e ganhei uma aliança Cartier (original).

Posso ser frágil em muitos aspectos. Mas sempre soube encontrar meu lado forte quando precisaram de mim. As mudanças são necessárias. Temos que aceitá-las, enfrentá-las, adaptarmo-nos a elas enquanto estivermos aqui. É o que torna a vida interessante.

– Sílvia Souza

 

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19 Comments
  • Beatriz Aguiar disse:

    U-a-u. Caramba, Silvia!
    Sem palavras, minha querida. Apesar de nunca ter duvidado da tua força, cada novo post pessoal que leio, fico mais e mais surpresa com a tua força de mãe e mulher.
    Não à toa que te elogio sempre.

    Um abraço, e que essa força só venha a crescer!

    • Bia… é sempre bom ler seus comentários…
      Acho incrível como tenho a sensação de que você sabe exatamente quem eu sou, mesmo que nunca tenhamos nos visto.
      Eu tenho muita admiração por você, por sua atitude autêntica… Isso é raro hoje em dia…
      Um super beijo!

  • Raquel Marins disse:

    Que maravilhoso! Esse tema é tão bom que dá pra transbordar.. assim como você fez. Parabéns pela força!! Parabéns.

  • Que belo relato, Silvia. Fico muito feliz que tenham conseguido superar a turbulência e desfrutar da experiência. Beijos!

    • Olá, Thaís…
      A verdade é que acho que todas as nossas experiências podem ser aproveitadas de alguma forma, mesmo que seja para um aprendizado, não é?
      Não foi um período fácil, mas foi uma época muito especial da minha vida.
      Beijo!

  • Anas há muitas disse:

    Há alturas em que sentimos que, para a vida evoluir, temos de fazer sacrifícios, nem que isso dê uma reviravolta à vida. És uma grande mulher.

    • Obrigada, Ana!
      Não sei ficar acomodada a uma situação. Vejo muitas pessoas evitarem mudanças por medo do desconhecido. Isso nunca me acovardou. Nem sempre acertei; mas quando temos que tomar uma decisão, não conseguimos prever o futuro, por mais que avaliemos todas as variáveis e possibilidades.
      Às vezes, acho que ser como eu sou traz mais sofrimento… Mas há coisas que não conseguimos mudar, não é mesmo?
      Um lindo dia!

  • Lari Reis disse:

    Todos nós somos frágeis, em diferentes aspectos. O segredo está mesmo em saber encontrar nossas forças. Sabe, uma das coisas mais bonitas da vida é quando a gente sabe agir pelo outro sem, claro, entrarmos em uma de nos prejudicar cegamente. Sacrifícios podem ser recompensadores e só quem tem coragem descobre isso!

    • Não é fácil avaliar cada situação e até onde devemos fazer concessões…
      Ainda me questiono muito sobre decisões passadas e as que tenho que fazer em cada escolha da minha vida…

  • Que história incrível, amei. Não sei se eu teria ido se meu marido tivesse agindo como o seu agiu mais provável que tivesse mandado ele ir para aquele lugar e ficado no Brasil mesmo rss
    Eu sou medrosa sabe , descobri isso recentemente o problema? Deixei o medo me paralisar e agora luto com ele todos os dias… Mas espero e busco dar meu grito de liberdade e ter uma vida.
    Nunca namorei, não tenho amigos, sou virgem, não sei o que é amar e ser amada ou um beijo apaixonado nunca tive. Poderia ter sido diferente mas não foi então meu medo hoje é não conseguir me libertar bem isso e ao mesmo tempo não quero viver igual aos outros… Um emprego qualquer, namorar por namorar… Sabe quero algo que nem sei direito, quero o extraordinário tenho me recusado a viver igual aos outros e isso tem causado muitos problemas, ainda mais que dependo de meus pais pra viver e meu pai vai fazer 70 anos… Nem preciso falar o quanto isso me assusta e assombra.
    Enfim, belo texto. Do lado de cá sigo lutando.

    • Olá, Fernanda!
      Obrigada por escrever um pouquinho sobre você também.
      Eu era do tipo que tentava colocar regras em tudo o que eu fazia, na minha forma de agir, programando cada passo que eu deveria dar. Até me dar conta de que a vida não acontece assim. As coisas vêm de forma inesperada e temos que nos abrir para as novas experiências, aprender com os erros e tentar melhorar sempre.
      É o que eu tento fazer.
      Espero que sua luta pelo extraordinário permita que você escreva sua história com muita beleza e muitos aprendizados.
      Beijo grande!

  • Posso usar o cantinho aqui para fazer um pedido?
    Me ajudem a entrar no projeto Vai um Café? pooooor favor, já mandei mensagem, já tentei falar com uma das admins (Que não respondeu até hoje) to no chororo aqui doida para fazer parte e sendo chata porque quero demais e muito mesmo fazer parte, participar….
    É algo com minha cara, do meu jeito, como eu gosto rsss e sinto falta de fazer parte de algo assim, to tão apaixonada, amando tanto ler os textos, conhecer os blogs, quero muito mesmo…me ajudem a ganhar esse presente, fazer parte desse projeto vai, pleaseeeeee
    Silvia…desculpa usar aqui o blog mas como amei seu blog e to amando todos os blogs do projeto to cá eu pedindo ajuda, força rssss

  • Bruna Both disse:

    Reli o post e depois de muito repensar eu tive que escrever algo por aqui também… É sempre interessante ver as mudanças que acontecem na vida dos outros também, isso faz sempre nos sentirmos mais humanos. As vezes enfrentamos tantos problemas na vida pessoal que achamos que somos os únicos portadores de problemas, mas na realidade todos tem os seus (maiores ou menores). Fico orgulhosa de você por ter feito o que fez, fico feliz também por ter acabado tudo certo 🙂
    Te desejo ótimos dias! Abraço!

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