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Por uma medicina mais humana

Por uma medicina mais humana
Por uma medicina mais humana

Pretendo comentar um assunto bastante delicado, mas é um tópico que me incomoda há muito tempo.

Quem segue o blog deve saber que sou médica e sou apaixonada pela minha profissão. Mas para quem precisa ir a um médico ou frequentar um pronto atendimento ou um hospital ou um centro diagnóstico aqui no Brasil, fica evidente que a medicina e a saúde estão enfrentando problemas graves e complexos.

Eu não sou capaz de apontar uma causa central ou única. A situação envolve tantas questões que seria muito simplista dizer que é apenas uma questão de falta de médicos ou de má vontade.

O Brasil é um país gigantesco e nossos recursos são muito mal distribuídos. Sem infraestrutura de hospitais e equipamentos, fica muito difícil convencer bons profissionais a se deslocarem para as regiões mais distantes dos grandes centros. Para corrigir essa situação específica, deveria haver um planejamento combinado de investimento estrutural e de incentivo ao deslocamento.

Mas não há apenas o problema da saúde pública (SUS) e suas distorções. O setor privado também enfrenta problemas crescentes. As operadoras de saúde ficam super controladas pelas determinações do governo e tentam driblar da maneira que podem as imposições, evitando prejuízos e falências. São empresas cujo objetivo é ter o resultado positivo, como todas as empresas de outros setores.

Tem sido cada vez mais difícil para pessoas que não trabalham (idosas ou aposentadas) ou autônomas que não sejam vinculadas a algum órgão de classe (como a OAB ou AMB) fazerem um plano de saúde como pessoa física. São pouquíssimas operadoras que trabalham com planos para pessoas físicas e as mensalidades são abusivas. Como se não bastasse, normalmente são planos muito limitados, que impõem inúmeras restrições e carências e não cobrem bons serviços diagnósticos, nem bons hospitais.

A maioria das operadoras remunera muito mal os médicos credenciados (há exceções, mas são poucas). O médico acaba marcando um número enorme de pacientes em seu dia de trabalho, o que faz com caia o tempo de consulta e, consequentemente, a qualidade da mesma. A solução que muitos adotam é de pedir exames para suprir a consulta resumida. Mas os exames também vêm sendo controlados com maior rigor pelas operadoras de saúde.

Honestamente, não sei qual será o desfecho dessa história de terror. Quem paga pelo plano de saúde gostaria de ter um bom atendimento. A empresa precisa ter lucro ou ela quebra. Os médicos precisam pagar suas contas. Os hospitais e laboratórios precisam fazer muitos exames ao menor custo possível. Será que há alguma forma de tornar esse sistema viável e saudável para todos?

Minha maior motivação para escrever esse texto nem foi toda essa complicada problemática da nossa saúde. Pretendia focar na questão da falta de humanidade na medicina e na saúde como um todo. Com todas essas questões, fico com uma impressão crescente de que a saúde virou um negócio apenas. Muitos acabam se esquecendo de que estamos lidando com pessoas, que podem ou não estar doentes, mas, com muita frequência, estão ao menos fragilizadas por estarem se submetendo a exames, a procedimentos cirúrgicos ou a uma consulta médica.

Conheço inúmeros profissionais maravilhosos, que dedicam a vida aos pacientes, independente da remuneração. Conheço técnicos e enfermeiros que acolhem, escutam e fazem muito mais do que lhes seria necessário fazer. Embora ainda haja um número enorme desses profissionais, eles estão ficando mais raros.

Não é infrequente, ao término das minhas consultas, algum paciente comentar que não via mais médico que examinava, que colocava a mão no paciente… Como assim? Se fosse apenas uma pessoa me contando isso, acho que eu duvidaria… mas são várias. Mulheres que vão a ginecologistas que nunca examinam, apenas pedem exames e avaliam os resultados. Médicos que não disponibilizam tempo para conversar, para escutar o que aquela pessoa insegura que está à sua frente tem a dizer. Alguém tem prazer de ir ao médico? Com exceção de alguns hipocondríacos, quem vai ao médico é porque não está se sentindo bem, seja física ou emocionalmente.

Houve uma ocasião em que alguém ficou surpreso porque eu sabia ouvir. Achei até engraçado e falei que escutar o que as pessoas tinham a dizer era minha função. No tempo da consulta, não gosto de ter outras distrações.

Estou longe de ser a profissional que eu gostaria de ser. Mas percebo que a maioria dos pacientes não tem o mínimo acolhimento que eles deveriam ter. Nossa função não é apenas de salvar vidas, mas de tratar as pessoas; e o contato humano e a atenção talvez sejam tratamentos mais eficazes que muitos medicamentos.

– Sílvia Souza

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8 Comments
  • Marcia Cogitare disse:

    É muito triste ver o panorama da saúde no Brasil e como a formação desses profissionais parecem reforçar uma relação de médico e não pessoa com seus futuros pacientes.

    E quando encontramos alguém que entende que vc está tratando um ser humano e não apenas uma estatística ou objeto de estudo, é realmente chocante.

    Hug

  • Anas há muitas disse:

    O meu País é pequeno e pobre, mas ainda assim, se os utentes soubessem a sorte que temos com o Serviço Nacional de Saúde, parava de reclamar.

    • Mas acho que é nossa tendência humana de não estarmos nunca satisfeitos.
      E talvez haja motivos para querer brigar por melhorias.
      Infelizmente, há sempre países em que a situação é pior…

  • Eduarda Naidel disse:

    Infelizmente é uma situação que acabamos vendo em qualquer área… As pessoas estão se fechando ao contato do outro e se dedicando cada vez menos ao desenvolvimento das habilidades sociais. Uma pena que tenhamos profissionais assim.

    • Silvia Souza disse:

      Concordo com você, Eduarda…
      As pessoas estão perdendo a capacidade de relacionamento. Escutar o outro é coisa que dá trabalho… ninguém quer…
      Beijo grande e um lindo domingo!

    • Olá, Eduarda!
      Concordo plenamente com o que você escreveu…
      As relações sociais estão ficando cada vez mais complicadas em todas as áreas… e quase ninguém quer ter o “trabalho” de escutar o que o outro tem a dizer…
      Um lindo sábado para você!
      Beijo!

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