Desprezo
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Pesadelo

Pesadelo
Pesadelo

Em quase todas as madrugadas, ela acordava chorando. Punha-se de pé, apoiada nas barras, e tentava chamar a atenção de alguém com seu pranto angustiado. Tinha medo da escuridão. Seu soluço ia crescendo pouco a pouco, ao perceber que estava sozinha e que ninguém viria em seu socorro. O choro se transformava em gritos desesperados que faziam com que ela perdesse o fôlego e engasgasse com as lágrimas.

Ninguém sabe ao certo quais são os pesadelos que assombram uma criança; em especial uma criança que ainda não sabe falar e se expressar.

Talvez fosse uma amplificação do abandono ao qual ficava entregue durante os dias, enquanto seus pais trabalhavam e ela era colocada quieta em um canto, até que o serviço de casa fosse feito pela empregada.

Ou quem sabe voltassem, no meio da noite, os gritos de irritação da moça (que supostamente deveria cuidar dela) nos momentos em que a menina pedia atenção ou chorava de dor ou de fome.

Podia ser o medo das ameaças violentas; o pavor das refeições, quando a comida era enfiada pela sua boca com impaciência; o pânico das trocas de fraldas, quando mãos ríspidas e agressivas apertavam suas pequenas perninhas e limpavam com raiva suas partes íntimas ainda inocentes.

Ela tinha medo de ficar sozinha e tinha medo de ter alguém ao seu lado. Temia fazer qualquer coisa que pudesse desencadear alguma resposta violenta e hostil.

A única coisa que a alegrava eram os poucos momentos em que escutava as músicas dos disquinhos coloridos que giravam na vitrola, em uma mágica que a hipnotizava.

No restante do tempo, ela tinha medo. Sempre aquele terror que fazia com que seu pequeno coraçãozinho acelerasse sem motivo e com que ela procurasse sempre agradar, num desespero de receber um abraço e um carinho.

E, nas longas noites, ela acordava. Sufocada. Quase sem conseguir respirar. Angustiada. Desesperada com os pesadelos que ela jamais conseguiria contar para ninguém. Sonhos que não permaneceriam na lembrança, mas cujas sensações jamais seriam esquecidas.

Em algumas noites, era assim: um choro desesperado para ninguém. Ela se punha de pé no berço, presa pelas grades à prova de acidentes. Mas o acidente estava ali, preso com ela dentro das grades. Era a solidão dos soluços sem resposta, da escuridão assustadora que a assombrava com suas sombras indefinidas e desconhecidas.

Ela apenas queria ser retirada de lá, abraçada, acalentada. Queria que alguém a pegasse no colo, para que ela pudesse escutar o som cadenciado e calmante de um batimento cardíaco.

Mas, em algumas noites, não havia resposta. Ela se percebia só, abandonada, desesperada, engasgando com as próprias lágrimas, até que a exaustão chegasse e ela, finalmente, conseguisse adormecer de novo, talvez embalada pelo toque do anjo protetor dos inocentes.

– Sílvia Souza

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9 Comments
  • Tertuliano Miguel de Arêa Leão disse:

    Que pai e que mãe, não volta no tempo, tentando ver onde falhou com seu filho? Muito bem colocado! Gostei.

  • Eder Oelinton disse:

    Palavras verdadeiras em muitos ambientes sociais. Muito bom.

  • Mais um belo texto.

  • laynnecris disse:

    Que intenso esse texto. Quantos traumas vivemos ou quanto traumas infringimos. É triste não poder se defender e não ter como lutar.

    • Silvia Souza disse:

      Não sei se essas experiências da fase mais precoce da infância podem mesmo deixar uma marca em quem somos. Mas eu acredito que sim.
      Acho que como mães (você é mãe também, né?), é inevitável não errar; afinal, somos humanas.
      Mas o que me incomoda muito é que muitos pais simplesmente não se importam.
      Um lindo dia!
      Beijo grande!

      • laynnecris disse:

        É triste. Mas, temos um monte de filhos vivos e que juntos estão dos pais mas, são abortados por eles, pela escola… são criados pela internet, pela televisão, pela rua… etc. Depois as pessoas não sabem o por que dessa nossa “educação”…

  • Carlos Moya disse:

    É uma história triste, apesar dos conselhos recebidos pelo contrário, eu nunca deixe que meus filhos chorasem sem encontrar conforto em meus braços. Um abraço.

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