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Perfumaria: Revista NEZ – Volume 2

Perfumaria: Revista NEZ – Volume 2
Perfumaria: Revista NEZ – Volume 2

O terceiro número da revista NEZ está para ser lançado. Acabei recentemente de ler o segundo volume. É até estranho chamá-lo de revista, porque seu conteúdo extremamente cuidadoso e extenso faz com que se assemelhe mais a um livro especializado.

Este volume contém vários artigos distribuídos em 152 páginas. A revista não é específica sobre perfumes, mas sim sobre odores, sobre o funcionamento do olfato, sobre moléculas odoríferas e, claro, também sobre perfumes.

Uma coisa interessante nesta edição é que o tema central envolve os odores normais de nosso corpo e de seus fluidos, o que não parece muito atraente em um primeiro momento. Há uma matéria sobre o aroma do sangue, como funciona o olfato da gestante, todos os odores do bebê (desde o cheiro da loção Mustela, bastante típica na França, até o cheiro do regurgito e do cocô), os odores de sujeira que nosso corpo pode exalar e por que eles surgem.

Além dos odores bons ou ruins do nosso corpo, os cheiros que encontramos à nossa volta: o metrô de Paris, nosso quarto, aqueles ligados aos vinhos. São reportagens muito bem feitas do ponto de vista científico e extremamente interessantes, porque são pequenos detalhes do nosso cotidiano.

Embora possamos não prestar muita atenção aos aromas de forma geral, é impossível não senti-los, porque as moléculas chegam até nós enquanto respiramos, queiramos ou não. E o olfato é o sentido mais vinculado às memórias e nossas lembranças, justamente porque o cérebro não chega a processá-lo como faz com a visão. Sentimos da forma pura e imediata todos os cheiros à nossa volta. Bons ou ruins, eles podem nos remeter a lembranças específicas de fatos vividos.

Logo no início, são criados personagens fictícios com características específicas para fornecer opções de perfumes que combinariam com estes personagens.

Fala-se sobre as essências de Mimosa, do Almíscar (Musc) e da Rosa e seu uso na perfumaria.

Uma reportagem que achei deliciosa de ler foi Dans le silage de Wes Anderson de Clara Muller, que fala sobre os aromas e perfumes descritos em todos os filmes do cineasta Wes Anderson, com enfoque especial para a criação fictícia L’Air de Panache, usado pelo personagem Gustave H., interpretado por Ralph Fiennes no filme O Grande Hotel Budapeste.

Uma entrevista incrível com o grande nome da perfumaria Jean-Claude Ellena, que esteve à frente das criações da Hermès (em perfumaria) de 2004 a 2016. Recentemente, ele se aposentou do seu trabalho na maison e passou o trabalho para a perfumista Christine Nagel, que já fez seu primeiro lançamento (que eu estou desesperada para conhecer!!!).

Perfumes que marcaram a década de 1990 e suas campanhas publicitárias, como Trésor de Lancôme, Allure de Chanel, Champs-Elysées de Guerlain, entre outros.

Uma reportagem maravilhosa com dois historiadores, Alain Corbin e Georges Vigarello, que falam sobre os aromas ao longo dos séculos; foi muito interessante um ponto de vista que eles colocaram que nós pensamos em como seriam os cheiros de Versailles com nossa mentalidade atual, nossa noção de higiene e de limpeza. Simplesmente, eles não viam da mesma forma, porque não tinham a mesma concepção que nós temos atualmente.

Uma outra matéria que achei excepcional foi Tour du monde du propre, escrita por Béatrice Boisserie. Ela conta sobre o surgimento dos aromas que precisam acompanhar cada produto de limpeza das roupas ou da casa e que estes aromas mudam de acordo com a cultura, com o país e outras características próprias. Ela menciona que, aqui no Brasil, gostamos muito dos aromas com lavanda, o que difere dos Estados Unidos, da França e de países da Ásia. Além destes aromas próprios de cada lugar, as empresas que desenvolvem os aromas precisam lidar com outros problemas referentes aos produtos: a forma de adicionar o aroma a um sabão em pó é diferente de um sabão líquido; e existem lugares onde se usam máquinas de lavar roupas que aquecem, o que significa criar aromas que sejam resistentes ao calor. Eu nunca tinha parado para imaginar um universo tão complexo envolvendo os aromas. Tudo isso está muito além do universo dos perfumes de luxo (e ao mesmo tempo muito mais inserido em nossas rotinas diárias).

Essa revista é absolutamente incrível e digo isso como amante de perfumes e como alguém que gosta das ciências (química, neurofisiologia, psicologia, e tantas outras envolvidas no universo olfativo).

 

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