Meu Conto de Fadas
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Pensamentos

Cassino
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Mãe. Esposa. Dona de casa. Filha. Profissional. Mulher. Ela era tudo isso. E muito mais. Irmã. Amiga. Motorista. Era a primeira a acordar e apenas se deitava quando a casa já estava em seu silêncio completo, depois da louça lavada e das roupas guardadas.

Em seu ritmo incansável, no sorriso que sempre acolhia as pessoas e no abraço carinhoso havia, entretanto, uma pontinha de insatisfação. Mas era apenas uma pequena pontinha visível da enorme insatisfação que crescia em sua alma; insatisfação que ela escondia de todos.

Ela mesma percebia certa irritação; uma angústia desconfortável; o desejo de dizer adeus e partir para realizar seus sonhos interrompidos e simplesmente poder se colocar em primeiro lugar novamente. Ninguém a via como uma pessoa. Era sempre vista em seu papel, em sua função. Não se lembravam de perguntar seus desejos, suas vontades, o que a incomodava, o canal que queria assistir, se gostaria de um tempo sozinha, uma viagem de férias isolada de todas as outras pessoas para que pudesse simplesmente olhar para si mesma e saber quem era, um alguém independente de todas as funções que desempenhava.

Mas ela não dizia nada. Tinha receio de magoar as pessoas que amava. Escondia seus sentimentos, colocava sua máscara de todos os dias e continuava fazendo o que era esperado que ela fizesse.

A máscara escondia a tempestade que ocupava sua mente. O sorriso constante calava seu grito. Como ninguém notava? Não estava clara sua insatisfação? Se ela se preocupava com todos, cuidava de todos, sabia os horários de todos, entendia os anseios de todos… não era natural que todos soubessem o que se passava com ela? Não deveria haver a necessidade do desgaste de ter que verbalizar. As coisas poderiam ficar no subentendido e, ainda assim, que lhe dessem um descanso, umas férias, uma tarde de solidão no cinema, algumas horas de leitura silenciosa sem que seu nome fosse chamado para resolver algo.

Entretanto, ninguém notava. Por mais que ela achasse óbvia sua insatisfação, ninguém percebia a turbulência interior. Tudo parecia bem como sempre estivera.

Quando chegou aquele dia, um dia como outro qualquer, em que nada parecia fora de sua rotina habitual, ao entrar no quarto para pegar sua bolsa e sair para mais um dia de trabalho, ela encontrou a toalha molhada sobre a cama… bem no seu lado da cama. Quantas vezes essa mesma cena já acontecera antes? Centenas? Mas naquele dia a reação dela foi outra.

Ela pegou a toalha, jogou no chão, atirou com força contra o armário alguns objetos que estavam ao alcance da sua mão, sentou-se na cama e chorou por bastante tempo até acalmar a raiva que ficara guardada dentro dela por tantos anos. Quando a ira irracional passou, escreveu algo em um papel, deixou sobre a cama desfeita, pegou seus documentos, algumas roupas, o dinheiro que havia em casa e algumas fotos dos filhos.

Entrou no carro e partiu. Não sabia para onde ia. Não sabia o que faria. Mas não pensava em voltar. Não hoje. Não em uma semana. Não em um mês. Talvez em um ano? Não sabia.

A única coisa que sabia é que ela precisava saber novamente quem era, quais eram seus desejos, seus sonhos, seus objetivos… Ela precisava olhar para si mesma como uma mulher, uma pessoa, alguém desejável, escondida entre todos aqueles papeis diários de mãe, esposa, profissional, dona de casa.

Ela iria respirar… e pensar… e sentir… e se amar.

– Sílvia Souza

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