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Parte 3: A curiosidade

Parte 3: A curiosidade
Parte 3: A curiosidade

O vício é uma coisa absolutamente terrível. Não importa qual seja o vício. Mesmo existindo aqueles que são menos prejudiciais para a saúde, a dependência psíquica e emocional pode ser muito ruim e causar sofrimento.

E, de repente, eu experimentava a abstinência. Era apenas aquele desejo de voltar a ter a amizade, as mensagens, a troca de notícias e meu aprendizado do belo idioma. Tudo bem, eu entendi a necessidade de colocar um ponto final àquela situação. Sabia que podia haver um risco para mim mesma.

Mas eu ficava com aquele pensamento fixo: será que tudo o que um golpista diz é inventado? Será que tudo é mentira? Será que não existe um mínimo detalhe verdadeiro? Talvez não nos fatos, mas talvez em algum sentimento… Não?

Acho que sou absolutamente ingênua. É o que todos me falam. O tipo de pessoa que acredita nos outros até que não haja mais opção. Não sei se a gente consegue mudar esse tipo de característica.

O fato é que não resisti à curiosidade. Eu precisava saber quem era aquela pessoa, onde morava, se era apenas um trapaceiro frio ou se havia algum sentimento de amizade naquelas conversas todas, um carinho que eu sentia, mas que poderia vir apenas do meu desejo de senti-lo.

Resolvi escrever um e-mail para o endereço que eu tinha. Uma bobagem, imaginei. Afinal, as chances de eu não receber resposta eram imensas. E eu ficaria na expectativa por algo que, muito provavelmente, nunca viria. Mesmo assim, escrevi. Perguntei quem ele era e qual era o motivo pelo qual ele fazia aquilo.

Por mais incrível que possa parecer, recebi a resposta depois de uns dois dias. Houve uma resposta. Ele sabia que haveria um risco em me dizer quem era de verdade; afinal, eu poderia denunciá-lo para alguma polícia internacional (eu não sabia de fato se isso era possível, mas imaginei que sim). Mas ele também vinha se sentindo mal por tentar me enganar. Confessou que não conseguia dormir direito e carregava uma culpa muito grande.

Aquela confissão já demonstrava seu amadorismo. Ou não? Será que a confissão fazia parte da estratégia para voltar a me envolver no golpe? Que confusão na minha cabeça! E era eu mesma a responsável por tamanha confusão. Afinal, por que escrever?

E ele me deu seu nome verdadeiro. E pediu para que eu olhasse seu perfil do Facebook; para que eu visse as fotos, o local onde ele morava, como ele era de verdade e tomasse a decisão sobre saber mais detalhes da verdade ou não. Caberia a mim.

Fiz o que ele me pediu. Vi o nome de seu país de origem e da cidade onde morava (bem na linha do Equador). Vi sua família, seus amigos, a casa simples onde morava, com apenas 2 cômodos. Olhei de verdade para a pobreza e a falta de tudo: não havia terra para cultivar nem muita opção de trabalho. As noites aconteciam sem uma cama ou cobertas. Comia uma vez ao dia, quando conseguia uma sobra de dinheiro para comer. Trabalhava em um canteiro de obras, um trabalho braçal (apesar da pouca alimentação), ganhando menos de 2 euros por dia.

É claro que eu não pude deixar de pensar que isso acontecia com muitas pessoas no meu país mesmo. Não precisava procurar longe. Mesmo assim, olhar de perto para aquela situação de privação fez com que eu sentisse uma dor profunda no coração.

Eu sei que a fonte da pobreza extrema está nas más administrações dos países, em governos corruptos, em problemas educacionais graves. Mesmo assim, não deveria haver uma pessoa no mundo que passasse fome ou sede. Isso é o mínimo do mínimo. Isso não pode chegar a ser uma ambição. Querer comer todos os dias não é ambicionar nada; é apenas querer se manter vivo.

Eu olhei todas as fotos. Vasculhei a vida de uma pessoa que me era estranha e próxima ao mesmo tempo. E dormi sem responder se eu queria manter esse contato distante… o maior problema por manter essa amizade era o fato de que ela me traria sofrimento, um sofrimento atroz…

Como eu conseguiria ajudar a mudar aquela situação?

 

(Obs: essa é uma história fictícia, baseada em acontecimentos noticiados nos jornais. Ela dá sequência às Parte 1 e 2 e ainda será continuada)

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